Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de setembro de 2026

Meridiano de Sangue ou O rubor crepuscular no Oeste [ Romance de Cormac McCarthy ]

A postagem a seguir foi publicada em meu antigo blogue, em 4 de dez de 2016. Eu a tinha perdido e tentei até verificar no Wayback Machine, mesmo assim não encontrei. Ou seja: fui incompetente. Porque o Ozy foi lá e achou. Como chegamos a isso de falar sobre Meridiano de Sangue? Ele havia me compartilhado uma imagem baseada em um dos personagens do livro e perguntou se eu já o li. Respondi que sim, e que havia até mesmo escrito uma resenha no antigo blogue (derrubado pelo Google), mas não tinha recuperado. Então, um dia depois, ele a encontrou. Cara, como fiquei satisfeito com isso, pois adorei escrever esta resenha tão quanto adorei ler o romance. Não o tenho impresso, pois li no Kobo. Na verdade, só tenho um livro impresso do Cormac McCarthy; todos os demais foram lidos pela via digital gratuita. Então aqui está a resenha deste romance magistral de um dos últimos grandes escritores que, até pouco tempo, ainda estava vido. Valeu, Ozy!

Beba. Esta noite pode acontecer de tua alma te ser reclamada. 

(Juiz Holden)

Um antigo imbróglio americano é o pretenso direito da "grande nação" Sioux sobre a ocupação plena, como suprema detentora de todos os inalienáveis direitos, de uma vasta propriedade há séculos ocupada e desenvolvida pelo suor e sangue de gerações de norte-americanos. Contudo, diante da aparente quebra de cláusulas do Segundo Tratado de Fort Laramie (não pesquisei a fundo o assunto), o remanescente indígena — se é que isso ainda existe realmente — foi indenizado pela Suprema Corte em algo que hoje corresponderia a cerca de 1 (um) bilhão de dólares. Eles rejeitaram a grana, pois querem a terra, vez que de bobos não têm nada. E esse problema se arrasta até hoje.

Contudo, muitas pessoas questionam: "Ora, os Sioux não viveram sempre ali, naquela região. Há registros de ocupações sucessivas por até três povos distintos antes da chegada dos litigantes. E quantas mais etnias não se sucederam no local, das quais nunca teremos registros? Por que essa 'grande nação' seria detentora de direitos sobre a região, a ponto de não transigir numa ação bilionária contra o Governo dos EUA, batendo o pé de forma inexorável?". As respostas para essas indagações nunca virão, pois a "tomada" de terras de índios bons por brancos maus faz parte da cultuada "vergonha americana", dentro dos círculos midiáticos e universitários progressistas.

Fato curioso é que a criação de reservas indígenas, a quebra de acordos de demarcação de terras, as vendas fraudulentas de propriedades e as remoções "voluntárias" e forçadas de contingentes indígenas são políticas do Partido Democrata americano, sob os auspícios do grande senhor de escravos, advogado e político Andrew Jackson, sétimo presidente dos Estados Unidos. E, hoje, os descendentes desses indígenas dão suporte ao Partido... Democrata. Isso ajuda a compreendermos o nível de entropia e insanidade em que este planeta se encontra.

Por que escrevi os parágrafos acima? Apenas para esclarecer que não apenas a história americana, mas também a história humana é uma narrativa de conquistas sucessivas. Não podemos "devolver" a Amazônia aos índios, assim como as terras de Black Hills, onde se encontra o célebre Mount Rushmore, com as efígies dos founding fathers, não podem ser dadas, embrulhadas de presente, aos Sioux, que, por sua vez, se instalaram no local às custas do derramamento de sangue de nações indígenas anteriores.

No curso da História, até os dias de hoje, quando ao menos tentamos coabitar sob um verniz de civilidade, não houve bandidos ou mocinhos. Tudo fez parte da evolução natural dos povos na ocupação das regiões mais recônditas do planeta, de acordo com as possibilidades tecnológicas disponíveis em cada época.

Cormac McCarthy não se expressa dessa maneira em sua opus magnum, Meridiano de Sangue. Contudo, penso que isso tem tudo a ver com os dramas de sangue ali brilhantemente narrados. Na evolução natural das espécies, todos buscam um lugar ao sol e a perpetuação. Outros foram apenas infelizes errantes que, soltos à própria sorte em territórios inóspitos, apostaram a vida para fundar o que hoje se tornou a nação mais próspera da história. É sobre esses infelizes que trata o romance aqui abordado.

Cormac McCarthy me ajudou a burilar certa visão de mundo com a qual me debatia há alguns anos. Ainda penso que essa produção de riquezas proporcionada pelo regime de mercado, no apogeu do capitalismo, ruirá em breve. Estes últimos séculos foram apenas um desvio no curso natural das coisas, e não necessariamente estamos em evolução constante para melhor.

Creio que o futuro não será muito diferente do que vemos em Mad Max e, dependendo da natureza, talvez seja tão aterrador quanto o descrito no romance A Estrada, também de McCarthy. Nunca comunguei com parasitas sonhadores como Rousseau, para quem o homem seria "essencialmente bom". Nascemos contaminados pelo pecado original e, naturalmente, em estado de competição feroz, abandonamos essa casca de empatia que nos foi dada pela cômoda vida proporcionada pelo capitalismo, na qual, hoje, qualquer moleque de classe média baixa tem uma vida mais confortável do que um antigo rei — pequenos luxos como energia elétrica, internet, água encanada, transporte público, aspirina e preservativos.

O que um monarca antigo não daria em troca de penicilina, por exemplo? O humano em estado natural, ao léu, nunca foi tão bem representado quanto n'O Senhor das Moscas, de William Golding. Para chegarmos à existência revelada n'A Estrada, precisamos apenas de um ano sem supermercados e sem energia elétrica. Em dois anos, talvez o remanescente humano seja menor do que o dos ursos-pandas.

Mesmo gostando tanto de Cormac McCarthy, como falei, resenhei aqui, até hoje, apenas um romance seu: Onde os Velhos Não Têm Vez. Pretendo corrigir esta omissão. Começarei a tratar disso com esta postagem.

O mote por trás da trama é aparentemente simples: um garoto conhecido apenas como "kid" sai de casa em busca de ganhar a vida pelo oeste americano, na metade do século XIX. Alia-se a dois bandos, um deles comandado por John Joel Glanton. Na trilha pela sobrevivência, por mulheres, uísque e fortuna, caçam escalpos para, em determinados territórios, recolherem as recompensas oferecidas.

É nesse bando que ele conhece o Juiz Holden, figura instigante e amedrontadora, que fascina pelo seu conhecimento e nos gela a alma por sua crueldade. O grupo é bem representativo e evidencia que, na busca por mucha plata, não havia mocinhos. Assim, o "kid" convive com mexicanos, "negroides" e etnias nativas num mesmo miniexército sanguinário. Os inimigos são os de fora do bando.

Como bem pregado pelo Juiz: "O que une os homens, disse, não é a partilha do pão, mas a partilha dos inimigos".

O romance é denso. O estilo do escritor já foi mencionado por mim neste blogue. Por não separar bem os diálogos dentro da narrativa, você pode facilmente se perder se não estiver atento à leitura. Logo, nossa visão de "velho oeste", disputado por esbeltos cavaleiros com roupas de couro e grandes chapéus, é substituída pela visão aterradora de maltrapilhos imundos, chafurdando num lodaçal de sangue, vísceras e misérias de toda ordem.

O mais próximo que podemos rotular de protagonista é o "kid". Contudo, foi o Juiz Holden a personagem mais marcante da trama, encoberto de aspectos quase sobrenaturais. Não sabemos ao certo sua origem. Na verdade, não sabemos bem nem se é humano.

Seu primeiro contato com o bando sanguinário, do qual o "kid" faz parte, é esquisito: está bem vestido, sentado no meio do nada sobre seus pertences, como se fosse a sina do grupo topar com ele. Um homem pragmático, que sabe se virar bem na vida árida e selvagem, sem dó de ninguém. É capaz de extrair pólvora das rochas, identificando cada elemento; escalpela um mexicano com esmero e sabe carnear mulas com a mesma desenvoltura com que fala alemão, espanhol, francês e línguas mortas.

Às vezes, percebo que Randall Flagg, de Stephen King (confira mais aqui), tomou elementos sobrenaturais emprestados do juiz de McCarthy. Lembrando que King é um entusiasmado fã de seu conterrâneo, em Meridiano de Sangue topamos brevemente com um estranho personagem chamado pelos colegas de Randall.

Noutros momentos, Holden me lembra antigos filósofos gregos em sua ânsia pela catalogação do conhecimento e das coisas. Aristóteles pedia a seu aluno Alexandre Magno, por exemplo, que recolhesse, em suas conquistas, materiais de culturas distantes e os trouxesse para serem estudados.

O juiz anda sempre com seu livro, anotando tudo o que encontra nas andanças, desenhando objetos e inscrições em rochas, pesando, cheirando e extraindo dados. Acerca disso, ele esclarece em dado momento:

"Só a natureza pode escravizar o homem e só quando a existência da última entidade tiver sido desencavada e exposta diante dele é que ele se tornará, do modo apropriado, suserano da terra."

Penso que esta passagem, por si só, é mais do que emblemática.

Muitos leitores destacam Holden como um dos personagens mais assustadores da literatura. De fato, por sua grande cultura e atitudes pontuais narradas no decorrer da obra, poderia ser. No entanto, percebi-o como um homem, na verdade, apaixonado pela vida e pelas coisas do mundo, querendo compreendê-las e, assim, dominá-las.

Se ele abate um cavalo com pedradas no crânio e o destrincha sem dó algum, é porque tem fome e está no deserto. Ele escalpela porque essa é a regra e, uma vez em Roma, faça como os romanos. Penso que Glanton, sim, é merecedor do título de "mais assustador". Este líder do bando, pois, é indiferente à vida em todos os seus aspectos, até mesmo no momento de sua própria morte. Trata-se de um ser humano essencialmente cruel, em estado puro. A personagem ficcional foi inspirada na histórica — ex-Texas Ranger que se tornou mercenário e caçador de escalpos. A passagem abaixo talvez ilustre bem a natureza desse homem de armas.

(...) os cães feridos uivaram e se arrastaram em torno até Glanton sair pessoalmente para matá-los com sua faca, uma cena fantasmagórica à luz oscilante, os cães feridos em silêncio, exceto pelo entrechocar de seus dentes, arrastando-se no chão como focas ou outras criaturas e encolhendo-se junto às paredes enquanto Glanton caminhava de um em um e abria seus crânios com a imensa faca guarnecida de cobre que levava no cinto.

John Joel Glanton é o oeste americano, onde a morte quase nunca é uma simples passagem. A rigor, a morte é cruel, seja pelas condições áridas de vida, seja pelos meios infligidos pelas mãos dos homens. Num ambiente onde a vida é dura, a morte precisa superar-se. Sejam brancos, negros, índios ou mexicanos, todos os que se aventuram nas planícies ermas trazem o mal no coração, e o destino do inimigo deve ser exemplar:

Encontraram os batedores desaparecidos pendurados de cabeça para baixo pelas pernas nos galhos de uma paloverde enegrecida pelo fogo. Tinham os tendões dos calcanhares perfurados por agulhas afiadas de madeira verde e pendiam cinzentos e nus sobre as cinzas dos carvões extintos, onde haviam sido assados até as cabeças ficarem carbonizadas, os miolos ferverem por dentro do crânio e o vapor sair assobiando por suas narinas. Suas línguas haviam sido puxadas para fora e trespassadas com paus afiados e esticadas, e tiveram as orelhas arrancadas, e seus torsos foram abertos com sílex até as entranhas ficarem penduradas em seus peitos.

Um dos hábitos de chacina mais comuns entre os nativos, entretanto, era a execução de bebês. No bando de Glanton, por exemplo, apenas os integrantes delawares costumavam executar de maneira cruel os bebês de povoamentos invadidos.

(...) um dos delawares emergiu da fumaça segurando um bebê nu em cada mão e se agachou junto a um círculo de pedras com os restos de comida. Balançou-os pelos calcanhares, um de cada vez, e esmagou suas cabeças contra as paredes, de modo que os miolos espirraram pela fontanela em um vômito sanguinolento (...).

(...)

O caminho foi se estreitando entre rochedos e, após algum tempo, chegaram a um arbusto de cujos ramos pendiam bebês mortos. Pararam lado a lado, hesitantes sob o calor. Aquelas pequenas vítimas, sete ou oito delas, haviam sido perfuradas no maxilar inferior e estavam, desse modo, penduradas pelas gargantas nos galhos partidos de um pé de prosópis, para fitar cegamente o céu nu.

(...)

Passando por uma área coberta de ossos, onde soldados mexicanos haviam massacrado um acampamento apache alguns anos antes — mulheres e seus filhos, os ossos e crânios espalhados pelo terraço por mais de meio quilômetro, e os membros minúsculos e crânios de papel, desdentados, de bebês, como a ossatura de pequenos macacos no local do morticínio —, encontraram velhos restos de cestaria exposta à intempérie e os potes quebrados no cascalho.

Durante toda a leitura, você se dá conta de como tem uma vida molenga e, mesmo assim, às vezes reclama de barriga cheia. Colonos, índios e mexicanos movem-se por dias sem água suficiente, comendo apenas tiras de carne seca e dormindo no frio à noite, enquanto enfrentam temperaturas elevadas pela manhã. Acendem seus cachimbos com brasas de fogueira — isso quando conseguem fumo — e se deleitam quando topam com uísque: "A primeira coisa pela qual perguntaram foi uísque e a segunda, tabaco".

Mulheres e crianças são naturalmente mais indefesas e não raro as primeiras que sucumbem nas travessias em caravanas e nas invasões dos pequenos povoamentos. Enquanto, hoje, você chega do trabalho cansado do trânsito e resmunga com a janta, que demora cinco minutos para ficar pronta no micro-ondas, no ar-condicionado, assistindo à Netflix, os empreendedores da expansão humana rumo ao oeste americano encontravam esta sorte:

Cinco carroções fumegavam no solo do deserto, e os cavaleiros desmontaram e caminharam em silêncio entre os corpos dos argonautas, aqueles probos peregrinos sem nome entre as pedras, com seus terríveis ferimentos, as vísceras esparramando-se por seus flancos e os troncos nus crivados de flechas. Alguns, pela barba, eram homens e, contudo, ostentavam entre as pernas estranhas chagas menstruais, e não as partes masculinas, pois estas haviam sido amputadas e pendiam escuras e estranhas de suas bocas sorridentes.

Ratifico o que mencionei mais acima sobre o vidão que possuímos hoje, proporcionado pelo regime de mercado e pela busca do pleno emprego, pela iniciativa privada que produz e distribui mais riquezas do que tivemos em milhares de anos de civilizações.

Contudo, isso parece ser passageiro. Acredito que uma vida constantemente próspera e a produção de bens e serviços para consumo por cada vez mais gente encontrem, em breve, uma regressão ou um colapso total. De alguma forma, a possível hecatombe dessa pujante melhoria da vida global não se coaduna com a natureza humana, autofágica. E, no admirável mundo que desponta, os fracos não terão vez.

Ler Cormac McCarthy me ajuda a compreender melhor tudo isso.

A edição eletrônica que li no Kobo foi da Alfaguara, selo da Objetiva para a chamada "alta" literatura. São 350 páginas, com tradução de Cássio de Arantes Leite, no padrão de publicações típico do selo: brochura resistente, com orelhas. O papel tem uma gramatura boa e não permite que vejamos as letras através das páginas; além disso, é daquele mais amarelado, que não cansa a visão — tipo pólen soft. Também pela Alfaguara já recomendei, aqui, O Mestre e Margarida.

Fico por aqui.

Abraços sangrentos e até a próxima.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A Chácara do Silêncio - um crime real

Na postagem anterior, falei sobre os clubes de correspondência e ali juntei uma página de O Recruta Zero, com algumas dessas cartinhas enviadas por leitores que queriam manter grupos e contatos à distância por meio de missivas. Bateu uma curiosidade e me perguntei: “Por onde andam essas pessoas hoje?”. Para encurtar a história: uma delas queria trocar fotos de animais e contava com então 16 anos de idade em 1989. Chamava-se Diana e residia no Distrito Federal. Depois, descobri que era brasileira naturalizada, tendo saído do Chile devido à incompatibilidade de sua família com o governo do nobre e saudoso Augusto Pinochet.

Enfrentou muitos problemas na infância, precisando cuidar do pai, acometido por Parkinson; e, depois, da mãe, levada à indignidade pela esclerose lateral amiotrófica. Mas cresceu e tornou-se médica veterinária — gostava de animais de grande porte, pelo que entendi. Não à toa queria trocar fotografias de animais com leitores de quadrinhos.

Mas vamos lá... O que houve? Ela foi encontrada em estado avançado de decomposição em sua chácara, no ano de 2020, numa história cheia de elementos pra lá de obscuros. Achei interessante ler tudo o que encontrei sobre ela e escrever algo a respeito. O texto foi crescendo e se tornou uma meio-crônica, meio novela true crime. Resolvi organizar melhor as partes e publiquei como eBook na Amazon. Estará lá gratuito para quem quiser lê-lo pelos próximos cinco dias.

É uma história de vida que me tomou pela alma durante dias, desde que comecei a vasculhar a trajetória daquela adolescente que só queria trocar fotos de bichos pelos Correios, cresceu cuidando de animais e, depois, teve a vida envolta em muitos mistérios, com um final trágico e ainda hoje inexplicável — o inquérito foi arquivado pois, embora houvesse indícios de homicídio (ou feminicídio, como se diz hoje), não havia como chegar mais a lugar algum

Quando pensei na capa, quis emular algo parecido com as artes que estampavam as revistas Calafrio e Mestres do Terror, bem como publicações de horror da Taika e La Selva, quase sempre realizadas em óleo. Eram publicações maravilhosas que povoaram minha infância (meu irmão as comprava) e com seções de cartas divertidas, especial na Calafrio, com as respostas sem floreios de Reinaldo de Oliveira. Consegui o resultado desejado via uma combinação de ChatGPT e Gemini. Também utilizei como base uma imagem da Diana real, já madura e perto do fim, a qual tivesse acesso.

Bem, é isso. Vou ficando por aqui. Abraços misteriosos e até a próxima.

Link para aquisição (gratuitamente entre os dias 26 e 30 do corrente mês): aqui.



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

A bela ópera inspirada em Dante Alighieri e que nunca existiu

 

Estatística mais recente deste blogue

Vide cor tuum / E d'esto core ardendo / Cor tuum

Vide Cor Meum de Patrick Cassidy


Magoado e só, / - Só! - meu coração ardeu: 

/ Ardeu em gritos dementes

Epígrafe de Manuel Bandeira

Faz mais de seis meses desde a última postagem nesta plataforma defunta. Ainda gosto deste espaço e as estatísticas me indicam que, por incrível que pareça, ainda há bons acessos. No último mês, foram quase cinco mil. Então é um site que merece permanecer de pé, mesmo que a maioria das pessoas prefiram redes sociais variadas - a exemplo do Instagram - e vídeos curtos como no YouTube, TikTok etc.. Então, enquanto houver acessos, manterei o blog. Mas não me vejo mais no ritmo do passado, com postagens regulares, ao menos semanais. De qualquer forma, pode ser que isso mude. Vai que eu sinta ímpetos, mais à frente, de escrever regularmente? Pode ocorrer. Muitas vezes, não estamos empolgados com algo (música, filme, leituras, escrita e hobbies diversos, v.g.) e, de repente, nos damos bastante a algo até então anestesiado.

Mas vamos lá. Esses dias, reli todos os livros de Thomas Harris onde encontramos o vilão Hannibal Lecter: Dragão Vermelho, em 1981; O Silêncio dos Inocentes, 1988; Hannibal, 1999; e Hannibal - A Origem do Mal, de 2006. Releituras em regra são proveitosas e deveras encontramos no texto - e nas entrelinhas - novas percepções passadas incógnitas à primeira vista. Dessas releituras, surgiram alguns vídeos postados no meu vlog. Então basicamente o objetivo desta postagem é fazer auto-jabá de meu conteúdo. Até porque só tenho a mim mesmo para me divulgar. Entretanto, há algo que queria compartilhar: uma belíssima peça que nunca existiu.

Tanto no romance quanto no filme homônimo - dirigido porcamente por Ridley Scott -, Hannibal assume a vida de Dr. Fell, curador da biblioteca do Palazzo di Gino Capponi. Ali, ele se interessa ainda mais por Dante Alighieri e a obra Vita Nuova é citada algumas vezes. No livro, Hannibal, sob seu disfarce de curador, realmente encontra o casal Rinaldo e Allegra Pazzi numa apresentação pública. Não há detalhes sobre a peça executada, mas passar-se-ia no Teatro Piccolomini, com a Orquestra de Câmara de Florença. Como Allegra observa bastante o libreto, Hannibal/Fell lhe oferece um pergaminho escrito à mão, do Teatro Capranica, de 1688, o ano em que ela teria sido escrita. No cinema, inventaram algo sobre a passagem de Vita Nuova, quando, entre sonhos e suas interpretações, Dante se questiona sobre Beatriz a lhe devorar, literalmente, o coração. A aria Vide Cor Meum foi brilhantemente composta e executada por Patrick Cassidy. Sem saber, ele nos deu alguns minutos da mais bela ópera que nunca existiu - foi tudo criação do compositor, exclusivamente para o filme.

É isso. Só queria movimentar este blogue pelo qual mantenho bastante carinho e dar impulso ao meu conteúdo no YouTube.

Abraços canibais, bon appétit e até a próxima.



quinta-feira, 11 de julho de 2024

O coração amargo de Stephan Crane

Imagens geradas por inteligência artificial

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e o comia…
Disse-lhe: “É bom, amigo?”
“É amargo – respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.”

Eu desconhecia o poema acima e seu autor, até encontrá-lo na primeira página do miolo da revista Calafrio n.º 01, lançada em 1981. Foi um gibi sempre presente em minha infância, pois era um dos títulos esporadicamente adquiridos pelo meu irmão, depois, li e reli todos os números em scans. Atualmente, o selo Ink&Blood Comics publica o título, mas ainda não tive nenhum exemplar em mãos para avaliar. Enfim: lá no início da Calafrio encontra-se este poema obscuro. Pelo que pesquisei, seu advento à luz em língua portuguesa se deve, massivamente, ao livro As Magias (1987) do lusitano Herberto Helder. Mas é curioso como, seis anos antes, o editor e quadrinista Rodolfo Zalla já epigrafava seu novo título de terror com esses versos tão significativos.

Há alguns anos esse poema me serve para reflexão em momentos sombrios, quando estou preenchido por sentimentos malignos poderosos e sou assediado por entidades obsessoras que, em algum momento de deslize, podem se apoderar integralmente de mim. A criatura nua e brutal pode ser qualquer um de nós, em episódios de tristeza, amargura ou desespero. E o tempo me ensinou que a melhor forma de bater de frente com a amargura é saboreando-a até amaciar o paladar. É como ter contato com micróbios na infância para fortalecer o sistema imunológico ou praticar mitridização, ingerindo doses quase homeopáticas de substâncias letais. Essencialmente: o que não mata, fortalece.

Certamente, alguns creem que devemos buscar a luz para afastar as sombras. E também acredito nisso. Só que nem sempre as luzes são atingíveis. Há problemas para os quais não existem resoluções; e resiliência (palavrinha tão na moda) é a solução, nem que seja abraçando - ou até mesmo degustando - a amargura. Não importa o caminho, desde que você consiga sobreviver em relativa paz. Aliás, nas histórias dos Santos (homens que atingiram níveis mais elevados de existência) nunca houve caminhos de pétalas de rosas, ladrilhos dourados e luz do sol amena: mas muito percalço e sofrimento ao ponto da dor tornar-se lugar-comum. É como tatuar o corpo: só dói nas primeiras vezes. Não há como não recordar o primeiro verso do soneto de Pena Filho: "O quanto perco em luz conquisto em sombra".

Abraços amargurados e até a próxima.


domingo, 7 de abril de 2024

Ziraldo Alves Pinto

Malandro é o cara que sabe das coisas
Malandro é aquele que sabe o que quer
Malandro é o cara que está com dinheiro
E não se compara com um Zé Mané
(...)
E malandro é malandro, mané é mané
(Podes crer que é)

Bezerra da Silva

Conheci Ziraldo pessoalmente há quase dez anos, quando ele foi a uma cidade do interior piauiense. Dirigi 90 km para vê-lo e retornei no dia seguinte. A cidade chama-se Oeiras e é bem peculiar. Minúscula, possuía diversas atividades culturais, voltadas à música e à literatura. E nunca dá muita gente, pois se trata de um lugar no meio do nada que nos leva de outro nada a lugar nenhum. Assim, não existe distância entre os ilustres convidados e o público. Foi assim que pude sentar na mesma mesa onde Yamandu Costa ficou arranhando o violão e, estranhamente, depois trocou o instrumento por um toco de madeira e passou o restante da noite sem larga o estranho objeto. Parecia uma espada em sua mão! Estranho? Sim. Foi ali onde também pude estar perto de músicos como Chico César e Geraldo Azevedo e ouvir Ariano Suassuna perguntando por que estávamos bebendo Coca-Cola se tinha cajuína. E foi ali onde conheci finalmente Ziraldo.

Pensei se deveria escrever sobre Ziraldo por ocasião de sua morte. Mas escrever o quê? Não sou um leigo em Ziraldo. Conheço profundamente sua obra, sua evolução gráfica e suas inspirações. O que eu tinha para falar sobre ele não era sobre ele. Vi-o apenas um dia em minha vida e, realmente, separo (dentro do possível) as pessoas de seu trabalho. E sobre seu trabalho, sua obra, já falei bastante, tanto em postagens escritas no blogue anterior e até mesmo em vídeos para o Iu-Toba. Então o que falar neste momento de falecimento do artista? Simples: ele foi o último grande artista gráfico deste mundo. Um gênio do traço e das cores! Em tempos de arte e colorização digitais, não creio que surgirá um novo Ziraldo. Ali era tudo no muque!

Mas Ziraldo era controverso, enquanto mero mortal. Viveu nove décadas de um vidão nababesco. Por ter sido preso alguns poucos dias - apenas detido, sem tortura etc. - recebeu de nós, contribuintes, indenização milionária e embolsava todos os meses "pensão de anistiado", junto com seu amigo Jaguar. Diante disso, Millôr Fernandes (um de seus mestres), afirmou: "Não era ideologia, era investimento", pois via os amigos podres de ricos - com contratos vantajosos com governos federal e estadual, aliás - recebendo a bolsa-ditadura. Malandro é malandro e nós somos os manés que pagam a farra toda.

Ziraldo foi comunista até o final da vida. Mas habitava um apartamento bacana na Lagoa Rodrigo de Freitas e enviou os dois filhos para estudarem e viverem nos Estados Unidos. Vendia a rodo seu material infantil para programas públicos e mesmo assim não sentia pena de sangrar o Erário com sua bolsa-ditadura. Falava em liberdade e democracia, mas desenhou o solzinho do PSOL, que homenageia anualmente regimes como os de Kim Jong-un.

Mas... Ziraldo foi o último grande artista gráfico vivo, o maior cartunista deste mundo. E é isso.

Abraços fúnebres e até a próxima.




sexta-feira, 8 de março de 2024

Mateus, Marcos, Lucas e João, a Bíblia Medieval Brega de Gustavo Piqueira

Deixando para outro momento eventual discussão sobre Inquisição e vedação de livros entre o povo cristão, destaco ao menos uma verdade notória: a Igreja foi necessária à preservação do conhecimento, em suas bibliotecas. Sem o trabalho de monges eruditos, muito teria se perdido. E a tarefa não era fácil: tratar o pergaminho, encaderná-lo, reunir copistas e miniaturista numa mesma abadia. A sabedoria clássica era acondicionada em obras de arte, infelizmente acessível a poucos. Remetendo a esses códices centenários, Gustavo Piqueira publicou seu Mateus, Marcos, Lucas e João, onde estes quatro consultores da indústria cosmética narram a trajetória daquele que veio para salvar as mulheres da celulite: o creme milagroso IN!, desenvolvido misteriosamente por Maria para comercialização junto ao seu sócio José. Como intermediário no lançamento deste produto revolucionário está o esteticista JB, que, durante o processo, cairá em desgraça pública (perderá a cabeça, metaforicamente) diante dos caprichos de certa Salomé, filha mimada de uma socialite amancebada com o ex-cunhado.

Conhece a história acima? Todos conhecemos um pouco. Na obra, encontraremos curas milagrosas. Paraplégicas que terão a tonalidade de suas coxas de volta. Defuntas que poderão ser apresentadas no funeral com a pele rejuvenescida, como se ressuscitadas. Certamente, a indústria concorrente não gostará de IN! e, com a ajuda de um consultor traíra (um tremendo judas filho da puta subornado com trinta mil reais e enforcado em contas, faturas e boletos), fará com que IN! seja crucificado pela mídia, após um processo fraudulento na Anvisa, onde o Superintendente da agência apenas despachará sumariamente o requerimento de vedação à comercialização, apenas para sair rapidinho do expediente, não sem antes lavar as mãos com álcool gel no banheiro do gabinete.

Após ler o “evangelho” de cada consultor, descobrimos que os quatro protagonistas estão, na verdade, em reunião discutindo possíveis releases encomendados à agência onde trabalham. São publicitários. O material deveria ser elaborado sob forma de storytelling, daí cada um com sua versão da chegada de IN! ao mercado, seus milagres, conspiração da concorrência, crucificação pela opinião pública e, depois, ressurreição em novíssima embalagem. E o pior: sabem que o produto é um embuste; mas, claro, precisam encontrar a melhor forma de agradar ao cliente.

A obra é uma afronta à fé cristã? Acho que não. É uma advertência, talvez: estamos comercializando IN! há dois mil anos, sem pudores. É interessante lembrarmos que “IN”, no acróstico INRI, significa Iēsus Nazarēnus (em latim). E que celeumas religiosas, às vezes, estão revestidas de pura vaidade. De resto, fica a critério de cada leitor o alcance da história bolada por Gustavo Piqueira, designer que vem conferindo ao livro brasileiro nova estampa, como já falei em postagem anterior. O viés tátil do livro, enquanto objeto, é explorado com inteligência. No entanto, a obra é, sim, uma crítica ao mercado publicitário psicopata, cheio de si mesmo, e por vezes inconsequente. Quem pensa que o autor está atacando o cristianismo, ledo engano. Ele critica o nicho onde transita: a venda de produtos, de ideias e de imagens. E, de quebra, ainda ataca a falsa religiosidade, a que só almeja ao lucro fácil. Foi essa, pelo menos, minha impressão na primeira leitura.

A prosa de Gustavo Piqueira é contemporânea. Como assim? Defino: sem um estilo reconhecível. Poderia ser algo escrito por qualquer pessoa. Infelizmente, é esse o traço fundamental de nossa literatura atual. Noto, contudo, que ele – em determinados momentos – recorre a tiradas bruscas bem humoradas à maneira, talvez, de Luís Fernando Veríssimo. Não sei se faz isso conscientemente. Mesmo assim, não consegue evitar excessos. O livro é bom. O mote é inteligente e a concepção estética impecável. Mas poderia ser mais enxuto, penso. Não dou "nota" a publicações porque acho um sistema impreciso justamente por buscar precisão. Quantas estrelas dar a um livro? Não sei. Só que: é um bom livro? Sim. Vale a pena comprá-lo? Também sim.

Acerca dos aspectos editoriais, quanto ao acabamento, vejamos. O livro vem numa caixa repleta de iluminuras carregadas em cores primárias, com muito vermelho, recordando códices medievais com influência islâmica. A capa possui duas chapas de metal (alumínio) e bijuterias vagabundas incrustadas (compradas na famosa rua 25 de Março e coladas dentro da Casa Rex, espaço de design de propriedade do autor). Acompanha, ainda, outro livro onde nos é contado um pouco acerca dos “bastidores da obra”, por assim dizer. O metal dourado com pedras remete ao kitsch do mundo da beleza em geral, com seus adornos poluidores no melhor estilo Gianni Versace. Resumidamente: o acabamento é de uma breguice de causar vergonha alheia à musa do tecnobrega Gaby Amarantos. Ponto ao autor por isso.

No miolo, o destaque (além da iluminura rococó) fica com as capitulares, desenvolvidas pela casa de design mencionada. Antes de cada parte do livro, também há uma brincadeira com o alfabeto utilizando arranjos das iluminuras em página inteira, representando a letra inicial do nome de cada apóst... ops!, consultor de IN!.

A edição foi limitada a mil exemplares numerados. Saiu pela EDUSP com 176 páginas, formato 23,0 x 27,0 cm, miolo em papel de boa gramatura (acho que similar ao pólen bold), com excelente impressão. Já o livro-anexo possui 88 páginas, em brochura, no formato 14,0 x 21,0 cm. O box, em papelão rígido, possui sistema de tranca com imã embutido. Quando lançado, custou R$ 60,00 (quase caridade). A limitação de exemplares, contudo, fez as poucas unidades ainda à venda alcançarem valores mais elevados, a critério do vendedor scalper

  • Postagem originalmente disponível na versão anterior do Blog do Neófito, em 09.06.2015.
  • Em razão da recente resenha, no meu canal, do romance Lorde Creptum, consegui recuperar esta postagem até então perdida para mim, a qual estava salva no acervo do Gustavo Piqueira, em seu site pessoal.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Samuel Foi Pro Céu

 


Há alguns meses venho publicando na Amazon. Que maravilha é ter acesso a um ambiente sem frescura para auto publicação. E não qualquer plataforma: a maior loja de livros deste planeta, sem precisar lamber bolas de mandachuvas do moribundo mercado editorial. O mundo mudou; as formas de consumir conteúdo, idem: música, cinema, séries, livros, quadrinhos, pornografia etc. A internet veloz democratizou o acesso à informação e a espaços de uma maneira que, para mim, há alguns anos, seria inimaginável.

Quem me apresentou as vantagens da plataforma KDP - Kindle Direct Publishing foi o Fabiano Caldeira, o qual, aliás, é um escritor bem recepcionado no ambiente, especialmente entre os leitores de conteúdo erótico.

E agora estou lá na Amazon publicado meus livrinhos, sendo lido por alguns. E hoje publiquei novo conto: Samuel Foi Pro Céu, mais uma trama árida, num ambiente árido, 90% baseado em fatos reais e 10% pura imaginação. E é a pura imaginação, claro, que faz toda a diferença nas amarras das pontas que, no mundo real, ficam soltas.

O livro ficará gratuito durante quatro dias, de 25 a 28 deste mês. Para adquiri-lo, basta clicar em "comprar" por "R$ 0,00". Não há erro. Ele irá para sua conta da Amazon e, quando quiser lê-lo, só precisa do aplicativo Kindle (aliás, ótimo aplicativo). Também pode ler no computador, na própria página da Amazon. Mas eu, particularmente, prefiro ler no tablet ou num celular com quase 7" de tela (se o texto for curto). Para quem possui o e-reader Kindle, melhor ainda.

Enfim, fica a dica de leitura grátis: meu livro, neste link.

Aproveitei para incluir, gratuitamente, os demais livros, pelo mesmo período que o lançamento atual:

  1. A Balada do Boiadeiro (conto bacana)
  2. Bloom Mais Feliz (novela infantil)
  3. Uma História de Robôs (conto fraquinho)
  4. Invenção Noturna (poesia reunida)

Me diverti bastante escrevendo estes livretos e creio que a leitura vale realmente a pena. Tento ser criterioso com o que compensa ser publicado. Admito que o conto Uma História de Robôs é algo aquém do esperado (do esperado por mim, ao escrevê-lo), mas serve para mero entretenimento descompromissado. Já Invenção Noturna me custou anos de escrita e revisão, com resultado positivo em todos os aspectos.

Fico por aqui. Abraços e até a próxima.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Dona Lola à sombra de Stalin

Na primeira cena de A Sombra de Stalin, George Orwell inicia a escrita d'A Revolução dos Bichos: "O senhor Jones, dono da Granja do Solar, fechou o galinheiro para a noite...". E logo passamos a outro senhor Jones, de primeiro nome Gareth, jornalista galês que expôs ao mundo os horrores do Holomodor (morte pela forme) ucraniano. Outra figura histórica com destaque é Walter Duranty, correspondente do The New York Times em Moscou, "especialista" em política internacional e ganhador do Pulitzer (premiação que lhe conferia autoridade), que já na década de '30 produzia fake news para a grande mídia estabelecida, sendo irreprochável por sua autoridade de "jornalista sério". A troco de grana, boa vida e por pura ideologia, Duranty enganou o ocidente, durante anos, com notícias sobre as maravilhas do comunismo implantado na antiga URSS.

Gareth Jones foi à Ucrânia e viu a morte por forme de perto, se atrevendo a peitar as fake news do establishment midiático e, devido a isso, comendo o pão que o Diabo amassou. 

O Holomodor não foi apenas um desastre econômico após a coletivização forçada de terras: foi a busca pela mudança na tessitura social de um local, experimento de eugenia histórica e social, a busca por um novo mundo a partir da matança. Isso é o comunismo (ou socialismo, como queiram). Ideologia macabra que conquistou corações como o do próprio George Orwell - escritor ambíguo que chegou ao final vida acreditando no "socialismo democrático" (seja lá o que for isso), mas sabendo que nenhum sistema igualitário poderia dar certo, porque é antinatural e sempre nos levaria ao autoritarismo.

Em um determinado momento do filme, Gareth pergunta a uma ucraniana o que houve ali, ao que ela responde: "Homens vieram aqui e acharam que podiam substituir as leis naturais". Uma camponesa poderia não saber se expressar assim. Mas sentiria que a política é artificial e os ideais coletivistas, postos como foram, são antinaturais. Outra pessoa pobre e sem instrução que sabia disso é Dona Lola, a mãe-ideal de Éramos Seis, romance maravilhoso de Maria José Dupré.

Em Éramos Seis, Dona Lola possui três bons filhos e um vagabundo: Alfredo. Este sempre desejou ser rico, gastava horas delirando com o dia onde teria bastante grana para morar em mansões e andar de carrões (com direito a motorista). Mas nunca gostou de trabalhar e quando arranjava algum trabalho era para roubar o patrão e se lamentar da vida. Em pouco tempo, lhe caíram no colo ideias marxistas: luta de classes etc. Logo, Alfredo "descobriu" que era infeliz porque no mundo havia ricos. Ele não tinha um carrão porque algum ricaço lhe roubou. O justo seria que as pessoas com alguma graninha dividissem tudo com ele. Quando não estava vagabundeando ou roubando, Alfredo estava extorquindo a mãe doceira para comprar roupas caras e perfumes. Só andava na beca e cheiroso!

Em vários momentos, Alfredo aproveita para destilar seu refinado conhecimento sobre marxismo de boteco. Fala de livros, teorias e personalidades históricas, de maneira bem superficial. Em um desses momentos, sua mãe lhe contrapõe com a natureza humana, como transcrevo abaixo.

‒E suas ideias socialistas?

‒Bem. Estudei e entendo um pouco por causa do tal amigo que tenho. Todos somos socialistas, a senhora, eu, todo o mundo.

‒Não diga bobagens. Eu não sou.

‒Mamãe, a senhora pensa que socialismo é um bicho-de-sete-cabeças. Nada disso. É uma luta de classe entre o capitalista e o proletariado Marx chamava os capitalistas de aventureiros, devido à grande cobiça que os domina e o ideal de Marx era dividir os bens, os meios de produção e outras coisas entre os operários; não deixar tudo na mão dos capitalistas, quer dizer, não deixar eles terem tudo e o proletariado não ter nada. Chama-se uma revolução social. Não acha nobre a teoria?

‒Dividir a propriedade, o dinheiro, os bens com os outros? Isso é comunismo, eu já disse. Então esta nossa casa que custamos tanto a pagar, levamos anos economizando, passando apertado, sem roupas suficientes e agora tenho que repartir a metade com o genro de D. Genu, por exemplo, que não faz nada certo? Um dia trabalha, outro dia não? Vive de biscates? Não. Deus me livre!

Alfredo começou a rir e sentou-se de novo na cadeira:

‒A senhora é formidável.

‒Pois não é isso que está falando? Sua teoria não é essa? Repartir tudo com os que não têm? 

‒Não é bem assim. Seria muito longo explicar tudo à senhora, mas não é isso. A senhora não é capitalista; o ideal é impedir que o capitalista ajunte tudo nas mãos e obrigá-lo a repartir com o proletariado.

‒Está certo, mas apesar de não ser capitalista, eu tenho esta casa e você falou também em bens, não falou? Há muita gente que não tem uma casa como esta, logo, preciso repartir com aqueles que não têm. Está errado, filho.

Alfredo jogou fora o cigarrinho e ficou um instante pensativo. Perguntei.

‒Gosta de figos em calda?

Olhou para mim com um olhar estranho:

‒Não. É muito doce. Por quê?

‒E de café, você gosta?

‒Ora esta, mamãe. Tomo café o dia inteiro; o que tem isso?

‒E Isabel gosta de café?

‒Nunca a vi tomando café. Por quê?

‒E ela gosta de figos em calda?

‒Gosta, porque quando vem de Itapetininga, ela come tudo.

‒ Julinho fuma?

Ele começou a rir.

‒ Já estou adivinhando onde quer chegar. Não.

‒E você?

‒O dia inteiro. Até onde vai?

‒Não vou longe. Você é o mais alto dos irmãos; Carlos é de altura regular, Julinho é o mais baixo dos três. Você é louro, Julinho é moreno, Carlos não é moreno, nem louro. Os cabelos de Isabel são pretos, não são? Que engraçado! E você é louro. E no entanto vocês são irmãos, filhos dos mesmos pais, crescidos no mesmo lar.

Ele sorriu e ficou me olhando; comecei a forrar as formas de empadas com a massa:

‒Você gosta de café, Isabel não toma café. Carlos é estudioso e só está feliz com um livro nas mãos; você não gosta de estudar. Julinho gosta de ajuntar dinheiro, desde pequeno gostou de dinheiro. Você não pode ter dinheiro no bolso, quanto tem, quanto gasta. Joga pela janela fora.

Não é isso mesmo, Alfredo?

Ele sorriu mais:

‒Onde está o fim da história?

‒O fim da história é que todos somos diferentes, meu filho. No físico, no moral, no gosto, no caráter, nas particularidades, nas tendências, na essência, enfim. E como podemos viver igualmente, dividir igualmente o que possuímos e levar o mesmo padrão de vida, se somos tão diferentes como os dedos da mão?

‒Ora esta! D. Lola também tem suas teorias!

Um dos fundamentos do apelo massivo ao esquerdismo é a inveja. Há diversos elementos, claro. Há cérebros como Eric Hobsbawm, para quem o morticínio é o caminho adequado para refundar a existência e o próprio homem à imagem da ideologia. Há a gurizada de apartamento, adepta do lacre vazio. Há os políticos e burocratas que surfam na onda do inchaço estatal. Há os artistas bancados com grana pública e colados na mídia mainstream. Há vários. E os invejosos, como Alfredo. E pessoas como Dona Lola e a camponesa de A Sombra de Stálin, que falam de coisas cada vez mais distantes como "natureza humana" e "ordem natural". Do diálogo acima, a idosa calejada pela realidade se opõe ao antinatural do coletivismo. Suportamos o coletivo até poucos limites: o Estado moderno. Além disso, é insanidade.

É isso. Finalmente assisti a este filme e não pude deixar de associar aquela agricultora faminta à Dona Lola: qualquer ser humano razoavelmente são das ideias, com alguns neurônios sadios e que sentiu a vida ao seu redor (suou, sangrou, sentira dor, rezara ou meditou, temeu pelo povir e amou) percebe de cara a malignidade dessa engenharia social que, há séculos (antes mesmo do marxismo), poucas mentes e grandes fortunas quase dinásticas querem empurrar à nossa existência.

Veja o filme, leia o livro! Valem a pena.

Abraços famélicos e até a próxima.



quarta-feira, 10 de novembro de 2021

O motor da História em Isaac Asimov


Imagem de meu acervo particular.

Fundação é uma espetacular série de livros escritos por Isaac Asimov durante décadas esparsas. Sedimentado numa trilogia nuclear (os três primeiros volumes), possui quadrilogia escrita mais à frente, complementando o universo ficcional com maestria (duas sequências e duas prequelas). Confesso que a trilogia primeva nos parece meio anacrônica, nos dias atuais, quando imaginamos o futuro da humanidade. Contudo, isso é comum a toda obra de ficção científica, que pode apenas dar pitacos acerca de nosso avanço tecnológico. O que escrevemos hoje sobre ficção científica, por exemplo, parecerá desconexo num futuro até mesmo próximo.

A mote de Fundação é este: a humanidade dominou as estrela e habita milhões de planetas juntos a milhares de sóis. Não sabemos sequer nossa origem e a Terra é vista, a princípio, como mito. No início da trama, tudo gira em torno do Império Galáctico, com mais de vinte milênios de poderio hegemônico, em todas as áreas da vida humana. Esse, por sua vez, será extinto em poucos séculos e quem descobre isso é Hari Seldon, psicólogo. Por psicólogo entenda um estudioso da psico-história. Por meio desta ciência sócio matemática, é possível antever grandes movimentos de massas sociais, com precisa informação de margem de erro. A ideia, aliás, não é boba. Certamente, não podemos "adivinhar" o que Seu Zé fará amanhã no boteco da esquina. Mas grandes massas podem ter seus movimentos antevistos analisando-se a História e conhecendo-se um pouco da psique coletiva. Além disso, Seldon (e os que viriam após sua morte, herdeiros de seu Plano) teriam milênios de evolução tecnológica para elaborar cálculos precisos (computação quântica?). Sabendo do fim do Império e que mais de trinta mil anos de barbárie seria instaurada em todo o universo conhecido, Seldon tem um plano (O Plano Seldon): fundar duas instituições que não conseguiriam impedir a bancarrota, mas, sim, ao menos evitar que o claro do Império se desse por trinta milênios, mas apenas por unzinho e até mesmo com certa ordem social cósmica durante o período de "trevas". A primeira Fundação é criada no planeta Terminus (nos confins da galáxia); a segunda Fundação permanecerá com localização incerta durante séculos.

Ainda acerca de leis de movimentos sociais massivos, penso bastante no velho provérbio (origem incerta): "Homens fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis geram homens fracos, mas homens fracos criam tempos difíceis e tempos difíceis geram homens fortes". Não seria improvável que gerações mais evoluídas intelectualmente e com poderosos instrumentos de cálculos compendiassem bilhões de diretrizes sociais assim - separando o joio do trigo - para antever o futuro. Acredito piamente que, no futuro, análises assim serão realizadas em realidades simuladas. Isso se já não habitamos alguma simulação, onde esqueceram de me fazer multimilionário e feliz proprietário de um pau com 24 centímetros.

Posteriormente à trilogia inicial (e nuclear), os dois volumes com a sequência do universo enriqueceram a trama substancialmente. Até mesmo o Plano Seldon foi descaracterizado. Nos livros com prequelas, o mesmo foi feito. Mas não foi ruim. Tudo se encaixou no universo literário de Asimov (robôs, expansão espacial, a existência dos Eternos etc.). Mas não vou me estender aqui sobre isso. O importante neste momento é o motor da História na visão de Asimov e como, de certa forma, essa busca por engrenagens em nossa evolução influencia nossas vidas cotidianamente. Grandes fortunas e líderes progressistas trabalham no assunto a todo vapor.

Eu não vinha pensando em Asimov há certo tempo. Mas então vi meramente por acaso a sugestão da série Fundação num aplicativo e constatei ser a adaptação dos romances para série distribuída pela Apple TV+. Não vou assisti-la, obviamente, porque tenho pouco tempo para empreender em algo que tem grandes chances de ser uma bosta. E acho estranho levar Fundação à tela. O tempo passa rápido nos livros. Entre um e outro romance, passam-se séculos (salvo engano, em torno de seis, sendo que após o décimo seria instaurado o Segundo Império Galáctico, conforme o Plano original, não sem antes a intervenção da inteligência coletiva Gaia - mas isso também é outra história...). Levar algo assim para um seriado retira o principal do projeto em tal plataforma: o apego que o público precisa nutrir por personagens, durante várias temporadas). Pode ser que consigam bons resultados, com bastante lacração contemporânea onde até os robôs farão empoderamento pelas cores de suas fuselagem ou porque querem trocar pintos biônicos por vaginas de funil galvanizado. Mas, francamente, não quero mesmo gastar horas e horas para analisar isso.

Asimov foi, essencialmente, crente no mundo sem fronteiras. Foi além: uma galáxia onde todos viveriam felizes, em perfeita comunhão, ouvindo "Imagine" no éter. De certa forma, seria um H. G. Wells cósmico, com todos os vícios sobre a necessária comunhão de povos, mesmo que a fórceps e sob a batuta de classes intelectualmente iluminadas. E isso, para mim, é antinatural e quase maquiavélico. Para mais, sugiro o que já escrevi sobre H. G. Wells

Ver a notícia do seriado me lembrou essa sanha macabra em se dominar o curso da história a todo custo, suprimindo-se a liberdade, sob pretexto de promovê-la. Na trama, a Segunda Fundação evoluiu sem grandes avanços tecnológicos (diferentemente da Primeira, próspera em avanços técnicos). Ela foi pensada como poderio mentálico: o supremo comando do poder da Mente sobre tudo. Assim, semioculta, as forças mentais dos Oradores da Segunda Fundação procuraram contornar todas as possíveis crises sociais e militares para que o Plano Seldon promovido pela Primeira Fundação não saísse dos trilhos. E isso ainda seria pouco para Asimov: outra grande inteligência coletiva (inspirada por antigos robôs super evoluídos) suplantaria tudo, levando a humanidade à homogeneização total, a nível universal. Não haveria mais "eu", mas apenas "nós". Plantas, insetos, estruturas edificadas, todos os animais e até mesmo os homens seriam somente manifestação celular do grande organismo Galáxia (ou Galaksia, superorganismo interplanetário).

Hoje, estamos à beira do abismo da homogeneização social. Você não terá nada e será duplamente infeliz, enquanto grupos iluminados decidirão os limites de sua miséria existencial. Por anos, grandes pensadores sonharam com isso, se esforçando para impulsionar o motor da História a todo custo, promovendo banhos de sangue, miséria e sofrimento de toda ordem para chegar a "reFundação" da Terra. Certamente, os avanços tecnológicos permitiram acelerar o processo. E isso também me recorda como em Fundação e Império (segundo livro da série), alguns mandachuvas da Primeira Fundação pensaram em "acelerar" o processo histórico para instaurar o Segundo Império Galáctico mais brevemente, algo que também foi pensando pela líder de Terminus (Prefeita Harla Branno) em Limites da Fundação.

Atualmente, a editora Editora Aleph (fundada pelo grande Pierluigi Piazzi, o Asimov brasileiro - conquanto nascido em Bolonha) possui diversos formatos para a coleção Fundação, além de outras obras do autor. Há pouco tempo, aliás, saiu belíssimo volume (edição única) com os três primeiros livros. Mas, se você quiser ler todos, recomendo a caixa com os sete livros. Aliás, há algum tempo, venho achando livros volumosos meio incômodos para manusear durante a leitura. Penso que caixas com vários livros finos são mais interessantes. Certamente, não faltam também opções "de grátis" por aí, para ler no conforto dos e-readers. O Kobo, sem dúvidas, foi o melhor presente que ganhei até hoje. Percebo que o Lev sumiu do mapa e que, hoje, o Kindle seria a melhor opção para ler no formato eletrônico.

Para ler Fundação, há mais de um caminho. Você pode ler, antes da trilogia nuclear, as prequelas, sem qualquer prejuízo aparente, por exemplo. Entretanto, recomendo a leitura na ordem de lançamento dos livros, conforme capas abaixo. Para expandir o Universo Asimoviano, recomenda-se a leitura da "série dos robôs" (constituída pelas obras As Cavernas de Aço, O Sol Desvelado, Os Robôs da Alvorada e Robôs e Império) bem como o romance O Fim da Eternidade. Nunca li a série dos robôs, embora tenha vontade. Talvez algum dia retire este atraso.

É isso. Abraços robóticos e até a próxima.

Imagem de meu acervo particular.


sexta-feira, 3 de setembro de 2021

A Peste de Albert Camus

 

A única maneira de lidar com um mundo não livre é tornar-se tão absolutamente livre que sua própria existência seja um ato de rebelião. - Albert Camus, frase de efeito inútil e bonita.
Mandaram prender sumariamente o Zé Trovão e eu até faria piadinha infame com Ana Raio.

Salvo engano, comprei o livro acima em 2001, numa livraria Cultura situada na cidade onde morei. Não conhecia nada de Albert Camus e a aquisição foi totalmente aleatória porque queria ler algum romance e este me chamou atenção pelo mote: a mediterrânea Oran ingressa em quarentena pesada após surto de peste bubônica. Todos terão que se aturar enquanto vão morrendo juntos. Quem entrou não sai mais e o contrário também é imposto por lei marcial. Como o li há quase vinte anos, não posso resenhá-lo. Mas é um dos poucos livros ficcionais em minha estante que está anotado, cheio de grifos e marcas no texto.

Alberto Camus, quando não estava escrevendo e procurando confusão, aproveitava os prazeres do tabaco e de xoxotas. Se não tivesse falecido num acidente automobilístico, teria falecido de câncer (ou da tuberculose que o acometia há anos) ou por sífilis, penso. Para ele, a liberdade individual estava no núcleo onde todas as discussões deveriam se pautar.

Lembrei deste livro hoje ao ver notícia das mais recentes prisões de pessoas dentro do tal "inquérito das fake news". E o título também tem a ver com nosso momento atual, pandêmico. Pessoas sendo presas arbitrariamente por opiniões, injúrias e difamações. Seja de direita, esquerda ou isentão, qualquer um deveria assombrar-se com esse momento estranho em nossa republiqueta. As pessoas alvos neste procedimento esquisito deveriam ser investigadas ou processadas. Mas Kafka é aqui e agora. E lembrei que Camus comeu o pão que o tinhoso amassou por seus ideais libertários, insurgindo-se contra todas as formas de tirania. Por criticar o stalinismo e espalhar a "fake news" que pessoas morriam de fome e fuzilamento no comunismo, foi execrado por seus amigos intelectualóides da elite francesa. Sartre - corno manso notório quando a cultura cuckold era insignificante - foi seu maior amigo-da-onça.

Durante minhas boas décadas de vida, cansei de ver protestos violentos pelo país: depredações de propriedades públicas e privadas, terror no campo, agressões e ameaças variadas. Nunca deram em nada. Ninguém era preso, salvo pontuais exceções. Hoje, estão prendendo sumariamente gente que xinga agente político!

Não tenho mais nada a dizer sobre estes absurdos. Mas aproveito para recomendar o romance de Camus, expoente do Absurdismo, laureado com o Nobel de Literatura quando a premiação significava alguma coisa.

Abraços pestilentos e até a próxima.

quarta-feira, 10 de março de 2021

O Homem Invisível de H. G. Wells e Alan Moore


Cena de The Invisible Man (1933)

"O Senhor Wicksteed era um homem de quarenta e cinco ou quarenta e seis anos, intendente de Lord Burdock, de aparência e hábitos inofensivos, de modo que seria a última pessoa no mundo a provocar um antagonista tão terrível. Contra ele, o Homem Invisível usou uma barra de ferro que arrancara de um pedaço partido de cerca. Abordou o pacífico homem, que calmamente voltava para almoçar em sua casa ao meio-dia. Atacou-o, destruindo suas frágeis defesas, quebrando-lhe o braço, derrubando-o no chão e esmagando-lhe a cabeça até que se tornasse geleia."

Acho que o primeiro filme onde vi boa concepção d'O Homem Invisível foi no excelente O Homem Sem Sombra (2000, locado em VHS). Na verdade, à época, foi excelente para mim. Hoje, acho-o meio fraquinho. Mas ali estava toda a essência da obra de H. G. Wells, adaptada para o mundo contemporâneo. O cientista interpretado por Kevin Bacon torna-se extremamente cruel e insano, como efeito colateral à sua invisibilidade irreversível. Depois, conheci o "verdadeiro" Griffin em A Liga Extraordinária de Alan Moore e Kevin O'Neill. Entre tantas mentes malignas e até mesmo alienígenas, Griffin (mesmo integrando grupo de heróis vitorianos) desponta como o pior dentre os piores. Sua primeira aparição é habitando, escondido, uma escola para moçoilas, onde se passa por assombração para estuprar geral. No segundo volume d'A Liga, barbariza Mina Murray e, por isso, tem seu final tragicamente selado pelo Dr. Jekyll/Hide, com todos os ossos do corpo trucidados e, ao final, enrabado pelo monstro, deixado para morrer em agonia (e arrombado).

Não havia lido a obra primeva de H. G. Wells, até recentemente. E, colegas, Alan Moore foi certeiro naquela representação. O trecho transcrito acima evidencia como o físico é sádico. Contudo, antes mesmo de ingerir a fórmula, o sujeito era mau. Totalmente indiferente às pessoas, por exemplo, levou o pai ao suicídio ao roubá-lo. E fez questão de não tentar limpar sua honra na cidade onde morava e faleceu afamado por ladrão. Em dado momento, ainda zomba do suicídio, atribuindo-o à fraqueza do genitor.

N'A Liga, me causou estranheza que, após o último suspiro de Griffin, seu sangue aparece nas roupas de Hide e em todo o canto. Foi uma licença à ideia original de Wells. O sangue coagularia normalmente mesmo com seu dono ainda vivo. No romance, o louco invisível explica a seu amigo Kemp acerca disso: "É um grande incômodo ver meu sangue espalhado por aí, não é? Ocorre que ele se torna visível quando coagula. Modifiquei apenas o tecido vivo, portando a invisibilidade só durará enquanto eu viver.". O autor também tenta explicar o procedimento de invisibilidade de todos os tecidos com algo acerca de ótica e refração da luz. Achei interessante, aliás. Ao menos para a época quando foi publicado (1887).

Similar aos quadrinhos de Moore e O'Neill, o final do Homem Invisível também é trágico no romance. Só não rola, certamente, o enrabamento forçado. Aliás, é bom notar que Moore possui uma fixação esquisita por violação...

Outro aspecto da obra que poderia ser melhor aproveitado nos quadrinhos é o problema em estar invisível enquanto se digere alimentos, recebe gotículas de água, neve e sujeira. Isso acaba se tornando um inferno na vida de Griffin, além de passar bastante frio e machucar os pés nas longas caminhadas. No excelente filme Memórias de Um Homem Invisível (de 1992, visto por mim diversas vezes na Sessão da Tarde, mas que não considero meu primeiro contato o Homem Invisível próximo da concepção original, por se tratar de comédia e Chevy Chase ser vítima e não vilão), esses incômodos são explicitados. Há cena neste filme, aliás, que lembra o romance, além dos problemas com comida: o ato de fumar: "Depois de comer, e fez uma farta refeição, o Homem Invisível pediu um charuto a Dr. Kemp. Mordeu a ponta rudemente, antes mesmo que Kemp encontrasse uma faca para cortá-la, e queixou-se quando a folha do revestimento afrouxou. Era estranho vê-lo fumar. Era possível ver a boca, a garganta, a faringe e as narinas moldadas em uma fumaça espessa que rodopiava dentro dele".

No cinema, ao menos Chevy Chase tornou-se invisível junto com sua roupa e assim evitamos vê-lo peladão. Quando puderem, confiram o filme. Representa bem o auge de um tipo de comédia que se perdeu no tempo e ainda contamos com a beleza jovem de Daryl Hannah.

Em resumo: gostei de ler o romance. Não supunha ser tão bom. Via-o apenas como ficção científica e me deparei com puro terror. Além disso, a edição da Pandorga ficou excelente. Evito comprar livros impressos, mas naquelas promoções onde mal se paga o frete, adquiri o belíssimo box. Os livrinhos tiveram belíssimo trabalho gráfico, com capas super coloridas emulando livretos pulp e quadrinhos juvenis. O artista brasileiro responsável chama-se Butcher Billy. Na caixa, ainda temos A Máquina do Tempo e A Guerra dos Mundos.

Acerca da arte, infelizmente fica claro o artista desconhecer os livros. Vê-se claramente que sua concepção artística se deu sobre garimpo digital de filmes antigos. Sua concepção de Morlocks (humanóides d'A Máquina do Tempo), por exemplo, se baseia no filme de 1960, totalmente discrepante da obra escrita. Prefiro pensar que este foi o objetivo, num trabalho de capista cujo objetivo seria, justamente, remeter a pôsteres cinematográficos. Vai-se saber...

Não falarei sobre os dois outros romances (novelas) nesta postagem. Talvez noutra. Mas destaco me chamar atenção a apresentação de A Máquina do Tempo, onde os editores ressaltam que a civilização mostrada ali, no futuro (ano 802701, onde os Eloi(s) habitam na superfície e os Morlocks nos subterrâneos, "escravizados" para manter a vida boa dos "de cima"), constituiria "feroz crítica à sociedade industrial" da época do autor, pois este foi inspirado em Marx e era "conhecido defensor de ideais socialistas". Até aí, ok. Mas e o restante? Não compreendo a tara dessas editoras em advogarem comunismo a todo custo. Quando a novela foi escrita (publicação em 1895), sequer havia regime de mercado como hoje. Além disso, Wells morreu em 1946 e não testemunhou a abertura dos arquivos de Moscou, os números dos expurgos de Mao e Pol Pot e sequer chegou a saber do Holomodor (encoberta por anos a fio). Acho perigoso quando a esquerda festiva utiliza figuras do passado para enaltecer ideologias macabras. Aliás, penso que, atualmente, A Máquina do Tempo representaria bem o comunismo: Os Morlocks (cidadãos comuns) ralando por migalhas para manter os Eloi (políticos, burocratas e amigos do Partido).

Ademais, não há sistema de exploração no romance. Veja bem: de acordo com o Viajante no Tempo, a sociedade evoluiu em paz durante eras: "Os ricos enfim seguros com suas riquezas e confortos, os trabalhadores seguros com suas vidas e trabalhos.". Só que, num dado momento, o sistema degringolou: a aristocracia se deu cada vez mais a atividades meramente frívolas e emburreceram e os operários, proprietários de todo o maquinário no subsolo, passaram a supri-los em troca de alimentos. Ocorre que a carne passou a rarear e apenas os Eloi eram frugívoros. Logo o hábito ancestral do canibalismo retornou. E os Eloi, mais fracos, passaram a ser caçados durante a noite. O Viajante chega a enxergá-los como rebanho que pasta feliz durante as manhãs para, sem advertência, servir de alimento à raça mais forte: justamente os Morlocks.

Ao final da obra, o editor destaca os ideais feministas de Wells e, novamente, repete sua ideologia socialista (o cara seria quase o Fiuk!). Faltou um pouco de pesquisa, como sempre. H. G. Wells gozou de bastante prestígio ainda vivo e, logo, se inclinou aos ideais fabianistas, integrando a elite intelectual por trás da Sociedade Fabiana: pobres e classe média não deveriam existir se não para ser direcionados pela nata intelectual e econômica. Destaco que fabianistas célebres defenderam publicamente genocídios de "raças inferiores" e "pessoas inadequadas". Bernard Shaw, v.g.,  se esforçou para criação de gases letais que facilitassem a execução de homossexuais, negros, ciganos e povos subdesenvolvidos. Pois é... Wells era adepto do socialismo (fabiano).

Conhecido defensor de um mundo sem fronteiras, empreendeu bastante energia pelo fim de soberanias nacionais em prol de uma Nova Ordem Mundial, algo deixado claro em seu A Conspiração Aberta e em artigos e palestras. Felizmente, possuímos uma dessas palestras gravada, onde os ideais fabianistas do autor, que nada tinham de "amor ao próximo" - mas, sim, a implantação de um governo global - ficam claros para quem fez o dever de casa além dos livros made in MEC. E este Governo não existe sem totalitarismo, supressão cultural, expurgos e demais males de todo pensamento revolucionário.

Destaco ainda uma pérola encontrada logo no início d'A Guerra dos Mundos. Ao narrar a extinção de bisões e dodôs causadas por nós, pessoinhas más, o autor cita a dizimação dos aborígenes tasmanianos, da seguinte forma: "Os tasmanianos, apesar de sua aparência humana, foram varridos da face da Terra em uma guerra de extermínio empreendida por imigrantes europeus (...)". Destaco: "apesar de sua aparência humana". Enfim, por mais que algumas pessoas queiram dar lições éticas (lacrar, como falamos atualmente), em alguns momentos sempre deslizarão em suas convicções mais sombrias. Ainda pensei que poderia ser equívoco na tradução. Então fui em busca do texto original e achei: "in spite of their human likeness". C'est fini!

É isso. Desconhecia totalmente o escritor britânico e me surpreendi com sua prosa fluida e agradável, bem como com as bases científicas bem fundamentadas. A presença de seus escritos vê-se em toda a cultura pop (cinema, quadrinhos, jogos etc.). Achei que seu nome fosse sempre recordado pela natureza de precursor. No entanto, estava errado: sua prosa é notável até para o dias atuais. Fica a sugestão de leitura, ainda mais para quem gostou da concepção de Griffin n'A Liga Extraordinária.

Abraços invisíveis e até a próxima.