Nancy Allen participou de quatro filmes dirigidos por Brian De Palma: Carrie, a Estranha, de 1976; Home Movies, de 1980; Vestida para Matar, também de 1980; e Um Tiro na Noite, de 1981. Os dois foram casados entre 1979 e 1984 e, nesse período, Nancy se tornou uma das figuras femininas mais características dos filmes do marido. Para quem a conhece principalmente como Anne Lewis, a policial de RoboCop, revê-la nesses filmes é reencontrar uma atriz utilizada de maneira diferente: putiane e inserida em histórias nas quais sacanagem, voyeurismo, violência e perversão em geral são elementos das tramas.
Revi nestes dias dois desses filmes: Um Tiro na Noite e Vestida para Matar. Os dois são excelentes exemplos de um tipo de cinema que hoje desapareceu. Vão além do mero suspense. Há assassinatos, investigação e paranoia, mas existe também uma obsessão permanente por sexo, adultério, prostituição, voyeurismo, doenças venéreas, identidade sexual e violência. E tudo isso é apresentado por De Palma com sua marca, mistura de sofisticação técnica e apelo ao exagero, mau gosto e tentativa de escandalizar - ao menos para a época.
Um Tiro na Noite talvez seja o melhor exemplo da maneira como De Palma transformava tecnologia em instrumento narrativo. John Travolta interpreta Jack Terry, técnico de som que registra por acaso o áudio de um acidente automobilístico. O problema é que o ocupante do carro era um político importante e, ao ouvir obsessivamente a gravação, Jack percebe que aquele acidente foi morte matada e não morte morrida. Houve um tiro ou um pneu estourando? O que parecia uma simples fatalidade era, na verdade, um assassinato. E o mais interessante é a maneira como ele chega a essa conclusão. Não há computador fazendo todo o trabalho, inteligência artificial ou qualquer recurso digital capaz de produzir respostas. Jack precisa voltar ao material que gravou, examinar fotografias, ampliar imagens, editar o som e sincronizar mídias até conseguir reconstruir aquilo que aconteceu. É uma investigação quase artesanal, na qual a tecnologia rudimentar se transforma em uma espécie de microscópio capaz de revelar um crime escondido dentro de uma sequência aparentemente banal. A sequência desse esforço é um grande momento, penso, do cinema.
Em Vestida para Matar existe o mesmo fascínio por geringonças. Keith Gordon interpreta um garoto com verdadeira obsessão por equipamentos eletrônicos e fotografia, que utiliza sua engenhosidade para instalar dispositivos de observação e acompanhar os movimentos das pessoas relacionadas ao crime. O procedimento é simples aos olhos de hoje, mas justamente por isso é tão interessante. Ele precisa calcular tempos, registrar imagens, acompanhar deslocamentos e transformar fotografias e filmagens em pistas. A investigação nasce da capacidade de observar e colocar os neurônios para funcionar, coisa que está em extinção hoje em dia.
Há um conexão entre os dois filmes. Em Um Tiro na Noite, o som é a testemunha do assassinato. Em Vestida para Matar, é a câmera que ajuda. Nos dois casos, a verdade está registrada em algum lugar, escondida dentro de um material aparentemente banal, e precisa ser descoberta por alguém obsessivo o suficiente para examiná-lo.
Outro grande elementos em ambos os filmes é a perversão. Toda a violência tem a ver com a buscar por trepadinhas, de alguma forma. De Palma tem obsessão pelo desejo sexual como força capaz de conduzir os personagens à própria desgraça. Em Vestida para Matar isso é levado ao extremo. Angie Dickinson interpreta Kate Miller, uma MILF eternamente no cio, entediada com o casamento e completamente insatisfeita com a vida que leva. No consultório do psiquiatra, fala sobre sexo, provoca o médico e deixa claro que sua vida doméstica já não lhe basta. Depois, entrega-se a uma aventura com um desconhecido. Não existe sutileza. Kate é uma mulher sem vergonha, adúltera e sexualmente viçosa, dando a xota até dentro de um táxi em movimento, enquanto o motorista observa tudo pelo retrovisor. Procura uma aventura porque vive com piriquita da terceira idade pegando fogo. No início do filme, enquanto dá para o marido (que a assumiu enquanto mão solteira) delira com fantasias de estupro. O que segue nas cenas seguintes é uma descida progressiva à degradação. Depois de transar com o desconhecido, Kate descobre, remexendo em uma gaveta no apartamento do comedor, que ele está contaminado por doenças venéreas (quais, não sabemos). A situação já seria suficientemente degradante, mas piora. Ela percebe que deixou a aliança de casamento no apartamento e volta para buscá-la. É quando entra no elevador e é assassinada.
Esta sequência do assassinato é perversa justamente porque existe uma espécie de punição construída em torno do comportamento da personagem. Kate sai em busca de sexo, encontra um homem desconhecido, descobre que foi exposta a doenças venéreas e, quando tenta recuperar a aliança que simboliza o marido corno, é morta dentro do elevador por golpes de navalha. A pulada de cerca termina em sangue. E é nesse ponto que Nancy Allen aparece. Liz Blake (Nancy) é uma prostituta de luxo, carinha de anjo e expert no job, habituada a circular entre homens com dinheiro que lhe pagam até quinhentos dólares por uma foda. Ela presencia o assassinato e passa a ter sua própria vida em risco.
A escolha de De Palma é interessante porque a testemunha é justamente uma puta "de luxo". Liz é uma mulher que vive do job e, por isso mesmo, é tratada com desprezo. Sua profissão faz com que as autoridades desconfiem dela, como se uma prostituta fosse automaticamente mentirosa, vulgar ou moralmente inferior (o que, claro, procede!). No entanto, é justamente essa mulher que viu o assassinato e possui a informação necessária para chegar ao assassino - um homem aparentemente "respeitável". E a assassinada é a verdadeira rameira da história, tendo chegado à maturidade com um fogo implacável no rabo.
A personagem de Angie Dickinson chama atenção exatamente porque é construída como uma mulher que se entrega a qualquer custo ao desejo. Kate é uma quenga encubada - dona de casa que está entediada porque não precisa lavar louça suja nem cueca freada, procurando desculpas para trair o marido e se colocando em situações de risco. Depois de provocar o psiquiatra, sai do consultório e acaba encontrando um desconhecido para traçá-la. Logo depois descobre que contraiu doenças venéreas. E, ao retornar ao apartamento para recuperar a aliança, encontra a própria morte. Castigada, enfim, pela ânsia sem fim por rolas. Kate é simplesmente uma vadia endinheirada entediada, querendo romper a monotonia da própria vida por meio do sexo selvagem. E De Palma não parece interessado em absolvê-la.
Vestida para Matar vai para um terreno ainda mais interessante ao colocar no centro da trama a questão da "identidade sexual" e da cirurgia de redesignação de gênero, algo que estava muito longe de possuir a presença pública que ganhou hoje, no mundo do "elu-dilu-bilu-furico". Michael Caine interpreta o psiquiatra Robert Elliott, cuja identidade está diretamente ligada ao crime e a um conflito entre sua identidade masculina e a personalidade Bobbi (seu lado travesti). Ele quer virar mocinha, mas não consegue. Acho que isso nem chega a ser spoiler, pois ficar claro desde o início que ele é o traveco indeciso que teima em não sair do armário. O filme associa a identidade sexual, a transexualidade e a cirurgia de redesignação à psicose, violência e assassinato. E, enquanto adultos estão mergulhados em sangue e sacanagem, é um moleque fascinado por tecnologia que consegue decifrar, em parte, o crime que ceifou a vida de sua mamãe vadia. O adolescente utiliza engenhosidade e observação para tentar desvendar tudo. Isso aproxima ainda mais Vestida para Matar de Um Tiro na Noite. Em ambos os filmes, a tecnologia serve para penetrar a privacidade. Hoje em dia, com câmeras em tudo quanto é buraco (até no mato, como já vi diversas vezes), isso seria bobagem.
Acho que voyeurismo é o principal aspecto nesses filmes, enfim, numa época de tecnologias de áudio e vídeo ainda embrionárias. E, claro, a tara do escritor/diretor em colocar sua própria esposa em papéis de prostitutas, meio como um homem cuckold. Nancy Allen está no centro dos dois filmes e é impossível ignorar sua importância na filmografia de De Palma. Antes de se tornar a policial Anne Lewis do RoboCop que tanto amo, ela foi Chris Hargensen em Carrie, a Estranha, Liz Blake em Vestida para Matar e Sally em Um Tiro na Noite. São quatro trabalhos com De Palma em apenas alguns anos, justamente numa fase em que o diretor consolidava esse cinema marcado por raparigas civis ou profissionais, homens obsessivos e tarados, voyeurismo, violência e paranoia, tudo junto e misturado como num grande gang bang.
É isso. Dica de dois filmes do idoso Brian De Palma com sua ex esposa sempre no papel de garota do job. Abraços cinematográficos e até a próxima.


