quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Sexo, tecnologia e morte em Vestida para Matar e Um Tiro na Noite


"Quenga, você é quenga!"
Perpétua Esteves Batista

Nancy Allen participou de quatro filmes dirigidos por Brian De Palma: Carrie, a Estranha, de 1976; Home Movies, de 1980; Vestida para Matar, também de 1980; e Um Tiro na Noite, de 1981. Os dois foram casados entre 1979 e 1984 e, nesse período, Nancy se tornou uma das figuras femininas mais características dos filmes do marido. Para quem a conhece principalmente como Anne Lewis, a policial de RoboCop, revê-la nesses filmes é reencontrar uma atriz utilizada de maneira diferente: putiane e inserida em histórias nas quais sacanagem, voyeurismo, violência e perversão em geral são elementos das tramas.

Revi nestes dias dois desses filmes: Um Tiro na Noite e Vestida para Matar. Os dois são excelentes exemplos de um tipo de cinema que hoje desapareceu. Vão além do mero suspense. Há assassinatos, investigação e paranoia, mas existe também uma obsessão permanente por sexo, adultério, prostituição, voyeurismo, doenças venéreas, identidade sexual e violência. E tudo isso é apresentado por De Palma com sua marca, mistura de sofisticação técnica e apelo ao exagero, mau gosto e tentativa de escandalizar - ao menos para a época.

Um Tiro na Noite talvez seja o melhor exemplo da maneira como De Palma transformava tecnologia em instrumento narrativo. John Travolta interpreta Jack Terry, técnico de som que registra por acaso o áudio de um acidente automobilístico. O problema é que o ocupante do carro era um político importante e, ao ouvir obsessivamente a gravação, Jack percebe que aquele acidente foi morte matada e não morte morrida. Houve um tiro ou um pneu estourando? O que parecia uma simples fatalidade era, na verdade, um assassinato. E o mais interessante é a maneira como ele chega a essa conclusão. Não há computador fazendo todo o trabalho, inteligência artificial ou qualquer recurso digital capaz de produzir respostas. Jack precisa voltar ao material que gravou, examinar fotografias, ampliar imagens, editar o som e sincronizar mídias até conseguir reconstruir aquilo que aconteceu. É uma investigação quase artesanal, na qual a tecnologia rudimentar se transforma em uma espécie de microscópio capaz de revelar um crime escondido dentro de uma sequência aparentemente banal. A sequência desse esforço é um grande momento, penso, do cinema.

Em Vestida para Matar existe o mesmo fascínio por geringonças. Keith Gordon interpreta um garoto com verdadeira obsessão por equipamentos eletrônicos e fotografia, que utiliza sua engenhosidade para instalar dispositivos de observação e acompanhar os movimentos das pessoas relacionadas ao crime. O procedimento é simples aos olhos de hoje, mas justamente por isso é tão interessante. Ele precisa calcular tempos, registrar imagens, acompanhar deslocamentos e transformar fotografias e filmagens em pistas. A investigação nasce da capacidade de observar e colocar os neurônios para funcionar, coisa que está em extinção hoje em dia.

Há um conexão entre os dois filmes. Em Um Tiro na Noite, o som é a testemunha do assassinato. Em Vestida para Matar, é a câmera que ajuda. Nos dois casos, a verdade está registrada em algum lugar, escondida dentro de um material aparentemente banal, e precisa ser descoberta por alguém obsessivo o suficiente para examiná-lo.

Outro grande elementos em ambos os filmes é a perversão. Toda a violência tem a ver com a buscar por trepadinhas, de alguma forma. De Palma tem obsessão pelo desejo sexual como força capaz de conduzir os personagens à própria desgraça. Em Vestida para Matar isso é levado ao extremo. Angie Dickinson interpreta Kate Miller, uma MILF eternamente no cio, entediada com o casamento e completamente insatisfeita com a vida que leva. No consultório do psiquiatra, fala sobre sexo, provoca o médico e deixa claro que sua vida doméstica já não lhe basta. Depois, entrega-se a uma aventura com um desconhecido. Não existe sutileza. Kate é uma mulher sem vergonha, adúltera e sexualmente viçosa, dando a xota até dentro de um táxi em movimento, enquanto o motorista observa tudo pelo retrovisor. Procura uma aventura porque vive com piriquita da terceira idade pegando fogo. No início do filme, enquanto dá para o marido (que a assumiu enquanto mão solteira) delira com fantasias de estupro. O que segue nas cenas seguintes é uma descida progressiva à degradação. Depois de transar com o desconhecido, Kate descobre, remexendo em uma gaveta no apartamento do comedor, que ele está contaminado por doenças venéreas (quais, não sabemos). A situação já seria suficientemente degradante, mas piora. Ela percebe que deixou a aliança de casamento no apartamento e volta para buscá-la. É quando entra no elevador e é assassinada.

Esta sequência do assassinato é perversa justamente porque existe uma espécie de punição construída em torno do comportamento da personagem. Kate sai em busca de sexo, encontra um homem desconhecido, descobre que foi exposta a doenças venéreas e, quando tenta recuperar a aliança que simboliza o marido corno, é morta dentro do elevador por golpes de navalha. A pulada de cerca termina em sangue. E é nesse ponto que Nancy Allen aparece. Liz Blake (Nancy) é uma prostituta de luxo, carinha de anjo e expert no job, habituada a circular entre homens com dinheiro que lhe pagam até quinhentos dólares por uma foda. Ela presencia o assassinato e passa a ter sua própria vida em risco.

A escolha de De Palma é interessante porque a testemunha é justamente uma puta "de luxo". Liz é uma mulher que vive do job e, por isso mesmo, é tratada com desprezo. Sua profissão faz com que as autoridades desconfiem dela, como se uma prostituta fosse automaticamente mentirosa, vulgar ou moralmente inferior (o que, claro, procede!). No entanto, é justamente essa mulher que viu o assassinato e possui a informação necessária para chegar ao assassino - um homem aparentemente "respeitável". E a assassinada é a verdadeira rameira da história, tendo chegado à maturidade com um fogo implacável no rabo.

A personagem de Angie Dickinson chama atenção exatamente porque é construída como uma mulher que se entrega a qualquer custo ao desejo. Kate é uma quenga encubada - dona de casa que está entediada porque não precisa lavar louça suja nem cueca freada, procurando desculpas para trair o marido e se colocando em situações de risco. Depois de provocar o psiquiatra, sai do consultório e acaba encontrando um desconhecido para traçá-la. Logo depois descobre que contraiu doenças venéreas. E, ao retornar ao apartamento para recuperar a aliança, encontra a própria morte. Castigada, enfim, pela ânsia sem fim por rolas. Kate é simplesmente uma vadia endinheirada entediada, querendo romper a monotonia da própria vida por meio do sexo selvagem. E De Palma não parece interessado em absolvê-la.

Vestida para Matar vai para um terreno ainda mais interessante ao colocar no centro da trama a questão da "identidade sexual" e da cirurgia de redesignação de gênero, algo que estava muito longe de possuir a presença pública que ganhou hoje, no mundo do "elu-dilu-bilu-furico". Michael Caine interpreta o psiquiatra Robert Elliott, cuja identidade está diretamente ligada ao crime e a um conflito entre sua identidade masculina e a personalidade Bobbi (seu lado travesti). Ele quer virar mocinha, mas não consegue. Acho que isso nem chega a ser spoiler, pois ficar claro desde o início que ele é o traveco indeciso que teima em não sair do armário. O filme associa a identidade sexual, a transexualidade e a cirurgia de redesignação à psicose, violência e assassinato. E, enquanto adultos estão mergulhados em sangue e sacanagem, é um moleque fascinado por tecnologia que consegue decifrar, em parte, o crime que ceifou a vida de sua mamãe vadia. O adolescente utiliza engenhosidade e observação para tentar desvendar tudo. Isso aproxima ainda mais Vestida para Matar de Um Tiro na Noite. Em ambos os filmes, a tecnologia serve para penetrar a privacidade. Hoje em dia, com câmeras em tudo quanto é buraco (até no mato, como já vi diversas vezes), isso seria bobagem.

Acho que voyeurismo é o principal aspecto nesses filmes, enfim, numa época de tecnologias de áudio e vídeo ainda embrionárias. E, claro, a tara do escritor/diretor em colocar sua própria esposa em papéis de prostitutas, meio como um homem cuckoldNancy Allen está no centro dos dois filmes e é impossível ignorar sua importância na filmografia de De Palma. Antes de se tornar a policial Anne Lewis do RoboCop que tanto amo, ela foi Chris Hargensen em Carrie, a Estranha, Liz Blake em Vestida para Matar e Sally em Um Tiro na Noite. São quatro trabalhos com De Palma em apenas alguns anos, justamente numa fase em que o diretor consolidava esse cinema marcado por raparigas civis ou profissionais, homens obsessivos e tarados, voyeurismo, violência e paranoia, tudo junto e misturado como num grande gang bang.

É isso. Dica de dois filmes do idoso Brian De Palma com sua ex esposa sempre no papel de garota do job. Abraços cinematográficos e até a próxima.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O mundo está uma porcaria

O Marreta postou em seu blogue mais um de seus belos poemas bukowskianos, intitulado Um Nascer do Sol em 4 K. Deixei lá um comentário informado que tinha acabado de descer duas doses de Buchanan's Deluxe 12 Anos e ele me respondeu: "Pela hora do seu comentário, devia ser perto das duas da matina. Quinta-feira... Madrugada... whisky do bom, do ótimo... Isso sim é vida. Saúde, meu caro.". Concordo com ele que isso sim é vida, mas faço um aparte: isso também é uma forma de viver, dentre tantas outras. Há quem não beba nem fume e tanto faz. Mas encontra seus pequenos prazeres em diversas outras atividades ou até em ficar à toa coçando o saco enquanto observa a madrugada pela varanda, com seus pensamentos. O importante é que cada um viva à sua maneira, com os seus demônios sendo mantidos sob controle, trancafiados.

Isso dos demônios, aliás, me recordou o romance Doutor Sono de Stephen King. Já falei sobre ele aqui no blogue. Na obra, Daniel Torrance mantem todas as entidades malignas do extinto Overlook Hotel em gavetas mentais, aprisionadas. Isso recorda o que o Rei Salomão fazia com os "caídos" por ele conjurados e, depois, mantidos sob o controle de nomes, signos, sigilos e jarros de barro. O ideal é ter fé no Nosso Senhor Jesus Cristo e não precisar se preocupar com os tinhosos, claro. Mas isso não é possível para todos. Aliás, Santo Agostinho citou algo a respeito: não podemos impedir que as más ideias (entidades) sobrevoem nossas cabeças, mas podemos impedi-las que ali façam seus ninhos. E, como diz o ditado popular: onde fez ninho, deixou ovos e fezes. Então é isso: manter os pensamentos ruins domados.

Enfim: achei interessante a postagem do Marreta e isso me fez pensar sobre mil coisa que não valem a pena expor aqui e não haveria nem tempo para tal afã. 

O uísque mencionado e mostrado no vídeo acima me foi dado de presente de dia dos pais, junto com uma camiseta para minhas corridas noturnas (e para o dia a dia, já que uso bastante camiseta regata no cotidiano, exibindo minhas belas tatuagens e meus músculos invejáveis). Gosto de bebê-lo puro ou no café. Aliás, café com uísque e mel de abelha é uma delícia - recomendo. No vídeo acima, adicionei a música Samba de Ana, feita pelo Fabiano com uso de IA sobre poema homônimo publicado em meu livro Invenção Nortuna.

Durante as madrugadas pensando na vida que poderia ter sido e que não foi e em como a vida realmente se tornou uma bosta, penso que até mesmo um nascer de sol na TV de tubo de minha infância e adolescência seria melhor do que o que possuímos hoje. O mundo está uma porcaria. A internet banda larga e redes sociais nos trouxeram uma existência medíocre e inúmeros problemas que ela (internet) tenta nos ajudar a solucionar; mas, sem tanta tecnologia, não teríamos os problemas que ela mesma "nos ajuda" a resolver. Está tudo acelerado e não podemos mais sobreviver sem telefonia móvel e aplicativos e senhas a perde de vista. E não adianta desligar o telefone, pois, ao ligarmos, os problemas serão atualizados para nós tão logo conectados à internet.

Falando em internet, era algo que parecia legal no início, aos meus 15 anos idade com meu computador AMD K6-2 500 MHz e conexão discada num modem 56 kbps. Tínhamos o Kazaa e o eMule para baixar músicas, ouvidas quase sempre no Winamp, enquanto usávamos ICQ, IRC e MSN para conversar com pessoas que conhecíamos pelo Orkut. Mas só foi bom até aí mesmo.

É isso. O poema do Marreta me levou longe. Vou ficando por aqui antes que vá longe demais. Abraços etílicos e até a próxima.