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terça-feira, 24 de maio de 2022

Love, Death & Robots

Assim que lançaram Love, Death & Robots na plataforma Netflix, assisti no primeiro dia. Como rejeitar uma antologia de animações curtas, eu que gostava de acompanhar no Vitrine ou Metrópolis da TV Cultura matérias sobre o Anima Mundi, apenas para ver segundos dos trabalhos ali inscritos? Fora os DVDs que catava por aí, custando os olhos da cara - ainda hoje guardo a antologia original Memories de Katsuhiro Ôtomo e minha cópia pirata de Animatrix.

Se a primeira temporada de LD&R foi maravilhosa, a segunda foi broxante. Realmente fiquei meio bolado como a qualidade de algo poderia ter caído de forma tão abissal. Eis que surge o terceiro volume e, colegas, que maravilha. São nove episódios curtinhos com de tudo um pouco: o bom humor dos três robôs da primeira temporada fazendo um tour pela Terra pós apocalíptica, desta vez tirando sarro dos sobrevivencialistas e dos mega ricos em búnqueres; a poesia sci-fi d'O Mesmo Pulso da Máquina, onde Io, lua de Júpiter, nos é mostrada como uma grande máquina, numa trama que parece misturar um pouco de 2001: Um Odisséia do Espaço e Solaris; a beleza macabra na obra-prima digital Fazendeiro, onde fiquei pasmo com uma CGI daquele porte, quando em tempos atuais a Marvel divulga o trailer ridículo de Mulher-Hulk com recursos gráficos bisonhos; e narrativas inteligentíssimas em aventuras como Viagem Ruim (que ganhou direção de David Fincher - O Clube da Luta e outros).

É difícil dizer qual o melhor episódio, porque gostei de todos, inclusive dos bem-humorados. Mas me divido entre Viagem Ruim e Fazendeiro. No primeiro, marinheiros navegam águas distantes (creio que num novo mundo, numa possível colonização espacial humana ou no multiverso), quando topam com um crustáceo gigante (thanapod) perfeito em todos os aspectos da sobrevivência: resistente, ágil, habilidoso e inteligentíssimo. Torrin é o marinheiro herói e anti-herói da trama, belo exemplo de honradez, astúcia e força, capaz de tomar as decisões mais cruéis pelo bem maior, com risco à sua própria vida. Mas a beleza macabra de Fazendeiro mexeu profundamente comigo. Neste último episódio, uma sereia cujas escamas são de ouro e pedras preciosas se apaixona e é imolada nas mãos desta paixão - o único homem que não sucumbiu ao seu canto (pois é surdo). Fiquei imaginando um jogo de videogame com CGI tão bela e avançada quanto aquela (para jogar num PC da NASA, creio). Da paisagem natural eletronicamente construída à concepção dos personagens e à poesia de uma trama sem diálogos, tudo ali é uma obra de arte refinadíssima. Roteiro e direção por Alberto Mielgo. Ele também foi responsável pelo episódio A Testemunha da primeira temporada, de maneira que há semelhanças claras entre a protagonista daquele episódio e a sereia-cigana de Fazendeiro.

Em resumo: valeu a pena dar uma chance a este volume após a decepção com o anterior.

Abraços e até a próxima.

Resumo de Fazendeiro

Resumo de Viagem Ruim

terça-feira, 26 de abril de 2022

Guerreiros são meninos no fundo do peito


Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas

Gonzaguinha

"Um caubói duro na queda e um garoto pra lá de corajoso juntam-se a Macho, o galo mais maluco do pedaço, para altas aventuras contra os bandidos mais sinistros." Se fosse na Sessão da Tarde, esta seria a chamada para Cry Macho, filme dirigido e protagonizado por Clint Eastwood, o último grande ator/cineasta ainda vivo de Hollywood. É um filme estranho, com mote fraco e desenvolvimento que não convence, baseado na obra homônima de N. Richard Nash, cujo roteiro foi adaptado por ele mesmo pouco antes de seu falecimento.

Na trama, Mike Milo é um premiado caubói com todo o peso da vida (e da idade) sobre as costas, com a missão de trazer, do México, o filho de seu ex patrão. Os motivos, saberemos lá pro final da história. Rafo, o garoto, deveria conviver com sua mãe, a belíssima Leta - rica, promíscua e viciada. Mas opta por viver nas ruas, entre rinhas de galos e pequenos furtos. Para consolidar o clichê, Milo conquistará o coração e a mente do jovem rebelde e ambos criarão um vínculo fraternal como se tivessem se conhecido desde sempre. A mãe de Rafo não quer deixá-lo ir e os capangas a seu serviço não facilitarão. Basicamente, é isso. 

Vale por ver Clint Eastwood na tela, carregando o peso de nove décadas (mal consegue andar direito) e por nada mais. Num dado momento, chega a ser ridículo quando tentam nos convencer que aquele homem decrépito está domando cavalos selvagens, firme e forte. E também quando ele desperta desejos sacanas da mexicana Leta. Mas ok. Dá para aceitar porque Eastwood não é qualquer um, tendo estrelando filmes maravilhosos como a Trilogia dos Dólares e uma das obras-primas da sétima arte: Três Homens em Conflito! Para mim, é um dos maiores Diretores da história, como falei em Meia-noite no jardim do bem e do mal.

Este pode ser o último filme de Clint Eastwood. Não o vejo se arriscando mais numa empreitada similar. E, se for, ao menos manteve sua identidade até o final: o caubói não se entregou e não há espaço no mundo para floreios sobre "gente boa" e "gente má": todo mundo é filho da puta. Os mexicanos não são gente pobre do bem e os texanos disputam a canalhice pau a pau. Mike Milo, numa visão meio epistemológica da coisa, é apenas o agente que observa, a nosso serviço.

Cry Macho vale a pena? Se você estiver à toa e ele estiver disponível facilmente, sim. Percebi que a avaliação no iMDb está cada vez pior. Claro que aquilo não quer dizer muito, algumas vezes, considerando, por exemplo, que The Batman (2022) tem nota superior aos dois filmes de Tim Burton. E, não raro, o iMDb altera cálculos quando algum filme lacrador é "atacado" com críticas e notas negativas, a exemplo de Marighella. Mas isso é um indicativo que Eastwood poderia se aposentar de vez antes de bater as botas com o "estigma Renato Aragão": grandes homens que não sabem envelhecer sem largar o osso e passar vergonha.

Abraços machos e até a próxima.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

The Bosta e a lição de Jogador Número Dois


© Arte por PhaseRunner

O OASIS inteiro é um cemitério gigante, assombrado pelos ícones da cultura pop morta-viva de uma época remota. 
O santuário de um velho louco para um monte de porcaria inútil. (p. 288)

Falei um pouco sobre o romance Jogador Número Um e sua adaptação para o cinema. Foi um bom livro de Ernest Cline e, não exagero, vivi e revivi tanto aquele universo cultural evidenciado no romance que não perdi quase nenhuma referência, mas apenas as relativas a jogos mais obscuros. Assim, arrisco que 90% do romance me desceu redondo. Foi gratificante lê-lo e divertido assistir ao filme de Steven Spielberg, com roteiro do próprio Cline em parceria com Zak Penn. Quem quiser conferir, acesse Um mundo sem erudição em Jogador N.° 1.

Na sequência (Jogador Número Dois), Wade Watts torna-se um dos homens mais poderosos do planeta, juntamente com sua trupe de intrépidos e impávidos geniozinhos do mundo virtual. A IOI - megacorporação malvada que só pensa em lucro - acabou definitivamente e Wade tornou o Oasis ainda mais relevante ao mundo após a descoberta de INO (Interface Neural OASIS), onde todos os sentidos humanos poderiam ser levados à realidade virtual, tornando-se, assim, uma quase extensão da realidade física. E mais: a tecnologia INO possibilita a captura de nossa consciência, ao criar clones de seres humanos, aptos a habitarem eternamente ambientes virtuais. Mas surge um novo vilão: a captura de consciência de James Halliday (sua versão digital, de certa forma), gênio da tecnologia que iniciou toda a corrida pelo easter egg que, encontrado por Wade no primeiro romance, lhe deu acesso a toda a fortuna do magnata e o acesso à condução do OASIS. Nesta sequência, a concepção de Wade e do finado Halliday como pessoas que nem para anti-heróis servem só cresceu. Assim, Wade está mais fraco do que nunca, emasculado e perdido, sem o norte da mulher forte em sua vida: a moralmente superior Samantha, sempre certeira em suas atitudes, sem falhas morais e independente da presença de homens tóxicos ao seu lado (tanto que abandonou o pobre trilionário Wade, logo após ele repartir a herança de Halliday com todos, inclusive com ela).

Para sua evolução, a fim de tornar-se alguém melhor e poder ser aceito novamente por Samantha, Wade explora experiências na INO-net, onde diversas consciências e vivências podem ser compartilhadas e vivenciadas como se fossem suas. Assim, ele é grato pela existência do O-gênero, pessoas que vivenciavam o sexo exclusivamente por meio de seus headsets INO "e que também não se limitavam a vivenciá-lo com um gênero ou orientação sexual específica", e chega a afirmar que: "Graças a anos navegando pela INO-net, agora eu sabia como era estar na pele de todo tipo de pessoa, fazer todo tipo de sexo. Eu transei com mulheres sendo outra mulher, e com homens e mulheres sendo homem. Reproduzi arquivos .ino de vários tipos diferentes de sexo hétero, gay e não binário, apenas por pura curiosidade, e cheguei à mesma conclusão que a maioria dos usuários INO: paixão era paixão e amor era amor, independentemente de quem eram os envolvidos (...)" (p. 107). Muito fofo isso, gente!

Se Wade é frouxo e este é o protagonista ideal na concepção de Ernest Cline, o destino de James Halliday, neste segundo livro, é pior: misógino e fascista, é assim que ele é descoberto na trama, para o desapontamento de todos. E nem John Hughes escapou da sanha revisionista de Cline. Embora o livro dedique à obra cinematográfica de Hughes dezenas de páginas, sua obra é apontada como errática em diversos momentos, por falta de representatividade, mesmo que o autor/diretor tenha escrito baseado em sua vida, nas experiências que viveu, entre as pessoas que compunham sua bolha. Sou escritor amador, como falei aqui; e todos os meus trabalhos se passam no mundo que conheço, entre as pessoas que conheço e conheci no agreste e semiárido; não há gaúchos em terras verdejantes no que escrevo. Nas palavras de Aech (garoto trans negro), a obra de Hughes é um "inferno branco", se perguntando: "Será que tem uma pessoa negra sequer nesta cidade?". Mas a sempre sensata Samantha lhe responde: "Este planeta tem um sério problema de diversidade, como todos os filmes dos anos 1980". Ela cita "este planeta" porque, no OASIS, Halliday criou diversos planetas exploráveis, em homenagem às suas paixões da juventude: filmes, música, jogos etc.

Para não ficar muito longo, paro por aqui sobre Jogador Número Dois. Mas ficou claro que a cultura pop contemporânea não comporta mais produções que não se curvem às pautas ideologicamente "corretas". E assim foi o Batman de Matt Reeves, que veio para tentar limpar de nossas memórias o Batman fascista do facista-mor hollywoodiano Christopher Nolan.


Gatos comem morcegos? (...) Morcegos comem gatos?
Alice no País das Maravilha

Eu queria ter visto The Batman no cinema para manter a tradição de quando, desde 1989, assisti à obra-prima de Tim Burton. Não assisto a mais nenhuma produção de súperes, exceto Batman, por amor ao personagem. O Cruzado Encapuzado representa uma ideia poderosa, mesmo quando na feira da fruta. Mas, pelo que vi neste último filme super duper, afundarão - em breve - o morcego numa cova rasa, sem honras. Mas vamos lá. Queria ter visto no cinema, mas os lunáticos do lockdown conseguiram quebrar os dois cinemas da pequena cidade onde resido. Devido às restrições, os multicines não conseguiram retornar sem antes quitar uma penca de dívidas e encargos acumulados. Sem saco para procurar alguma versão socializada, vi apenas hoje na HBO. E, colegas, que bosta.

Acredito que, em breve, Batman será mesmo o vilão dos próximos filmes, um entrave às revoluções sociais implementadas por gente boa como Coringa, Charada e toda a trupe. Aliás, o que eles andam fazendo no Arkham, vítimas do sistema manicomial burguês? Não é improvável os roteiros evoluírem para isso, considerando que, nesta grandiosa produção de duzentos milhões de doletas, ninguém presta. Nem Batman, aliás, que quase se vê levado ao lado obscuro da força! Na trama, o macho tóxico é a causa de todos os males sociais. Selina-Gato (uma jovem negra empoderada) chega a dizer isso explicitamente, quando menciona os "babacas brancos de Gotham". Mas ela não está sozinha nesta empreitada. O único policial honesto da cidade também é negro (Gordon) e ajudará a salvar a vida da futura Prefeita que limpará a cidade das mazelas sociais: a beldade negra e aguerrida Bella Reál, praticamente uma personalidade à altura de Kamala Harris! Ela, sim, possui as causas e os valores corretos, em meio a um lodaçal onde até mesmo os pais de Bruce têm segredos podres sepultados em sangue e corrupção.

Em 1989, antes da Era da Lacração (esta, definida por Eric Hobsbawm como: o justo e adequado comando da geopolítica, cultura e entretenimento via Twitter), Burton escolheu o brilhante Billy Dee Williams para dar vida a Harvey Dent. Mas, ali, ele não era a única maça saudável do pé: Bruce já secara as lágrimas pelo passado, o crime não tinha qualquer plausibilidade e Thomas Wayne ainda podia descansar em paz, como cidadão honrado que foi.

De qualquer forma, o filme possui grandes momentos, pois pequenos elementos mitológicos, a bem (ou mal) da força, se fazem presentes: engenhocas mortíferas para ceifar vida com dramaticidade, os gatinhos de Selina Kyle, o ar detetivesco na concepção até mesmo da capa do Morcego ou coisinhas menores, como quando Oswald Cobblepot está com pés e mãos atados e precisa andar como se fosse um pinguim. E também há explosões e perseguições!

Eu pensei que Matrix Resurrections (também visto no ótimo serviço da HBO Max) seria minha grande decepção deste ano, mas me surpreendi. Matt Reeves seguiu a lição de Ernest Cline e, assim, ficará bem na fita, livre dos ataques de tuiteiros - embora tenha sofrido uma pequena crítica por ter escolhido um asiático a ser espancado logo no início do filme.

Abraços e sigam com Laerte, abaixo!



terça-feira, 12 de abril de 2022

Deserto Particular [ Cinema, 2021 ]


© Foto por Tovinho Regis

Atravessava ponte, ai que alegria
Chegava em Juazeiro, Juazeiro da Bahia

(Jorge de Altinho)

Às vezes penso por que não fui para a vida acadêmica ou carreira militar. São bons lugares para bestar, ganhando bem. Tenho parentes professores nas "federais" tupiniquins e é só moleza. Alguns ainda estão em casa devido à pandemia eterna, gritando "Fora Bozo!" e com o holerite em dia. E, quando voltarem a lecionar, serão no máximo dois dias na semana, pois são poucas horas de sala de aula por semana e o restante é embromação. Já militares se aposentam cedo e ainda ganham um troco quando partem para inatividade, como forma de carinho do Estado. O trabalho é leve, basicamente administrativo e de treinamento para o caso de eventual estado de defesa etc. Nunca vi militar pegar no pesado. E nem devem, aliás. Se não há guerra, que curtam a vida lendo as ordens do dia sobre as ordens do dia para as ordens do dia, até o dia acabar. Já o serviço público onde me encontro há quase dezoito anos está indo para a pocilga e não tenho mais ritmo nem saco para estudar e pular fora. Aguardo apenas o naufrágio. Mas vamos lá...

Tenho uma casa que nem queria vender. Então um conhecido que estava na iminência de reformar como Capitão, morando há uns anos em vilas militares pelo Brasil, me disse querer comprar o imóvel, pois sairia da residência funcional e ficaria morando na cidade, pois criara vínculos na região (devido a parentes da esposa) e porque continuaria atuando no serviço militar, reformado, mas como prestador de serviço civil. Uma das inúmeras situações esquisitas encontradas em nosso serviço público. 

A casa era ideal para ele: perto do serviço e com garagem imensa (ele possui vários veículos). Então ele me ligou certa vez e disse que, no dia seguinte, iria até mim fechar o negócio, aproveitando o tempo até lá para aguardar a confirmação de Deus. É um cidadão religioso, notório por isso. Qual meu espanto quando, no dia seguinte, ele me procura com o pastor de sua agremiação religiosa para ver o imóvel. A confirmação de Deus era o aval pastoral. Pensei que seria oração! E, no caso, o pastor tinha outras casas em mente, para seu fiel. Então o colega milico desistiu do negócio. Para mim, tanto faz. O imóvel nem estava à venda. Ele que me procurou dizendo ter interesse! Já deve ter se arrependido.

Tenho um colega de trabalho que é Batista. Ele entrega ao pastor dez por cento de sua renda líquida. Certa vez, num jantar, me confidenciou ser um homem mau, que possui bastante maldade dentro de si e narrou alguns de seus costumes passados. Então a religião lhe fez bem, ajudando-o a ser alguém melhor. E creio nisso. Não tenho religião. A última vez que demorei numa Igreja foi para o batismo de minha filha. Minha esposa gosta de igrejas católicas e vai com a família dela. Mas defendo todas as formas de religião, pois, em regra, por uma visão meramente utilitarista da coisa, faz bem: retira o sujeito das drogas, do alcoolismo e o ajuda a tentar ser alguém melhor. Isso além das obras sociais e das contribuições históricas à saúde, ciência, artes e educação (no caso do cristianismo, claro). Então é isso: religião é uma coisa boa, o problema é a mente fraca das pessoas. Dito isso, vamos a este duvidoso filme nacional: Deserto Particular.


Daniel (Antônio Saboia) é um policial curitibano que fez merda no serviço. Não fica claro, mas me parece que, durante a formação de oficiais novatos, ele levou um aluno ao coma. Enquanto sua cabeça está sob a guilhotina, aguardando julgamento e sanções administrativas (está suspenso e sem grana), seu pai encontra-se esclerosado, cagando nas calças e com o pé na cova. Sua irmã lhe diz que se encontrou como lésbica (choque!) e ele precisa ganhar a vida, temporariamente, como segurança em festas privadas. Seu único alento é a amizade virtual com Sara: moradora de Sobradinho, cidade baiana. Então, repentinamente, Sara deixa de responder às suas mensagens e ligações. E ele, com a cabeça fodida, vai de Curitiba até Sobradinho numa Chevrolet D-20 cabine dupla que eu, particularmente, adoro. E, chegando lá, descobre que Sara é Robson (Pedro Fasanaro), um pequeno gay da cara espinhenta com um desejo reprimido de ser mocinha. Para quem estava com a cabeça fodida de tanto problema, o sujeito quase surta de vez, pois deu uns amassos no jovenzinho, com direito a pegada na piroca para descobrir se é macho ou fêmea.

O filme consegue ser bonito. Sai do frio para a aridez nordestina. Acho, no entanto, que exploraram mal a paisagem em torno do Velho Chico. A barragem de sobradinho e seu entorno são lugares exuberantes e, na tela, pareceu tudo meio morto. Tanto Juazeiro quanto Petrolina (abordadas brevemente no filme) são cidades lindas e, para mim, pouco lugar é tão bom para tomar uma cerveja quanto suas orlas. Mas, no geral, a fotografia me encantou, especialmente pela ambientação noturna. A cena onde Daniel descobre que "ela é ele" se deu perto da eclusa, lugar que gosto bastante. E à noite! Se esteticamente a produção agrada, no enredo deixa aquele cheiro de afetação. A avó de Robson, evangélica ferrenha, une-se ao pastor para lhe curar do "males do homossexualismo", tão logo o encontra usando vestido. Ele é levado a um ex-travesti (Flávio Bauraqui), hoje irmão atuante no templo, que trocou a felicidade pela salvação, conforme suas palavras. Mais à frente, o pastor encontra fotografia de Robson como Sara, e ameaça expô-lo (exposed consagrado?), caso não se liberte das tentações do capiroto. Então ele decide ir para o Rio de Janeiro, não sem antes ter uma noite de sexo ardente, num banheiro de rodoviária, com o Daniel, mais manso após meditar a respeito de sua condição. Infelizmente, num filme com duas horas de duração, não há como desenvolver personagens assim, sem ser abruptamente. Mas até que, nos poucos minutos disponíveis e após diálogos bem escolhidos, as conversas entre Daniel e Robson servem bem para mostrar um pouco dessa "conversão" de Daniel. Ou melhor: dessa aceitação.

Infelizmente, o filme precisa "sambar na cara da sociedade patriarcal opressora machista e religiosamente reacionária". E mostrar o cristianismo como adversário da comunidade LGBTQYZ+H2O foi de mau gosto tremendo e, penso, um desfavor tanto aos cristãos quanto aos gays. Quando o "irmão" interpretado por Flávio Bauraqui se afirma infeliz por deixar de ser travesti, mas árduo na sua busca por salvação, a mensagem anticristã é ostensiva e parece declaração de guerra. E, assim que a vi, lembrei logo dos amigos gays, lésbicas e transexuais de minha esposa, com os quais mantemos relativo contato, todos frequentadores de igrejas e templos, se dando bem ali, sendo quem são. Um deles até canta toda semana num templo evangélico! Até onde sabemos, ninguém lhe pergunta sobre o furico. O irmão ex travesti poderia estar feliz em sua escolha, assim como Sara/Robson, igualmente, também poderia se manter feliz sendo quem. Tão simples. Quem precisar e quiser, que se encontre na religião, em templos, igrejas, sinagogas, terreiros ou explodindo-se em troca de quarenta virgens.

Na postagem anterior, falei da bancarrota do Oscar enquanto instituição cultural que já foi. E, creio, Deserto Particular poderia ser algo melhor, um belo filme como Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005), e não um lixo como Moonlight (2016). Mas, para ser o candidato brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a lacração precisa ser ostensiva. Além disso, se auto proclamou "filme sobre amor em tempos de desamor". Francamente, não sei de onde essas pessoas retiraram a ideia que já houve tempos de amor e paz plenos na humanidade. Há uma história de Constantine que gosto bastante, chama-se Todos os dias seguintes, da brilhante fase Garth Ennis e Steve Dillon. Ainda a tenho na coleção, num gibi da extinta Metal Pesado - Hellblazer n.º 03, de 1998. Na trama, John encontra uma entidade vampírica antiga, vagante do espaço sideral, que posou na Terra na aurora dos tempos e derramou o sangue do primeiro homem. Mas ele diz: "Antes de eu tê-lo encontrado, ele tinha matado o seu filho mais velho, em uma briga por uma manga.". Pela visão cristã, todos nascemos infectados pelo pecado original. Apenas com força de vontade, fé e meditação (oração), nos tornamos pessoas melhores. A ideia que o homem nasce bom é delírio de Rousseau, o primeiro esquerdista da História, sem qualquer base histórica, humana, psíquica etc. Rousseau não cuidou nem dos próprios filhos, nunca trabalhou e, realmente, não conheceu a vida, assim como as pessoas responsáveis por Deserto Particular. Na aurora do homem, Caim matou Abel. Até Ötzi foi assassinado! Alguém escalou 3.000 metros, há cinco mil anos, no gelo, para matar ÖtziAí vem essa turma cheia de pó falar em "tempos de desamor", com filme meio-boca para curar os "males do conservadorismo".

Achei bacana, entretanto, a escolha de Total Eclipse of the Heart para dois momentos relevantes do filme. Nada como o mais brega do flashback para contrastar com os desertos nordestinos.

Abraços eclípticos e até a próxima.



Imagens de minha edição


terça-feira, 5 de abril de 2022

Coda de ânus é pênis


© 1988, Giuseppe Tornatore, Cinema Paradiso

Um Oscar marcante em minha vida foi o de 1995. Concorrendo a melhor filme, tivemos: Forrest Gump, Quatro Casamentos e um Funeral, Pulp Fiction, Quiz Show e Um Sonho de Liberdade. Assisti a todos esses filme em VHS e realmente não sei qual o melhor. Além disso, ainda foi o ano de Ed Wood de Tim Burton, onde Martin Landau levou o careca para casa por sua interpretação magnífica de Bela Lugosi. E Tiros na Broadway - do sacrossanto e blindado maníaco sexual Woody Allen - concorreu a algumas estatuetas.

Quando eu era guri, não ligava pra trilha sonora de cinema. Possuía tio e padrinho que tinham estantes cheias de CDs com trilhas de cinema. Não estou exagerando. Eram estantes, mesmo. Meu padrinho possuía uma "sala de som", onde não víamos a cor da parede de tantos móveis embutidos lotados de vinil, CD, VHS, k7 e laserdisc. Eu achava aquilo um desperdício de dinheiro. Quem conseguia ouvir uma trilha sonora de cinema? Quando me tornei o que chamam de adulto, passei a amar. E falando em música, também em 1995, tivemos Thomas Newman concorrendo com dois trabalho contra Hans Zimmer, Alan Silvestri (Forrest Gump) e Elliot Goldenthal. Devem ter escolhido Hans Zimmer por mero sorteio. Realmente, a trilha de O Rei Leão (assisti a estreia no cinema, com minha prima Denise, no Cine Maciel, situado na rua de minha avó!) é encantadora. Mas, quando penso em Forrest Gump e "Libera Me" - e tantas outras de Entrevista Com O Vampiro - realmente não sei qual seria a melhor.

Isto era o cenário de uma premiação. Houve época (não tão distante) que (quase) tudo fazia sentido. Hoje, nenhuma premiação quer dizer mais nada e alguns grupos endinheirados já vêm exigindo cotas para o Nobel. Em Literatura, há algo parecido com cotas. Na Paz, também. Mas querem levar isso à Física, Química e Medicina.

Percebi que o Oscar havia chegado ao fundo do poço com Moonlight (2016). É só uma história sobre um garoto sexualmente frustrado que aguarda anos e anos para poder, finalmente, dar o anel ao macho de sua vida. E antes que alguém me acuse de homofobia, destaco que Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005) foi uma das melhores histórias sobre o amor levadas ao cinema. Moonlight é um lixo do recente cenário extremista de Hollywood.

Digo tudo isto porque tentei assistir a CODA - No Ritmo do Coração, vencedor do Oscar de Melhor Filme neste ano. Desisti de continuar aos 57:42 min e não pretendo retomar. A vida é curta, tenho muitos livros a ler (além de gatos, cachorro e galinhas a cuidar), quintal para limpar e, colegas, não posso desperdiçar meu tempo cada vez mais precioso. Solenemente, desisti de conhecer o que há de novo. Não procurarei mais as novidades da música, cinema ou TV. Se topar com algo meramente por acaso, ok. CODA é um filme fofo, comédia romântica cute dispensável e nada mais. Mas aborda exclusivamente capacitismo e, assim, emplacou. Acho pouco provável que, após quase cinquenta minutos, possa haver algo que valha a pena no filme. E não quero mais nem saber. Foram cinquenta minutos que eu poderia estar vendo algum filme "Z", enquanto fumo meu charuto na varanda (onde mantenho uma TV).

Não há novas formas de fazer cinema, música, quadrinhos etc. Me parece que todas as possíveis maneiras foram esgotadas em pouco tempo e, agora, todos estão perdidos. Não vale a pena encarar essas mudanças com ressentimento, tampouco ódio. Mas: meus olhos e ouvidos, minhas regras. Assim, apenas faço a opção de seguir adiante, sempre, mas olhando e ouvindo para trás, no aconchego do passado.

Abraços cinematográficos e até a próxima.





quarta-feira, 30 de março de 2022

Assim é a vida, Doug Funnie


Paty, você é minha Maionese
Paty é o picles da minha salada
Paty é o açúcar do meu chá
Você é o molho do meu cachorro quente
Paty, você é minha Maionese

Não recordo exatamente o ano em que conheci Doug, cultuada animação do canal Nickelodeon criada por Jim Jinkins. Acho que eu estava na sexta série. Mas talvez tenha sido na sétima. Logo, foi entre os anos de 1993/1994. Mas recordo bem quando, numa manhã, dois colegas conversavam sobre o desenho, que podia ser assistido antes de O Mundo de Beakman (ou seria logo após?). Entrei na conversa e, na mesma noite daquele dia revelador, conheci estes dois programas então marcantes na minha infância. Na época, eu tinha o privilégio de possuir uma TV 14" com controle remoto em meu quarto, apenas para meu uso exclusivo! Eu era, então, um jovem magnata. Então podia ver o início de noite da Tv Cultura livremente, sem atrapalhar novelas e telejornais da família.

Assim, assisti à vida de Douglas Funnie à exaustão, com episódios repetidos até o cansaço. Já "adulto", meio afastado daquele mundo dos desenhos animados, descobri que a Disney havia comprado a série. Descobri que isso ocorreu em 1996 (!). Pois é... as novidades tardavam a chegar antes da era da banda larga. E apenas este ano assisti a alguns episódios da fase Disney. Por acaso, o encontrei na grade da Disney+ com minha filha. Então sentamos uma tarde para assistir. Não gostei tanto. Não era o mesmo Doug. Mas a Disney, logo no primeiro episódio, deixou claro que o mundo muda, nada é como antes e que, possivelmente, aquele Doug não seria para mim.

No primeiro episódio, a vida do jovem careca e barrigudo (Charlie Brown?) está de pernas para o ar. Seus poucos fios de cabelos estão compridos e ele não decide que corte melhor combinaria com sua nova idade. A lanchonete preferida fechou. Sua escola foi arruinada e outra está sendo construída. O Prefeito agora é o novo Diretor do colégio. Sua banda preferida - Os Beets - anunciam o fim. No cinema, o superagente que ele admira se tornou um bobalhão (algo como de Roger Moore a Mr. Bean). Paty, Judy,  Skeeter e todos os seus amigos estão diferentes: amadurecidos. E Doug nos diz que queria apenas seu mundo de volta, como era antes. Para finalizar, sua mãe anuncia que está grávida!

Num momento do episódio, Doug delira relembrando a escola antiga: que a merenda era deliciosa e ele sempre queria repetir a "carne mágica" e que o antigo diretor Lamar Bone era bastante camarada. Skeeter interrompe seus devaneios e lhe recorda que a "carne mágica" era um grude intragável e que o Sr.º Bone era o maior carrasco. Logo, Doug se perde nas enganações da nostalgia de que "na minha época era melhor".

Se a palavra "emblemático" aplica-se bem a algo, é a este episódio de Disney's Doug. O mundo gira, o homem não é o mesmo homem nem o rio etc etc. Doug Funnie nos mostra isso de maneira didática, ao mesmo tempo em que a Disney nos diz: "não venha chorar aqui, seu velho reclamão".

Abraços funnies e até a próxima.

domingo, 27 de março de 2022

Um Maluco no Pedaço

Quem leva a sério o Oscar? Acho que apenas influenciador oba-oba de Youtube e a grande mídia, a qual também está no descrédito e no fundo do poço, junto a todo mainstream. E isso vale para tudo. Prêmios, instituições culturais etc., está tudo morto, pútrido, purulento. A fedentina se tornou insuportável de tal forma que, há anos e anos, não assisto a Oscar nem quero mais saber quem arrebatou o Nobel de Literatura. Está tudo igual na Academia Brasileira de Letras, laureando gente medíocre, enquanto bons escritores amargam o ostracismo e às vezes ganham um lugarzinho ao sol quando conseguem agradar às pessoas certas.

O tapão na cara de Chris Rock, durante a "cerimônia" de entrega da estatueta careca, é emblemático. Will Smith, o corno manso mais famoso do show business, até sorriu da piada sobre a careca de sua digníssima e honrada esposa, a ninfomaníaca Jada Pinkett Smith. O vídeo é bem claro. Mas, após sorrir, ele olha para a esposa que estampa uma cara de merda e, assim, sobe o palco para esbofetear Chris Rock. Aliás, olhando aquela plateia, quase todos possuem cara de merda, expressões insossas, superiores e de poucos amigos. São as pessoas mais esnobes do entretenimento, a elite socialista de Hollywood. Acho que o simples fato de respirar o ar naquele ambiente pode dar câncer, de tanta malignidade no espaço.

"Ai, mas a Cara-de-Cu sofre de uma doença, tadinha". Também padeço de alopecia, junto a 42 milhões de brasileiros. É só uma careca. Nada de mais. Há tratamentos, implantes etc. Não é o fim de uma vida. Aliás, passa longe disso. Adoro ser careca e vemos naquela senhora que ela fez disso um estilo! A coroa deu pra todo mundo e continua traindo o Will Cuckold. Basicamente é assim: "Coma minha esposa, mas não faça piada sobre sua careca, onde metade da Califórnia esfrega a piroca".

Quem está no show business e senta na primeira fila de um evento apresentado por Chris Rock sabe o que rolará. Recordo da cerimônia onde Steve Martin pegou no pé de Jack Nicholson a noite toda, sempre tirando uma de sua sexualidade, entre outras coisas. Quase toda entrega é assim. Se o cidadão não quer correr o risco da exposição, fique em casa. É como um amigo careca que possuo e nunca vai a show de humor, pois alega que o humorista encarna na careca dele! E, ainda assim, destaco que nenhuma indisposição deveria ser resolvida desta forma, como fez o Will Cornão.

De certa forma, a cena grotesca de agressão a um comediante por piada com a careca da velhinha talvez seja o ponto alto do show. Aquelas pessoas são assim e se merecem. Seria interessante que todos pudessem trocar tiros no local. Seria ao menos um programa interessante de ser ver.

Abraços pútridos e até a próxima.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

O Nome da Morte [ Cinema ]


"Óia, tio, um pau de fogo."

Júlio Santana foi um assassino de aluguel que matou 492 pessoas, falecendo tranquilamente em seu sítio, tendo passado apenas um dia preso em toda sua existência. Seus serviços de pistoleiro foram contratados, dizem, até mesmo para execução de membros da extrema-esquerda que integravam grupos armados no anos de chumbo em nosso país. Sua vida foi debulhada pelo escritor Klester Cavalcanti e, em 2017, serviu de inspiração para o filme O Nome da Morte, dirigido por Henrique Goldman.

Não sei quem é Henrique Goldman. Mas o roteirista George Moura me agradou no passado com o seriado Onde Nascem Os Fortes, comentado por mim aqui no blogue.

Este filme está escondido na grade da Netflix e só o descobri por recomendação do Socializando. Considero-o um ótimo filme pelos seguintes motivos: é curto, simples e objetivo. Possui fotografia belíssima e boas atuações. Até o Marco Pigossi teve boa atuação como Júlio Santana, no desenrolar da trama. Nos primeiros minutos, não me convenceu como o "menino ingênuo do interior". Mas desenvolveu muito bem como pistoleiro. André Mattos, como sempre, está estupendo, vivendo Cícero, tio de Júlio, que o insere no mundo do crime.

O filme retrata os assombros de nosso imenso Brasil: miséria, vida humana sem valor algum (por isso, zele pela sua), polícia corrupta e clima geral de terra-de-ninguém. Quem habita grandes centros não sabe disso. Mas o Brasil é realmente imenso e a maior parte de seu território pertence a quem atira mais rápido.

Abraços plúmbeos e até a próxima.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Dona Lola à sombra de Stalin

Na primeira cena de A Sombra de Stalin, George Orwell inicia a escrita d'A Revolução dos Bichos: "O senhor Jones, dono da Granja do Solar, fechou o galinheiro para a noite...". E logo passamos a outro senhor Jones, de primeiro nome Gareth, jornalista galês que expôs ao mundo os horrores do Holomodor (morte pela forme) ucraniano. Outra figura histórica com destaque é Walter Duranty, correspondente do The New York Times em Moscou, "especialista" em política internacional e ganhador do Pulitzer (premiação que lhe conferia autoridade), que já na década de '30 produzia fake news para a grande mídia estabelecida, sendo irreprochável por sua autoridade de "jornalista sério". A troco de grana, boa vida e por pura ideologia, Duranty enganou o ocidente, durante anos, com notícias sobre as maravilhas do comunismo implantado na antiga URSS.

Gareth Jones foi à Ucrânia e viu a morte por forme de perto, se atrevendo a peitar as fake news do establishment midiático e, devido a isso, comendo o pão que o Diabo amassou. 

O Holomodor não foi apenas um desastre econômico após a coletivização forçada de terras: foi a busca pela mudança na tessitura social de um local, experimento de eugenia histórica e social, a busca por um novo mundo a partir da matança. Isso é o comunismo (ou socialismo, como queiram). Ideologia macabra que conquistou corações como o do próprio George Orwell - escritor ambíguo que chegou ao final vida acreditando no "socialismo democrático" (seja lá o que for isso), mas sabendo que nenhum sistema igualitário poderia dar certo, porque é antinatural e sempre nos levaria ao autoritarismo.

Em um determinado momento do filme, Gareth pergunta a uma ucraniana o que houve ali, ao que ela responde: "Homens vieram aqui e acharam que podiam substituir as leis naturais". Uma camponesa poderia não saber se expressar assim. Mas sentiria que a política é artificial e os ideais coletivistas, postos como foram, são antinaturais. Outra pessoa pobre e sem instrução que sabia disso é Dona Lola, a mãe-ideal de Éramos Seis, romance maravilhoso de Maria José Dupré.

Em Éramos Seis, Dona Lola possui três bons filhos e um vagabundo: Alfredo. Este sempre desejou ser rico, gastava horas delirando com o dia onde teria bastante grana para morar em mansões e andar de carrões (com direito a motorista). Mas nunca gostou de trabalhar e quando arranjava algum trabalho era para roubar o patrão e se lamentar da vida. Em pouco tempo, lhe caíram no colo ideias marxistas: luta de classes etc. Logo, Alfredo "descobriu" que era infeliz porque no mundo havia ricos. Ele não tinha um carrão porque algum ricaço lhe roubou. O justo seria que as pessoas com alguma graninha dividissem tudo com ele. Quando não estava vagabundeando ou roubando, Alfredo estava extorquindo a mãe doceira para comprar roupas caras e perfumes. Só andava na beca e cheiroso!

Em vários momentos, Alfredo aproveita para destilar seu refinado conhecimento sobre marxismo de boteco. Fala de livros, teorias e personalidades históricas, de maneira bem superficial. Em um desses momentos, sua mãe lhe contrapõe com a natureza humana, como transcrevo abaixo.

‒E suas ideias socialistas?

‒Bem. Estudei e entendo um pouco por causa do tal amigo que tenho. Todos somos socialistas, a senhora, eu, todo o mundo.

‒Não diga bobagens. Eu não sou.

‒Mamãe, a senhora pensa que socialismo é um bicho-de-sete-cabeças. Nada disso. É uma luta de classe entre o capitalista e o proletariado Marx chamava os capitalistas de aventureiros, devido à grande cobiça que os domina e o ideal de Marx era dividir os bens, os meios de produção e outras coisas entre os operários; não deixar tudo na mão dos capitalistas, quer dizer, não deixar eles terem tudo e o proletariado não ter nada. Chama-se uma revolução social. Não acha nobre a teoria?

‒Dividir a propriedade, o dinheiro, os bens com os outros? Isso é comunismo, eu já disse. Então esta nossa casa que custamos tanto a pagar, levamos anos economizando, passando apertado, sem roupas suficientes e agora tenho que repartir a metade com o genro de D. Genu, por exemplo, que não faz nada certo? Um dia trabalha, outro dia não? Vive de biscates? Não. Deus me livre!

Alfredo começou a rir e sentou-se de novo na cadeira:

‒A senhora é formidável.

‒Pois não é isso que está falando? Sua teoria não é essa? Repartir tudo com os que não têm? 

‒Não é bem assim. Seria muito longo explicar tudo à senhora, mas não é isso. A senhora não é capitalista; o ideal é impedir que o capitalista ajunte tudo nas mãos e obrigá-lo a repartir com o proletariado.

‒Está certo, mas apesar de não ser capitalista, eu tenho esta casa e você falou também em bens, não falou? Há muita gente que não tem uma casa como esta, logo, preciso repartir com aqueles que não têm. Está errado, filho.

Alfredo jogou fora o cigarrinho e ficou um instante pensativo. Perguntei.

‒Gosta de figos em calda?

Olhou para mim com um olhar estranho:

‒Não. É muito doce. Por quê?

‒E de café, você gosta?

‒Ora esta, mamãe. Tomo café o dia inteiro; o que tem isso?

‒E Isabel gosta de café?

‒Nunca a vi tomando café. Por quê?

‒E ela gosta de figos em calda?

‒Gosta, porque quando vem de Itapetininga, ela come tudo.

‒ Julinho fuma?

Ele começou a rir.

‒ Já estou adivinhando onde quer chegar. Não.

‒E você?

‒O dia inteiro. Até onde vai?

‒Não vou longe. Você é o mais alto dos irmãos; Carlos é de altura regular, Julinho é o mais baixo dos três. Você é louro, Julinho é moreno, Carlos não é moreno, nem louro. Os cabelos de Isabel são pretos, não são? Que engraçado! E você é louro. E no entanto vocês são irmãos, filhos dos mesmos pais, crescidos no mesmo lar.

Ele sorriu e ficou me olhando; comecei a forrar as formas de empadas com a massa:

‒Você gosta de café, Isabel não toma café. Carlos é estudioso e só está feliz com um livro nas mãos; você não gosta de estudar. Julinho gosta de ajuntar dinheiro, desde pequeno gostou de dinheiro. Você não pode ter dinheiro no bolso, quanto tem, quanto gasta. Joga pela janela fora.

Não é isso mesmo, Alfredo?

Ele sorriu mais:

‒Onde está o fim da história?

‒O fim da história é que todos somos diferentes, meu filho. No físico, no moral, no gosto, no caráter, nas particularidades, nas tendências, na essência, enfim. E como podemos viver igualmente, dividir igualmente o que possuímos e levar o mesmo padrão de vida, se somos tão diferentes como os dedos da mão?

‒Ora esta! D. Lola também tem suas teorias!

Um dos fundamentos do apelo massivo ao esquerdismo é a inveja. Há diversos elementos, claro. Há cérebros como Eric Hobsbawm, para quem o morticínio é o caminho adequado para refundar a existência e o próprio homem à imagem da ideologia. Há a gurizada de apartamento, adepta do lacre vazio. Há os políticos e burocratas que surfam na onda do inchaço estatal. Há os artistas bancados com grana pública e colados na mídia mainstream. Há vários. E os invejosos, como Alfredo. E pessoas como Dona Lola e a camponesa de A Sombra de Stálin, que falam de coisas cada vez mais distantes como "natureza humana" e "ordem natural". Do diálogo acima, a idosa calejada pela realidade se opõe ao antinatural do coletivismo. Suportamos o coletivo até poucos limites: o Estado moderno. Além disso, é insanidade.

É isso. Finalmente assisti a este filme e não pude deixar de associar aquela agricultora faminta à Dona Lola: qualquer ser humano razoavelmente são das ideias, com alguns neurônios sadios e que sentiu a vida ao seu redor (suou, sangrou, sentira dor, rezara ou meditou, temeu pelo povir e amou) percebe de cara a malignidade dessa engenharia social que, há séculos (antes mesmo do marxismo), poucas mentes e grandes fortunas quase dinásticas querem empurrar à nossa existência.

Veja o filme, leia o livro! Valem a pena.

Abraços famélicos e até a próxima.



segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Meia-noite no jardim do bem e do mal





Parceiro, a verdade, como a arte, está nos olhos de quem vê. 
Acredite no que quiser e eu acredito no que sei.

No início de 1981, o novo rico James Arthur Williams, negociante de arte residente em Savannah, foi preso por assassinar seu jovem funcionário e amante, o bad boy Danny Hansford (Billy Hanson, no cinema). Aparentemente, tudo indicara que foi realmente em legítima defesa. Mesmo assim, por ser rico e despertar a inveja dos que vendem o almoço para comprar a janta, enfrentou um dos mais longos julgamentos da história local, por quase oito anos e quatro júris. Após sua absolvição, sofreu um ataque cardíaco fulminante no mesmo cômodo onde  Danny Boy foi morto.

John Berendt residiu durante oito anos em Savannah e debulhou toda a história, lançando seu meio-romance de não-ficção (é mais ou menos isso o troço) Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal. Clint Eastwood, o maior cineasta vivo, adaptou a obra para a telona e, como sempre, fez um ótimo trabalho. É um dos melhores filmes que já vi. Tudo ali está impecável, especialmente Kevin Spacey, que “incorporou” (melhor palavra para sua atuação) Williams. John Berendt afirma que a interpretação de Spacey foi ruim. Outros, dizem o contrário. Isso me cheira a vaidades como quando Stephen King, por exemplo, até hoje afirma que O Iluminado de Stanley Kubrick é um péssimo filme. Se autores querem que adaptações ao cinema saiam como eles desejam, é fácil: busquem grana e dirijam os filmes. Podem ser até atores (como aliás o próprio King tentou ser, o que foi patético).

Jude Law (Billy Hanson) também chama nossa atenção em sua curta atuação, nos primórdios de sua carreira. 1997 foi um ano decisivo para ele, com participação em quatro bons filmes que lhe serviram de catapulta, especialmente Gattaca - A Experiência Genética.

No IMDb, a nota para o filme não é das melhores. Apenas 6,6 com quase 40 mil votantes. Ao menos, até o momento. Considerando que atualmente apenas filmes com super-heróis atingem boas avaliações ali, nada disso me surpreende.

Savannah é um personagem da trama. É a morada da antiga aristocracia decadente, pessoas de trejeitos finos e vazias, vadios que ocupam as noites, histórias de luxúria por todos sabidas e de todos “escondidas” e – o melhor – magia (ou superstição, como queiram), muita magia negra.

Esses dias revi Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal graças a um colega mineiro que assinou a HBO Max Multitelas e me deu acesso a uma delas. Assim que vi esta obra-prima na grade, aproveitei para assistir novamente. O filme envelheceu bem. A trilha sonora é linda, com revisitações a obra de Johnny Mercer, compositor cujo espírito está presente na narrativa.

Algo curioso de Eastwood foi chamar, para o filme, pessoas que conviveram com o verdadeiro James Williams e se envolveram com todo o turbulento ocorrido. Assim, por exemplo, o verdadeiro advogado de defesa Sonny Seiler interpretou o Juiz Samuel L. White e o travesti Chablis Deveau interpretou a si mesmo. Nesta mesma pegada, a musicista Emma Kelly e o cabeleireiro Jerry Spence também "deram corpo" a si mesmos. Recordo que, na obra escrita, John Berendt, ao narrar seu primeiro encontro com Joe Odom e mencionar que pretendia escrever sobre Savannah, o mesmo lhe diz que gostaria de interpretar a si mesmo, acaso a obra fosse adaptada para o cinema. Infelizmente, Joe Odom faleceu alguns anos antes da publicação do romance. Mas esse desejo diz muito sobre a escolha peculiar de Eastwood.

Falando sobre o livro, recordo também como é rico em detalhes históricos e culturais da pequena cidade boêmia. Logo no início da leitura, conhecemos alguns ilustres defuntos do cemitério Bonaventure, a exemplo do poeta Conrad Aiken, cujo túmulo possui a forma de banco de praça - para que as pessoas possam sentar, beber e apreciar a paisagem, ali, como ele apreciou em vida. No romance, como também é de se esperar, a vida de James Williams é destrinchada, especialmente como conseguiu sua fortuna a partir de investimentos imobiliários e, depois, indo anualmente ao Velho Mundo em busca de peças raras para revenda em lojas americanas conceituadas.

O molde em bronze da escultura Bird Girl realmente encontrava-se no Bonaventure. Mas, após o sucesso do romance e por constar em sua capa, foi removido para mais de um espaço fechado e seguro, evitando-se assim alguma eventual depredação.

De acordo com Berendt, o julgamento durou quase oito anos com Jim encarcerado durante dois anos, sendo os dois primeiros júris com resultado de culpado por homicídio doloso e o terceiro sendo considerando inconclusivo por desentendimento entre os jurados e retardo em chegarem a uma resolução. No quarto julgamento houve desaforamento para a cidade "reacionária e conservadora" de Augusta. E foi justamente ali onde os caipiras locais realmente julgaram Williams sem preconceitos, mas apenas diante do conjunto probatório, dando-lhe a liberdade. No último capítulo do romance, nos é dito que Jim "desceu para dar comida a gata e fazer um chá. Depois disso, mas antes de pegar, o jornal na varanda da frente, teve um colapso e morreu". A autópsia revelou que ele padecia de pneumonia, o que provocou boatos de que seria complicação decorrente da AIDS - no entanto, nunca houve indícios de que ele estaria doente. "Encontraram-no estirado no tapete, atrás da escrivaninha, exatamente no mesmo lugar onde deveria ter caído oito anos atrás, se Danny Hasnford tivesse detonado a pistola e os tiros tivessem atingido o alvo". A macumbeira Minerva atribuíra o fato à vingança póstuma de Danny: "Foi o rapaz que fez isso".

Resumidamente: revi este ótimo filme e achei bacana recomendá-lo. A primeira vez que o assisti foi no Cine Belas-Artes do SBT, há bons anos. Pesquisando, encontrei até a data exata da exibição: 08 de setembro de 2001. Depois, loquei em DVD. É, creio, um dos trabalhos mais bonitos de Clint Eastwood, ao lado de Os Imperdoáveis (1992), Um Mundo Perfeito (1993) e As Pontes de Madison (1995).

Infelizmente, devem ter exagerado nos cortes durante a edição do filme. No próprio pôster, vemos o personagem de John Cusack navegando em um bote por águas pantanosas. Não há nada assim na película. É que, no romance, próximo ao final, Minerva precisa ir com ele, à meia noite, ao túmulo de Danny/Billy. À noite, o acesso terrestre ao Bonaventure é cerrado e vigiado. Então precisam navegar pelo rio Savannah. Devem ter gravado este momento e, depois, cortado.

James Williams foi um grande homem. Um self-made man na melhor tradição norte-americana, que veio da periferia e, com talento e força de vontade, chegou à maturidade colecionando objetos da antiga aristocracia sulista - preguiçosa e inapta para os novos tempos. Acompanhar um pouco de sua vida vale a pena. E ele adorava festas, grandes e requintadas festas.

Abraços e boas festas, para todos nós.


sábado, 18 de dezembro de 2021

Os Muitos Santos de Newark

Finalmente assisti a Os Muitos Santos de Newark, filme prequela para Família Soprano, uma das melhores séries vistas por mim. Falei sobre esta produção em postagem anterior, onde aliás compartilhei minha coleção de DVDs do show. Mas, vamos lá, o que achei do filme? Bacana. Essencialmente, estamos diante de um grande episódio da série, com fatos antigos das famílias gângsteres de New Jersey.

O trailer (acima) da película dirigida por Alan Taylor nos enganou. Pensamos que seriam duas horas focadas no passado de Tony Soprano. Mas não. O personagem nuclear é Dickie Moltisanti, padrinho de Tony que, a título de recordação, nunca fora mostrado nas seis temporadas da série. Um personagem significativo no seriado foi Christopher Moltisanti, filho do Dickie, assassinado por Tony próximo ao encerramento do seriado. Tony, em Os Muitos Santos..., é apenas um satélite orbitando o antigo chefe mafioso. Mas um satélite relevante, claro, com bastante exposição. Tony, então, não foi reflexo de seu genitor bandido; mas, sim, um sucessor do falecido padrinho. E assim compreendemos melhor porque, durante anos e anos, tolerou as pentelhices de Christopher: ele devia isso ao padrinho.

O ritmo da produção está nos trilhos: cadenciado entre bate papos simplórios sobre o cotidiano da cosa nostra, vazios existenciais, dramas internos e acessos gratuitos de violência. Gângsteres são apenas trombadinhas bem vestidos e com bastante poder de fogo, com verniz de polidez em público, falso apego à fé cristã e, na verdade, destituídos de qualquer escrúpulo até mesmo com os membros da famiglia. Matam os seus por um olhar torto ou algum sorriso fora de hora.

Parece que algumas pessoas não estão gostando da prequela. Para estas, seria algo enfadonho, monótono etc. Creio serem pessoas que desconhecem o seriado no esplendor de suas seis magníficas temporadas.

Numa escala de zero a cinco estrelas, daria o máximo a este filme. Recomendo (mas apenas para quem viu o seriado).

Abraços "ma che!" e até a próxima.

domingo, 8 de agosto de 2021

Monsieur Verdoux [ Cinema ]

 

Selo Suzane von Richthofen de empatia.

Humor não é um estado de espírito, mas uma visão de mundo.

Ludwig Wittgenstein

Quando guri, vi uma das cenas mais engraçadas do cinema. Chaplin encontra um pedaço de madeira preso no bueiro e o movimenta com a bengala. Depois, o movimenta novamente. Então, outra vez. Vai fazendo isso e as pessoas começam a aglomerar. Não sei se faz parte de um filme ou se é apenas esquete curta. Simples e engraçado, sem uma palavra sequer. E, no cinema falado, Chaplin foi igualmente gigante, como percebemos em Monsieur Verdoux (1947, humor negro, 2h 13m).

Já de início, sabemos que Henri Verdoux fora bancário durante trinta e anos e de repente, na pré-crise de '29, foi despedido, ficando a ver navios, com filho pequeno para sustentar e mulher cadeirante para cuidar. O que fazer? Tornar-se um Barba Azul, claro, ludibriando mulheres ricas, matando-as e aplicando o butim em investimentos financeiros na bolsa. O filme não mostra os assassinatos; apenas os indica. E daí a genialidade de Chaplin (escritor, diretor e ator da produção). Assim, num dado momento, as empregadas da residência se queixam porque o incinerador está ligado há três dias, sujando com fuligem roupas nos varais. Não precisa ser dito: Verdoux está torrando pedaços da mais recente vítima. A passagem da noite para o dia, pela sacada, nos indica outro assassinato: ele matou outra esposa, possivelmente asfixiada. E assim vai seguindo até quando todos os seus investimentos tornam-se poeira com o grande crash financeiro global.

Acima é como posso resumir este ótimo filme, disponível gratuitamente, com legendas, no YouTube, em ótima imagem. 

No final da história, o assassino tem um surto de desencanto pela vida e precisa se penalizar por seus crimes. Então se entrega à polícia e é condenado à guilhotina, não sem antes fazer um dos célebres discursos tipo O Grande Ditador. O que tive medo foi do teor das palavras, onde o bandido procura se igualar a todos os demais cidadãos de sua nação, empregados numa guerra contra o avanço do Reich. Pela ótica do assassino, o moleque que vai à guerra (bem como seus generais e políticos) são tão canalhas quanto ele, matador de velhas burras e indefesas. Ali, Chaplin prenunciava a era do relativismo mortal (sim, mortal), tão comum nos dias de hoje, onde a Netflix endossa a ideia de que Elize Matsunaga foi uma pobre vítima da TPM; ou como a rede Globo, pedindo cartinhas de amor ao travesti Suzy Oliveira, estuprador e assassino de um menino.

Abraços e curtam este filme, anexado a seguir.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Depois da Escuridão [ Cinema ]

 

Jovens aportadores aguardando o resgaste.

Foto de Pavel Danilyuk no Pexels

A melhor história sobre O Fim que já li foi A Estrada de Cormac McCarthy, o maior escritor vivo do planeta, penso. O filme também é ótimo. Na trama, não existe saída. A terra está podre. Nada floresce, não há caça nem peixe. As árvores estão caindo. Só o canibalismo restou como saída e nada mais. Para um cenário como aquele, não há nada a fazer a não ser um balaço na própria cabeça.

À toa em frente à TV, resolvi assistir a Depois da Escuridão (2019). O filme é simples e se passa totalmente no interior do casarão do rico e influente homem de negócios que se vê diante do colapso: o sol deu tilt, manchas inexplicáveis reduzindo o calor e tudo está morrendo por frio. Este cara possui uma grande propriedade à beira do lago e perto do mar, reunindo sua família problemática na mansão enquanto aguarda o auxílio político (ele tinha prestígio e financiava campanhas) para algum refúgio quente em cavernas. Mas a ajuda não virá. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Em momentos assim, é cada um por si e salve-se quem puder.

Gringos são expertos em sobrevivencialismo. O elevado padrão de vida facilita isso. Os caras têm búnqueres com comida para anos, propano e ferramentas para defesa. E, no enredo do filme, o mal seria passageiro: acreditam ser algo momentâneo. Com investimentos, o ricaço poderia se manter trancafiado com comida, água e calor durante anos. Se o bagulho não se resolvesse, o que fazer? Mas poderia tentar.

Nosso homem de família mal sabe cuidar da própria casa. Sua despensa (com pouca comida) está se infestando de ratos e ele prefere evitar o problema, com medo, enquanto bebe vinhos envelhecidos e ouve música clássica até quando a energia elétrica acaba de vez.

O filme é bobinho. Mas é bonito, com boa fotografia no espaço doméstico. É curtinho (1 h e 1/2). Vale a pena assisti-lo para matar o tempo. Em mim, ainda ficou a reflexão: as pessoas sempre acham que ficará tudo bem e que meter grana naquela ação do momento é melhor do que pensar na crise - não financeira, mas humana.

O elenco contra com a "milf" Kyra Sedgwick, por quem nutro certa tara (coroa magrela com cara de sapeca).

Abraços críticos e até a próxima.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

The Many Saints of Newark

No blogue anterior, havia postagem sobre Família Soprano. Neste, quando escrevi O mundo fake em Arquivo X, a mencionei dentro de meu Top 5 Seriados. Fico sempre em dúvida qual seria a melhor série de TV vista por mim. Família Soprano está sempre ali, disputando a pole position.

Conheci a disfuncional família mafiosa na HBO, quando assinava o canal. Acho que em 2002/2003. Depois, me mudei, não assinei mais nada e optei por ir comprando os boxes no ritmo em que saiam por aqui, os quais ainda guardo numa prateleira empoeirada cheia de DVDs que, creio, jamais serão revistos. Há poucos anos, recomendei o seriado à minha esposa, que o maratonou em semanas e afirmou ser a melhor, ao lado de Breaking Bad. E isso considerando que ela prefere programas de humor, como Two and a Half Men e The Big Bang Theory.

Sopranos foi impecável em tudo, desde a melhor vinheta de abertura realizada aos pôsteres de Annie Leibovitz (cópias descaradas dos trabalhos de Gregory Crewdson, suponho). Falando em fotografia, não sei como mantiveram o nível tão elevado, durante todos os episódios das seis temporadas. A recorrência a sonhos (abordagem meio junguiana, me parece), chegou a lembrar Twin Peaks e como nosso subconsciente, às vezes, atua de maneira quase sobrenatural. Em dois episódios, Tony descobre traições durante o sono ou delírio, processando (em suspensão) informações as quais não eram bem analisadas quando desperto.

Acima, quando mencionei disfuncional, não foi apenas quanto à sua família de sangue (esposa, filhos etc.), mas também em sua famiglia mafiosa, a Cosa Nostra de New Jersey e sua delicada relação com os bandidos de New York. E acredito piamente que David Chase criou seus personagens mantendo contatos com a máfia ainda então ativa nas cidades retratadas, assim como Mario Puzo quando escreveu O Poderoso Chefão convivendo, boa parte da vida, entre criminosos, ainda que enquanto outsider.

Em setembro, chegará à telona The Many Saints of Newark, com Michael Gandolfini interpretando o personagem que eternizou seu pai, James, falecido há quase dez anos. A semelhança física é grande e, no trailer, nos deparamos com todos os elementos essenciais à série: a raiva e a melancolia de Tony Soprano, sua mãe tóxica, a tentação pelo mau caminho e o apego à religiosidade.

Que venha esta "prequela", com bastante molho de tomate, cafezinhos tomados em frente ao Satriale's Pork Store, crises existenciais, chumbo e banhos de sangue intermináveis.