sexta-feira, 19 de junho de 2026

Danny Elfman, identidades auditivas e paisagens sonoras


Na virada da década de '80 para '90, este hit moldou duas gerações,
especialmente graças à novela Top Model.

Há três meses sem atualizar este blogue, resolvi postar algo que tem a ver com sua essência: cinema, música, ícones modernos etc. Ou seja: cultura pop vulgar; embora vulgares sejamos nós, acreditando realmente que objetos culturais são criações sem propósitos e não têm o poder de moldar costumes e idiossincrasia - logo, o futuro da espécie humana. Ledo engano, claro. Até mesmo o que nasce de maneira aparentemente descompromissada pode adquirir, com o tempo, contornos mágicos que a própria coletividade passa a lhe impingir. Pense, por exemplo, em Os Simpsons. Estamos há trinta e seis anos ouvindo sua vinheta de abertura. Ela foi criada por Danny Elfman.

É emblemático, isso. Milhões de pessoas ao redor do planeta reconhecem instantaneamente aquela sequência de notas, mas quase ninguém sabe quem a compôs. Danny Elfman pertence a essa categoria de artistas cuja obra se tornou mais famosa do que seu próprio rosto. É um daqueles sujeitos que, mesmo permanecendo nos bastidores, ajudaram a construir a paisagem emocional de gerações inteiras. Ele seria uma "entidade" parecida com O Compositor (The Songwriter) do filme Under The Silver Lake (obra já resenhada por mim no canal): moldando a cultura a partir das sombras.

Quem cresceu entre os anos 1980 e 2000 foi acompanhado por ele sem perceber. Batman, Edward Mãos de Tesoura, Os Fantasmas se Divertem, O Estranho Mundo de Jack, Homens de Preto, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Homem-Aranha etc. A lista é extensa. Danny compôs para mais de 100 longas-metragens e dezenas de séries de televisão e especiais. Em cada uma dessas produções, ele fez algo que poucos compositores conseguem: criou "identidades auditivas". Certos filmes podem ser esquecidos em alguns de seus elementos. Mas a melodia ressoa forte em nossa mente.

A música de Elfman não busca apenas ilustrar as imagens das cabeças do roteirista e do diretor. Ela antecede a própria narrativa. Antes mesmo de um personagem falar, antes de uma cena revelar suas intenções, a trilha já indica ao espectador o tipo de mundo que está prestes a encontrar. Quase sempre há algo de infantil e sombrio, lúdico e perturbador, mágico e melancólico em suas composições. Uma combinação que se tornou praticamente inseparável do imaginário criado por Tim Burton.

Mas não devemos reduzir Danny Elfman à condição de "compositor de Tim Burton". Antes de Hollywood, ele já era uma figura idolatrada à frente da banda Oingo Boingo. Depois, transformou-se em um dos compositores mais influentes da indústria cinematográfica moderna. Sua assinatura passou a ser copiada, adaptada e reciclada por inúmeros profissionais que vieram depois dele.

Danny Elfman ajuda a demonstrar - recordando Under The Silver Lake - que as pessoas costumam acreditar que a cultura é mero entretenimento, uma distração inofensiva produzida para preencher horas vazias. Contudo, basta observar o poder duradouro de certas obras para perceber que elas fazem muito mais do que isso. Elas moldam a cultura, definem memórias afetivas e fornecem a trilha sonora das nossas vidas. Décadas depois, continuamos assobiando melodias compostas por desconhecidos. Talvez porque, em algum nível, elas tenham ajudado a compor quem sejamos hoje. Os próximos xamãs nesta empreitada, creio, serão inteligências artificiais...

Recentemente, gravei um vídeo sobre a trajetória de Elfman, revisitando algumas de suas composições mais marcantes e discutindo a influência que exerceu sobre a cultura pop contemporânea. Quem tiver interesse pode assistir aqui, a seguir.

É isso. Deu vontade falar do elfo das trilhas cinematográficas.

Abraços élficos e até a próxima.

terça-feira, 17 de março de 2026

Days Gone


Days Gone é um jogo de ação e sobrevivência em mundo aberto no qual jogamos com Deacon St. John, um motoqueiro que vive em um cenário pós-apocalíptico após uma pandemia transformar grande parte da população em criaturas chamadas freakers (frenéticos: humanos viçosos que vagam pelo mundo alucinados, movidos pelas necessidades básicas de comer, dormir e defecar em seus ninhos e cavernas). Enquanto enfrentamos hordas de infectados, grupos humanos hostis e a escassez de recursos, cruzamos estradas perigosas em nossa motoca em busca de sobrevivência e de respostas sobre o paradeiro de nossa loirinha gostosa, Sarah, guiados pela esperança de reencontrá-la e encontrar algum sentido em meio ao caos.

Quando comprei meu console PS4, veio de brinde a mídia física desse jogo. Não achei interessante a jogatina inicial e o coloquei de lado. Então, minha esposa jogou tudo, zerando-o em uma semana, e me afirmou que foi meio cansativo e chato em muitos momentos, mas que valia a pena para entreter. Resolvi, então, jogar e confesso que gostei. Havia, claro, o problema da audácia do mundo aberto. Explico: é, no mínimo, audacioso planejar um game em mundo aberto, pois como você irá preenchê-lo? Não é fácil preencher um mundo aberto para exploração sem coisas bacanas. Em Red Dead Redemption II, por exemplo, as cavalgadas valem a pena, pois você não apenas topará com eventuais sidequests tenebrosas, mas também com itens curiosos, pedaços de histórias e a evolução do mundo em si (por exemplo, uma casa sendo aos poucos edificada) etc.

Days Gone foi pobre quanto ao mundo aberto. No máximo, você topará com bandidos aleatórios, acampamentos de emboscada e algumas paisagens legais. Aliás, falando nestas, muitas foram inspiradas em locais reais, a exemplo da Crater Lake, localizada no Oregon. A Ilha Wizard, no jogo, é sua reprodução fiel, com ambientação apocalíptica, claro. Raramente, você encontrará algo interessante a ser analisado pela possível história oculta por trás daquilo tudo, como, por exemplo, quando topei com um acampamento cheio de corpos recém-chacinados, um cidadão à frente de uma mesa com ursinhos de pelúcia e, à frente, escrito: "Please forgive me".

Mas, enfim... Vi a notícia da remasterização do jogo para PS5 e, obviamente, não comprei. Não pagaria 50 janjas em uma safadeza da Sony. Mas a notícia me deu vontade de jogar novamente, desta vez no modo New Game Plus (com todas as melhorias anteriores mantidas, da primeira vez que joguei). E foi interessante, pois adquiri todas as habilidades possíveis, ganhei todos os troféus convencionais (embora não ligue tanto para isso, foi fácil no modo NG+) e, finalmente, deixei minha moto como queria: topíssima. Aproveitei e fiz as últimas melhorias no acampamento Diamond Lake, inclusive com o tanque de gasolina em homenagem ao jogo Death Stranding, com o bebê flutuando em seu interior. Com as melhorias, a moto dá saltos insanos e também pude, finalmente, fazer o “desafio” Burnout Apocalipse (usar nitro e derrapar ao mesmo tempo na moto por pelo menos cinco segundos).

Encarnar Deacon St. John foi, novamente, divertido. Dizimei todas as hordas do jogo, atendi a todos os pedidos de serviço extra dos donos de acampamentos e resgatei muitos NPCs em apuros. Também pude experimentar armamentos que só se liberam no modo NG+, a exemplo de um rifle com gás letal. No vídeo acima, gravei cinco minutos do final de tudo, em que apresentei a motoca nos trinques, habilidades e troféus e, findo tudo, fiz o que sempre costumo fazer quando jogo em mundos abertos: fui para casa, olhei em volta, despedi-me de tudo e me deitei. 

Boa noite, Deacon.

Abraços frenéticos e até a próxima.


Perdoá-lo de quê? Creio que executou toda a família e depois estourou os miolos.


Paisagem real no Oregon. Abaixo, o resultado encontrado no jogo.