domingo, 2 de agosto de 2026

John Charles Fiddy, Chaves e Chapolin

Não contavam com a astúcia de J. C. Fiddy

Chaves e Chapolin ocupam um lugar especial na minha formação. Foram seriados que, além de divertirem, ajudaram a construir uma memória afetiva que permanece viva até hoje. Ainda hoje, de vez em quando, paro para rever um episódio aleatório no YoutTube, porque há ali algo que atravessa o tempo: humor simples, personagens marcantes e uma atmosfera que continua funcionando com a mesma força de antigamente.

Mas há uma parte dessa experiência que, durante muito tempo, passou quase despercebida: as trilhas sonoras. Elas eram fundamentais para dar ritmo, emoção e identidade às cenas. Chamo trilha sonora de "paisagem sonora", pois é um elemento essencial - acredito - na edificação da obra e nos ajudar a encontrar ressonância emocional. Era justamente a música que ajudava a ampliar o impacto do que estava acontecendo em cena, seja no suspense, na comédia, na melancolia ou na correria dos personagens. Sem aquelas trilhas, Chaves e Chapolin talvez não tivessem a mesma força; não com a mesma intensidade.

Só que essa descoberta veio bem mais tarde: boa parte dessa trilha que parecia feita sob medida para os episódios, na verdade, vinha de catálogos musicais. Um desses catálogos reunia composições de John Charles Fiddy, compositor britânico que trabalhou justamente nessa lógica da produção musical para uso em programas de televisão, filmes, comerciais e documentários. Em vez de escrever pensando em um artista específico ou em uma obra fechada, Fiddy optou por dedicar boa parte da carreira à criação de músicas para "bibliotecas sonoras", sempre com a ideia de que aquelas peças poderiam ser usadas em diferentes contextos audiovisuais. É como, hoje, o pessoal que se dedica a produzir músicas para a biblioteca de áudio do YouTube: ele não sabe como seu trabalho será utilizado, está "preocupado" apenas em depositar composições num catálogo e embolsar sua bufunfa.

Enfim: as trilhas dos programas criados por Roberto Gómez Bolaños foram inseridas, para o público tupiniquim, pelo SBT, mediante o trabalho da MAGA - um dos mais importantes estúdios de dublagem do Brasil, responsável por versões brasileiras que se tornaram verdadeiros clássicos da televisão. E todo o trabalho de Fiddy era realizado sem pensar no seu destino - a não ser a formação de um "catálogo" para multiuso. E talvez esteja aí parte do encanto. Fiddy não compunha para que suas músicas fossem lembradas por um único título, mas acabaram sendo incorporadas a um dos maiores fenômenos da televisão popular no Brasil. Suas trilhas passaram a fazer parte da identidade emocional de Chaves e Chapolin, mesmo sem terem sido criadas originalmente para isso. No fim das contas, o que era música de catálogo virou memória afetiva coletiva.

As linhas de baixo sempre fortes, com bastante destaque em diversas composições que ouvimos nos seriados, já me chamavam atenção há algum tempo. Após descobrir mais sobre o compositor britânico, tomei conhecimento que, mesmo sendo multinstrumentista, mantinha uma predileção pelo baixo.

Por isso, vale a pena conhecer esse trabalho na íntegra. Ouvir esse álbum, ou esse conjunto de composições, é reencontrar boa parte de uma herança musical que marcou gerações. Em aproximadamente meia hora, está condensada uma parcela enorme da nossa memória afetiva: o suspense, a ternura, a brincadeira, a tristeza, a correria e o humor que tantas vezes associamos aos episódios do Chaves e do Chapolin. É uma dessas surpresas bonitas da cultura popular: descobrir que por trás de algo tão familiar havia um universo musical muito mais amplo, e que continua sendo extraordinário até hoje.

Curiosamente, Fiddy era a cara do ator Carlos Villagrán - o intérprete do Quico e comedor de Florinda Meza (a Dona Florinda) no início da década de 1970. O affair ocorreu antes de Florinda começar a se envolver com Roberto Gómez Bolaños (o Chaves), criador da série, com quem ela ficou até o fim da vida dele. Em resumo: a vida imita a arte - quem primeiro comeu o sanduíche de presunto foi o Quico; Chaves recolheu os farelos.

É isso. Vou ficando por aqui. Abraços biônicos e até a próxima.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Danny Elfman, identidades auditivas e paisagens sonoras


Na virada da década de '80 para '90, este hit moldou duas gerações,
especialmente graças à novela Top Model.

Há três meses sem atualizar este blogue, resolvi postar algo que tem a ver com sua essência: cinema, música, ícones modernos etc. Ou seja: cultura pop vulgar; embora vulgares sejamos nós, acreditando realmente que objetos culturais são criações sem propósitos e não têm o poder de moldar costumes e idiossincrasia - logo, o futuro da espécie humana. Ledo engano, claro. Até mesmo o que nasce de maneira aparentemente descompromissada pode adquirir, com o tempo, contornos mágicos que a própria coletividade passa a lhe impingir. Pense, por exemplo, em Os Simpsons. Estamos há trinta e seis anos ouvindo sua vinheta de abertura. Ela foi criada por Danny Elfman.

É emblemático, isso. Milhões de pessoas ao redor do planeta reconhecem instantaneamente aquela sequência de notas, mas quase ninguém sabe quem a compôs. Danny Elfman pertence a essa categoria de artistas cuja obra se tornou mais famosa do que seu próprio rosto. É um daqueles sujeitos que, mesmo permanecendo nos bastidores, ajudaram a construir a paisagem emocional de gerações inteiras. Ele seria uma "entidade" parecida com O Compositor (The Songwriter) do filme Under The Silver Lake (obra já resenhada por mim no canal): moldando a cultura a partir das sombras.

Quem cresceu entre os anos 1980 e 2000 foi acompanhado por ele sem perceber. Batman, Edward Mãos de Tesoura, Os Fantasmas se Divertem, O Estranho Mundo de Jack, Homens de Preto, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Homem-Aranha etc. A lista é extensa. Danny compôs para mais de 100 longas-metragens e dezenas de séries de televisão e especiais. Em cada uma dessas produções, ele fez algo que poucos compositores conseguem: criou "identidades auditivas". Certos filmes podem ser esquecidos em alguns de seus elementos. Mas a melodia ressoa forte em nossa mente.

A música de Elfman não busca apenas ilustrar as imagens das cabeças do roteirista e do diretor. Ela antecede a própria narrativa. Antes mesmo de um personagem falar, antes de uma cena revelar suas intenções, a trilha já indica ao espectador o tipo de mundo que está prestes a encontrar. Quase sempre há algo de infantil e sombrio, lúdico e perturbador, mágico e melancólico em suas composições. Uma combinação que se tornou praticamente inseparável do imaginário criado por Tim Burton.

Mas não devemos reduzir Danny Elfman à condição de "compositor de Tim Burton". Antes de Hollywood, ele já era uma figura idolatrada à frente da banda Oingo Boingo. Depois, transformou-se em um dos compositores mais influentes da indústria cinematográfica moderna. Sua assinatura passou a ser copiada, adaptada e reciclada por inúmeros profissionais que vieram depois dele.

Danny Elfman ajuda a demonstrar - recordando Under The Silver Lake - que as pessoas costumam acreditar que a cultura é mero entretenimento, uma distração inofensiva produzida para preencher horas vazias. Contudo, basta observar o poder duradouro de certas obras para perceber que elas fazem muito mais do que isso. Elas moldam a cultura, definem memórias afetivas e fornecem a trilha sonora das nossas vidas. Décadas depois, continuamos assobiando melodias compostas por desconhecidos. Talvez porque, em algum nível, elas tenham ajudado a compor quem sejamos hoje. Os próximos xamãs nesta empreitada, creio, serão inteligências artificiais...

Recentemente, gravei um vídeo sobre a trajetória de Elfman, revisitando algumas de suas composições mais marcantes e discutindo a influência que exerceu sobre a cultura pop contemporânea. Quem tiver interesse pode assistir aqui, a seguir.

É isso. Deu vontade falar do elfo das trilhas cinematográficas.

Abraços élficos e até a próxima.