sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A Dark Song: o ritual de Abramelin no cinema

Esta postagem - cheia de spoilers, ressalto - de certa forma se deve à sugestão indireta do Scant S/A. Postei o vídeo acima no canal falando brevemente sobre a ocorrência de sistemas mágicos verdadeiros em gibis diversos, especialmente os de autores britânicos e, num comentário, ele me perguntou se já postei algo sobre o filme Vozes da Escuridão. E, deveras, tem tudo a ver, pois se trata de filme onde a magia vai além da mera invencionice. Como eu não tinha escrito nada a respeito, aproveitei esta sugestão.

Na trama, Sophia é a mãe que perdeu tragicamente seu filho: adolescentes inventaram de se meter com rituais e no meio da bagunça meteram sacrifício humano. Então ela aluga uma casa antiga e isolada, cuja arquitetura e construção atende aos seus planos: celebrar, ali, o exaustivo ritual de Abramelin para invocar seu anjo guardador e realizar um desejo - o qual pensamos ser o de vingança. Para isso, contrata o mago Solomon, que lhe dará "suporte técnico". E todo o filme é isso: os dois pirados trancafiados na casa, por meses, abrindo as porteiras do inferno para, assim, chegar à entidade benevolente.

Embora eu não seja experto no tema, pelo pouco que li, o roteiro retratou fielmente o ritual - obviamente dentro dos limites da linguagem cinematográfica para mero entretenimento. Durante o cansativo ritual, você não terá acesso apenas ao bem, mas também a entidades malévolas. Por isso, numa dada fase, são necessários selos para trancar os diabinhos antes que a situação fuja do controle. Isso, dizem, é o que houve na famosa casa Boleskine, onde Aleister Crowley iniciou o ritual mas o abandonou, vazando da residência e a deixando até hoje cheia de diabretes. A casa foi comprada por Jimmy Page - que além de ser o genial músico que fundou Led Zeppelin, também era macumbeiro. Ele não suportou nem dois dias no local, dizem.

Amiúdes: o ritual dá certo. A residência empesteia-se por demônios desocupados que passam dias atormentando Sophia e Solomon; e, além disso, iniciam-se tragédias (comuns no processo), com a estranhíssima morte deste último. Sophia precisa permanecer trancada em vários momentos do dia, pois as entidades podem agredi-la fisicamente. Mas um dia vacila e é pega. Ao conseguir fugir, encerra o ritual pedindo o perdão final e, assim, tem acesso ao anjo, gigante, de voz retumbante (por isso ele fala sussurrando, para não colocar a casa abaixo), belo em todo o seu esplendor. Então ela finalmente faz seu desejo: conseguir perdoa. Nada tinha a ver com vingança. Ela apenas quer retirar de seu peito o sentimento de retaliação.

Abaixo, deixo o trailer e, para quem quiser, a cena final reveladora, com a manifestação angelical. É sem dúvidas um bom filme para entreter, produzido com poucos recursos, mas bastante competente ao que se propôs. Numa média de zero a dez, eu lhe daria nota sete.

Abraços mágicos e até a próxima.

  • Vozes da Escuridão. Título original: A Dark Song.  Produção independente irlandês-britânica de 2016, escrita e dirigida por Liam Gavin, com Steve Oram e Catherine Walker. Duração: 1h 40m.