sábado, 12 de setembro de 2026

Meridiano de Sangue ou O rubor crepuscular no Oeste [ Romance de Cormac McCarthy ]

A postagem a seguir foi publicada em meu antigo blogue, em 4 de dez de 2016. Eu a tinha perdido e tentei até verificar no Wayback Machine, mesmo assim não encontrei. Ou seja: fui incompetente. Porque o Ozy foi lá e achou. Como chegamos a isso de falar sobre Meridiano de Sangue? Ele havia me compartilhado uma imagem baseada em um dos personagens do livro e perguntou se eu já o li. Respondi que sim, e que havia até mesmo escrito uma resenha no antigo blogue (derrubado pelo Google), mas não tinha recuperado. Então, um dia depois, ele a encontrou. Cara, como fiquei satisfeito com isso, pois adorei escrever esta resenha tão quanto adorei ler o romance. Não o tenho impresso, pois li no Kobo. Na verdade, só tenho um livro impresso do Cormac McCarthy; todos os demais foram lidos pela via digital gratuita. Então aqui está a resenha deste romance magistral de um dos últimos grandes escritores que, até pouco tempo, ainda estava vido. Valeu, Ozy!

Beba. Esta noite pode acontecer de tua alma te ser reclamada. 

(Juiz Holden)

Um antigo imbróglio americano é o pretenso direito da "grande nação" Sioux sobre a ocupação plena, como suprema detentora de todos os inalienáveis direitos, de uma vasta propriedade há séculos ocupada e desenvolvida pelo suor e sangue de gerações de norte-americanos. Contudo, diante da aparente quebra de cláusulas do Segundo Tratado de Fort Laramie (não pesquisei a fundo o assunto), o remanescente indígena — se é que isso ainda existe realmente — foi indenizado pela Suprema Corte em algo que hoje corresponderia a cerca de 1 (um) bilhão de dólares. Eles rejeitaram a grana, pois querem a terra, vez que de bobos não têm nada. E esse problema se arrasta até hoje.

Contudo, muitas pessoas questionam: "Ora, os Sioux não viveram sempre ali, naquela região. Há registros de ocupações sucessivas por até três povos distintos antes da chegada dos litigantes. E quantas mais etnias não se sucederam no local, das quais nunca teremos registros? Por que essa 'grande nação' seria detentora de direitos sobre a região, a ponto de não transigir numa ação bilionária contra o Governo dos EUA, batendo o pé de forma inexorável?". As respostas para essas indagações nunca virão, pois a "tomada" de terras de índios bons por brancos maus faz parte da cultuada "vergonha americana", dentro dos círculos midiáticos e universitários progressistas.

Fato curioso é que a criação de reservas indígenas, a quebra de acordos de demarcação de terras, as vendas fraudulentas de propriedades e as remoções "voluntárias" e forçadas de contingentes indígenas são políticas do Partido Democrata americano, sob os auspícios do grande senhor de escravos, advogado e político Andrew Jackson, sétimo presidente dos Estados Unidos. E, hoje, os descendentes desses indígenas dão suporte ao Partido... Democrata. Isso ajuda a compreendermos o nível de entropia e insanidade em que este planeta se encontra.

Por que escrevi os parágrafos acima? Apenas para esclarecer que não apenas a história americana, mas também a história humana é uma narrativa de conquistas sucessivas. Não podemos "devolver" a Amazônia aos índios, assim como as terras de Black Hills, onde se encontra o célebre Mount Rushmore, com as efígies dos founding fathers, não podem ser dadas, embrulhadas de presente, aos Sioux, que, por sua vez, se instalaram no local às custas do derramamento de sangue de nações indígenas anteriores.

No curso da História, até os dias de hoje, quando ao menos tentamos coabitar sob um verniz de civilidade, não houve bandidos ou mocinhos. Tudo fez parte da evolução natural dos povos na ocupação das regiões mais recônditas do planeta, de acordo com as possibilidades tecnológicas disponíveis em cada época.

Cormac McCarthy não se expressa dessa maneira em sua opus magnum, Meridiano de Sangue. Contudo, penso que isso tem tudo a ver com os dramas de sangue ali brilhantemente narrados. Na evolução natural das espécies, todos buscam um lugar ao sol e a perpetuação. Outros foram apenas infelizes errantes que, soltos à própria sorte em territórios inóspitos, apostaram a vida para fundar o que hoje se tornou a nação mais próspera da história. É sobre esses infelizes que trata o romance aqui abordado.

Cormac McCarthy me ajudou a burilar certa visão de mundo com a qual me debatia há alguns anos. Ainda penso que essa produção de riquezas proporcionada pelo regime de mercado, no apogeu do capitalismo, ruirá em breve. Estes últimos séculos foram apenas um desvio no curso natural das coisas, e não necessariamente estamos em evolução constante para melhor.

Creio que o futuro não será muito diferente do que vemos em Mad Max e, dependendo da natureza, talvez seja tão aterrador quanto o descrito no romance A Estrada, também de McCarthy. Nunca comunguei com parasitas sonhadores como Rousseau, para quem o homem seria "essencialmente bom". Nascemos contaminados pelo pecado original e, naturalmente, em estado de competição feroz, abandonamos essa casca de empatia que nos foi dada pela cômoda vida proporcionada pelo capitalismo, na qual, hoje, qualquer moleque de classe média baixa tem uma vida mais confortável do que um antigo rei — pequenos luxos como energia elétrica, internet, água encanada, transporte público, aspirina e preservativos.

O que um monarca antigo não daria em troca de penicilina, por exemplo? O humano em estado natural, ao léu, nunca foi tão bem representado quanto n'O Senhor das Moscas, de William Golding. Para chegarmos à existência revelada n'A Estrada, precisamos apenas de um ano sem supermercados e sem energia elétrica. Em dois anos, talvez o remanescente humano seja menor do que o dos ursos-pandas.

Mesmo gostando tanto de Cormac McCarthy, como falei, resenhei aqui, até hoje, apenas um romance seu: Onde os Velhos Não Têm Vez. Pretendo corrigir esta omissão. Começarei a tratar disso com esta postagem.

O mote por trás da trama é aparentemente simples: um garoto conhecido apenas como "kid" sai de casa em busca de ganhar a vida pelo oeste americano, na metade do século XIX. Alia-se a dois bandos, um deles comandado por John Joel Glanton. Na trilha pela sobrevivência, por mulheres, uísque e fortuna, caçam escalpos para, em determinados territórios, recolherem as recompensas oferecidas.

É nesse bando que ele conhece o Juiz Holden, figura instigante e amedrontadora, que fascina pelo seu conhecimento e nos gela a alma por sua crueldade. O grupo é bem representativo e evidencia que, na busca por mucha plata, não havia mocinhos. Assim, o "kid" convive com mexicanos, "negroides" e etnias nativas num mesmo miniexército sanguinário. Os inimigos são os de fora do bando.

Como bem pregado pelo Juiz: "O que une os homens, disse, não é a partilha do pão, mas a partilha dos inimigos".

O romance é denso. O estilo do escritor já foi mencionado por mim neste blogue. Por não separar bem os diálogos dentro da narrativa, você pode facilmente se perder se não estiver atento à leitura. Logo, nossa visão de "velho oeste", disputado por esbeltos cavaleiros com roupas de couro e grandes chapéus, é substituída pela visão aterradora de maltrapilhos imundos, chafurdando num lodaçal de sangue, vísceras e misérias de toda ordem.

O mais próximo que podemos rotular de protagonista é o "kid". Contudo, foi o Juiz Holden a personagem mais marcante da trama, encoberto de aspectos quase sobrenaturais. Não sabemos ao certo sua origem. Na verdade, não sabemos bem nem se é humano.

Seu primeiro contato com o bando sanguinário, do qual o "kid" faz parte, é esquisito: está bem vestido, sentado no meio do nada sobre seus pertences, como se fosse a sina do grupo topar com ele. Um homem pragmático, que sabe se virar bem na vida árida e selvagem, sem dó de ninguém. É capaz de extrair pólvora das rochas, identificando cada elemento; escalpela um mexicano com esmero e sabe carnear mulas com a mesma desenvoltura com que fala alemão, espanhol, francês e línguas mortas.

Às vezes, percebo que Randall Flagg, de Stephen King (confira mais aqui), tomou elementos sobrenaturais emprestados do juiz de McCarthy. Lembrando que King é um entusiasmado fã de seu conterrâneo, em Meridiano de Sangue topamos brevemente com um estranho personagem chamado pelos colegas de Randall.

Noutros momentos, Holden me lembra antigos filósofos gregos em sua ânsia pela catalogação do conhecimento e das coisas. Aristóteles pedia a seu aluno Alexandre Magno, por exemplo, que recolhesse, em suas conquistas, materiais de culturas distantes e os trouxesse para serem estudados.

O juiz anda sempre com seu livro, anotando tudo o que encontra nas andanças, desenhando objetos e inscrições em rochas, pesando, cheirando e extraindo dados. Acerca disso, ele esclarece em dado momento:

"Só a natureza pode escravizar o homem e só quando a existência da última entidade tiver sido desencavada e exposta diante dele é que ele se tornará, do modo apropriado, suserano da terra."

Penso que esta passagem, por si só, é mais do que emblemática.

Muitos leitores destacam Holden como um dos personagens mais assustadores da literatura. De fato, por sua grande cultura e atitudes pontuais narradas no decorrer da obra, poderia ser. No entanto, percebi-o como um homem, na verdade, apaixonado pela vida e pelas coisas do mundo, querendo compreendê-las e, assim, dominá-las.

Se ele abate um cavalo com pedradas no crânio e o destrincha sem dó algum, é porque tem fome e está no deserto. Ele escalpela porque essa é a regra e, uma vez em Roma, faça como os romanos. Penso que Glanton, sim, é merecedor do título de "mais assustador". Este líder do bando, pois, é indiferente à vida em todos os seus aspectos, até mesmo no momento de sua própria morte. Trata-se de um ser humano essencialmente cruel, em estado puro. A personagem ficcional foi inspirada na histórica — ex-Texas Ranger que se tornou mercenário e caçador de escalpos. A passagem abaixo talvez ilustre bem a natureza desse homem de armas.

(...) os cães feridos uivaram e se arrastaram em torno até Glanton sair pessoalmente para matá-los com sua faca, uma cena fantasmagórica à luz oscilante, os cães feridos em silêncio, exceto pelo entrechocar de seus dentes, arrastando-se no chão como focas ou outras criaturas e encolhendo-se junto às paredes enquanto Glanton caminhava de um em um e abria seus crânios com a imensa faca guarnecida de cobre que levava no cinto.

John Joel Glanton é o oeste americano, onde a morte quase nunca é uma simples passagem. A rigor, a morte é cruel, seja pelas condições áridas de vida, seja pelos meios infligidos pelas mãos dos homens. Num ambiente onde a vida é dura, a morte precisa superar-se. Sejam brancos, negros, índios ou mexicanos, todos os que se aventuram nas planícies ermas trazem o mal no coração, e o destino do inimigo deve ser exemplar:

Encontraram os batedores desaparecidos pendurados de cabeça para baixo pelas pernas nos galhos de uma paloverde enegrecida pelo fogo. Tinham os tendões dos calcanhares perfurados por agulhas afiadas de madeira verde e pendiam cinzentos e nus sobre as cinzas dos carvões extintos, onde haviam sido assados até as cabeças ficarem carbonizadas, os miolos ferverem por dentro do crânio e o vapor sair assobiando por suas narinas. Suas línguas haviam sido puxadas para fora e trespassadas com paus afiados e esticadas, e tiveram as orelhas arrancadas, e seus torsos foram abertos com sílex até as entranhas ficarem penduradas em seus peitos.

Um dos hábitos de chacina mais comuns entre os nativos, entretanto, era a execução de bebês. No bando de Glanton, por exemplo, apenas os integrantes delawares costumavam executar de maneira cruel os bebês de povoamentos invadidos.

(...) um dos delawares emergiu da fumaça segurando um bebê nu em cada mão e se agachou junto a um círculo de pedras com os restos de comida. Balançou-os pelos calcanhares, um de cada vez, e esmagou suas cabeças contra as paredes, de modo que os miolos espirraram pela fontanela em um vômito sanguinolento (...).

(...)

O caminho foi se estreitando entre rochedos e, após algum tempo, chegaram a um arbusto de cujos ramos pendiam bebês mortos. Pararam lado a lado, hesitantes sob o calor. Aquelas pequenas vítimas, sete ou oito delas, haviam sido perfuradas no maxilar inferior e estavam, desse modo, penduradas pelas gargantas nos galhos partidos de um pé de prosópis, para fitar cegamente o céu nu.

(...)

Passando por uma área coberta de ossos, onde soldados mexicanos haviam massacrado um acampamento apache alguns anos antes — mulheres e seus filhos, os ossos e crânios espalhados pelo terraço por mais de meio quilômetro, e os membros minúsculos e crânios de papel, desdentados, de bebês, como a ossatura de pequenos macacos no local do morticínio —, encontraram velhos restos de cestaria exposta à intempérie e os potes quebrados no cascalho.

Durante toda a leitura, você se dá conta de como tem uma vida molenga e, mesmo assim, às vezes reclama de barriga cheia. Colonos, índios e mexicanos movem-se por dias sem água suficiente, comendo apenas tiras de carne seca e dormindo no frio à noite, enquanto enfrentam temperaturas elevadas pela manhã. Acendem seus cachimbos com brasas de fogueira — isso quando conseguem fumo — e se deleitam quando topam com uísque: "A primeira coisa pela qual perguntaram foi uísque e a segunda, tabaco".

Mulheres e crianças são naturalmente mais indefesas e não raro as primeiras que sucumbem nas travessias em caravanas e nas invasões dos pequenos povoamentos. Enquanto, hoje, você chega do trabalho cansado do trânsito e resmunga com a janta, que demora cinco minutos para ficar pronta no micro-ondas, no ar-condicionado, assistindo à Netflix, os empreendedores da expansão humana rumo ao oeste americano encontravam esta sorte:

Cinco carroções fumegavam no solo do deserto, e os cavaleiros desmontaram e caminharam em silêncio entre os corpos dos argonautas, aqueles probos peregrinos sem nome entre as pedras, com seus terríveis ferimentos, as vísceras esparramando-se por seus flancos e os troncos nus crivados de flechas. Alguns, pela barba, eram homens e, contudo, ostentavam entre as pernas estranhas chagas menstruais, e não as partes masculinas, pois estas haviam sido amputadas e pendiam escuras e estranhas de suas bocas sorridentes.

Ratifico o que mencionei mais acima sobre o vidão que possuímos hoje, proporcionado pelo regime de mercado e pela busca do pleno emprego, pela iniciativa privada que produz e distribui mais riquezas do que tivemos em milhares de anos de civilizações.

Contudo, isso parece ser passageiro. Acredito que uma vida constantemente próspera e a produção de bens e serviços para consumo por cada vez mais gente encontrem, em breve, uma regressão ou um colapso total. De alguma forma, a possível hecatombe dessa pujante melhoria da vida global não se coaduna com a natureza humana, autofágica. E, no admirável mundo que desponta, os fracos não terão vez.

Ler Cormac McCarthy me ajuda a compreender melhor tudo isso.

A edição eletrônica que li no Kobo foi da Alfaguara, selo da Objetiva para a chamada "alta" literatura. São 350 páginas, com tradução de Cássio de Arantes Leite, no padrão de publicações típico do selo: brochura resistente, com orelhas. O papel tem uma gramatura boa e não permite que vejamos as letras através das páginas; além disso, é daquele mais amarelado, que não cansa a visão — tipo pólen soft. Também pela Alfaguara já recomendei, aqui, O Mestre e Margarida.

Fico por aqui.

Abraços sangrentos e até a próxima.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Sexo, morte e tecnologia em Vestida para Matar e Um Tiro na Noite


"Quenga, você é quenga!"
Perpétua Esteves Batista

Nancy Allen participou de quatro filmes dirigidos por Brian De Palma: Carrie, a Estranha, de 1976; Home Movies, de 1980; Vestida para Matar, também de 1980; e Um Tiro na Noite, de 1981. Os dois foram casados entre 1979 e 1984 e, nesse período, Nancy se tornou uma das figuras femininas mais características dos filmes do marido. Para quem a conhece principalmente como Anne Lewis, a policial de RoboCop, revê-la nesses filmes é reencontrar uma atriz utilizada de maneira diferente: putiane e inserida em histórias nas quais sacanagem, voyeurismo, violência e perversão em geral são elementos das tramas.

Revi nestes dias dois desses filmes: Um Tiro na Noite e Vestida para Matar. Os dois são excelentes exemplos de um tipo de cinema que hoje desapareceu. Vão além do mero suspense. Há assassinatos, investigação e paranoia, mas existe também uma obsessão permanente por sexo, adultério, prostituição, voyeurismo, doenças venéreas, identidade sexual e violência. E tudo isso é apresentado por De Palma com sua marca, mistura de sofisticação técnica e apelo ao exagero, mau gosto e tentativa de escandalizar - ao menos para a época.

Um Tiro na Noite talvez seja o melhor exemplo da maneira como De Palma transformava tecnologia em instrumento narrativo. John Travolta interpreta Jack Terry, técnico de som que registra por acaso o áudio de um acidente automobilístico. O problema é que o ocupante do carro era um político importante e, ao ouvir obsessivamente a gravação, Jack percebe que aquele acidente foi morte matada e não morte morrida. Houve um tiro ou um pneu estourando? O que parecia uma simples fatalidade era, na verdade, um assassinato. E o mais interessante é a maneira como ele chega a essa conclusão. Não há computador fazendo todo o trabalho, inteligência artificial ou qualquer recurso digital capaz de produzir respostas. Jack precisa voltar ao material que gravou, examinar fotografias, ampliar imagens, editar o som e sincronizar mídias até conseguir reconstruir aquilo que aconteceu. É uma investigação quase artesanal, na qual a tecnologia rudimentar se transforma em uma espécie de microscópio capaz de revelar um crime escondido dentro de uma sequência aparentemente banal. A sequência desse esforço é um grande momento, penso, do cinema.

Em Vestida para Matar existe o mesmo fascínio por geringonças. Keith Gordon interpreta um garoto com verdadeira obsessão por equipamentos eletrônicos e fotografia, que utiliza sua engenhosidade para instalar dispositivos de observação e acompanhar os movimentos das pessoas relacionadas ao crime. O procedimento é simples aos olhos de hoje, mas justamente por isso é tão interessante. Ele precisa calcular tempos, registrar imagens, acompanhar deslocamentos e transformar fotografias e filmagens em pistas. A investigação nasce da capacidade de observar e colocar os neurônios para funcionar, coisa que está em extinção hoje em dia.

Há um conexão entre os dois filmes. Em Um Tiro na Noite, o som é a testemunha do assassinato. Em Vestida para Matar, é a câmera que ajuda. Nos dois casos, a verdade está registrada em algum lugar, escondida dentro de um material aparentemente banal, e precisa ser descoberta por alguém obsessivo o suficiente para examiná-lo.

Outro grande elementos em ambos os filmes é a perversão. Toda a violência tem a ver com a buscar por trepadinhas, de alguma forma. De Palma tem obsessão pelo desejo sexual como força capaz de conduzir os personagens à própria desgraça. Em Vestida para Matar isso é levado ao extremo. Angie Dickinson interpreta Kate Miller, uma MILF eternamente no cio, entediada com o casamento e completamente insatisfeita com a vida que leva. No consultório do psiquiatra, fala sobre sexo, provoca o médico e deixa claro que sua vida doméstica já não lhe basta. Depois, entrega-se a uma aventura com um desconhecido. Não existe sutileza. Kate é uma mulher sem vergonha, adúltera e sexualmente viçosa, dando a xota até dentro de um táxi em movimento, enquanto o motorista observa tudo pelo retrovisor. Procura uma aventura porque vive com piriquita da terceira idade pegando fogo. No início do filme, enquanto dá para o marido (que a assumiu enquanto mão solteira) delira com fantasias de estupro. O que segue nas cenas seguintes é uma descida progressiva à degradação. Depois de transar com o desconhecido, Kate descobre, remexendo em uma gaveta no apartamento do comedor, que ele está contaminado por doenças venéreas (quais, não sabemos). A situação já seria suficientemente degradante, mas piora. Ela percebe que deixou a aliança de casamento no apartamento e volta para buscá-la. É quando entra no elevador e é assassinada.

Esta sequência do assassinato é perversa justamente porque existe uma espécie de punição construída em torno do comportamento da personagem. Kate sai em busca de sexo, encontra um homem desconhecido, descobre que foi exposta a doenças venéreas e, quando tenta recuperar a aliança que simboliza o marido corno, é morta dentro do elevador por golpes de navalha. A pulada de cerca termina em sangue. E é nesse ponto que Nancy Allen aparece. Liz Blake (Nancy) é uma prostituta de luxo, carinha de anjo e expert no job, habituada a circular entre homens com dinheiro que lhe pagam até quinhentos dólares por uma foda. Ela presencia o assassinato e passa a ter sua própria vida em risco.

A escolha de De Palma é interessante porque a testemunha é justamente uma puta "de luxo". Liz é uma mulher que vive do job e, por isso mesmo, é tratada com desprezo. Sua profissão faz com que as autoridades desconfiem dela, como se uma prostituta fosse automaticamente mentirosa, vulgar ou moralmente inferior (o que, claro, procede!). No entanto, é justamente essa mulher que viu o assassinato e possui a informação necessária para chegar ao assassino - um homem aparentemente "respeitável". E a assassinada é a verdadeira rameira da história, tendo chegado à maturidade com um fogo implacável no rabo.

A personagem de Angie Dickinson chama atenção exatamente porque é construída como uma mulher que se entrega a qualquer custo ao desejo. Kate é uma quenga encubada - dona de casa que está entediada porque não precisa lavar louça suja nem cueca freada, procurando desculpas para trair o marido e se colocando em situações de risco. Depois de provocar o psiquiatra, sai do consultório e acaba encontrando um desconhecido para traçá-la. Logo depois descobre que contraiu doenças venéreas. E, ao retornar ao apartamento para recuperar a aliança, encontra a própria morte. Castigada, enfim, pela ânsia sem fim por rolas. Kate é simplesmente uma vadia endinheirada entediada, querendo romper a monotonia da própria vida por meio do sexo selvagem. E De Palma não parece interessado em absolvê-la.

Vestida para Matar vai para um terreno ainda mais interessante ao colocar no centro da trama a questão da "identidade sexual" e da cirurgia de redesignação de gênero, algo que estava muito longe de possuir a presença pública que ganhou hoje, no mundo do "elu-dilu-bilu-furico". Michael Caine interpreta o psiquiatra Robert Elliott, cuja identidade está diretamente ligada ao crime e a um conflito entre sua identidade masculina e a personalidade Bobbi (seu lado travesti). Ele quer virar mocinha, mas não consegue. Acho que isso nem chega a ser spoiler, pois ficar claro desde o início que ele é o traveco indeciso que teima em não sair do armário. O filme associa a identidade sexual, a transexualidade e a cirurgia de redesignação à psicose, violência e assassinato. E, enquanto adultos estão mergulhados em sangue e sacanagem, é um moleque fascinado por tecnologia que consegue decifrar, em parte, o crime que ceifou a vida de sua mamãe vadia. O adolescente utiliza engenhosidade e observação para tentar desvendar tudo. Isso aproxima ainda mais Vestida para Matar de Um Tiro na Noite. Em ambos os filmes, a tecnologia serve para penetrar a privacidade. Hoje em dia, com câmeras em tudo quanto é buraco (até no mato, como já vi diversas vezes), isso seria bobagem.

Acho que voyeurismo é o principal aspecto nesses filmes, enfim, numa época de tecnologias de áudio e vídeo ainda embrionárias. E, claro, a tara do escritor/diretor em colocar sua própria esposa em papéis de prostitutas, meio como um homem cuckoldNancy Allen está no centro dos dois filmes e é impossível ignorar sua importância na filmografia de De Palma. Antes de se tornar a policial Anne Lewis do RoboCop que tanto amo, ela foi Chris Hargensen em Carrie, a Estranha, Liz Blake em Vestida para Matar e Sally em Um Tiro na Noite. São quatro trabalhos com De Palma em apenas alguns anos, justamente numa fase em que o diretor consolidava esse cinema marcado por raparigas civis ou profissionais, homens obsessivos e tarados, voyeurismo, violência e paranoia, tudo junto e misturado como num grande gang bang.

É isso. Dica de dois filmes do idoso Brian De Palma com sua ex esposa sempre no papel de garota do job. Abraços cinematográficos e até a próxima.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O mundo está uma porcaria

O Marreta postou em seu blogue mais um de seus belos poemas bukowskianos, intitulado Um Nascer do Sol em 4 K. Deixei lá um comentário informado que tinha acabado de descer duas doses de Buchanan's Deluxe 12 Anos e ele me respondeu: "Pela hora do seu comentário, devia ser perto das duas da matina. Quinta-feira... Madrugada... whisky do bom, do ótimo... Isso sim é vida. Saúde, meu caro.". Concordo com ele que isso sim é vida, mas faço um aparte: isso também é uma forma de viver, dentre tantas outras. Há quem não beba nem fume e tanto faz. Mas encontra seus pequenos prazeres em diversas outras atividades ou até em ficar à toa coçando o saco enquanto observa a madrugada pela varanda, com seus pensamentos. O importante é que cada um viva à sua maneira, com os seus demônios sendo mantidos sob controle, trancafiados.

Isso dos demônios, aliás, me recordou o romance Doutor Sono de Stephen King. Já falei sobre ele aqui no blogue. Na obra, Daniel Torrance mantem todas as entidades malignas do extinto Overlook Hotel em gavetas mentais, aprisionadas. Isso recorda o que o Rei Salomão fazia com os "caídos" por ele conjurados e, depois, mantidos sob o controle de nomes, signos, sigilos e jarros de barro. O ideal é ter fé no Nosso Senhor Jesus Cristo e não precisar se preocupar com os tinhosos, claro. Mas isso não é possível para todos. Aliás, Santo Agostinho citou algo a respeito: não podemos impedir que as más ideias (entidades) sobrevoem nossas cabeças, mas podemos impedi-las que ali façam seus ninhos. E, como diz o ditado popular: onde fez ninho, deixou ovos e fezes. Então é isso: manter os pensamentos ruins domados.

Enfim: achei interessante a postagem do Marreta e isso me fez pensar sobre mil coisa que não valem a pena expor aqui e não haveria nem tempo para tal afã. 

O uísque mencionado e mostrado no vídeo acima me foi dado de presente de dia dos pais, junto com uma camiseta para minhas corridas noturnas (e para o dia a dia, já que uso bastante camiseta regata no cotidiano, exibindo minhas belas tatuagens e meus músculos invejáveis). Gosto de bebê-lo puro ou no café. Aliás, café com uísque e mel de abelha é uma delícia - recomendo. No vídeo acima, adicionei a música Samba de Ana, feita pelo Fabiano com uso de IA sobre poema homônimo publicado em meu livro Invenção Nortuna.

Durante as madrugadas pensando na vida que poderia ter sido e que não foi e em como a vida realmente se tornou uma bosta, penso que até mesmo um nascer de sol na TV de tubo de minha infância e adolescência seria melhor do que o que possuímos hoje. O mundo está uma porcaria. A internet banda larga e redes sociais nos trouxeram uma existência medíocre e inúmeros problemas que ela (internet) tenta nos ajudar a solucionar; mas, sem tanta tecnologia, não teríamos os problemas que ela mesma "nos ajuda" a resolver. Está tudo acelerado e não podemos mais sobreviver sem telefonia móvel e aplicativos e senhas a perde de vista. E não adianta desligar o telefone, pois, ao ligarmos, os problemas serão atualizados para nós tão logo conectados à internet.

Falando em internet, era algo que parecia legal no início, aos meus 15 anos idade com meu computador AMD K6-2 500 MHz e conexão discada num modem 56 kbps. Tínhamos o Kazaa e o eMule para baixar músicas, ouvidas quase sempre no Winamp, enquanto usávamos ICQ, IRC e MSN para conversar com pessoas que conhecíamos pelo Orkut. Mas só foi bom até aí mesmo.

É isso. O poema do Marreta me levou longe. Vou ficando por aqui antes que vá longe demais. Abraços etílicos e até a próxima.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Meu canal no YouTube


Esta é a terra de ninguém
E sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos

Eu sou metal
Raio, relâmpago e trovão

Achei interessante colocar os versos de Legião Urbana em epígrafe a esta postagem por duas razões: a) porque gosto da banda e b) porque isso tem a ver com minha insistência em manter um blogue há mais de uma década e meia. Na verdade, dois blogues, pois este é o segundo, uma vez que o primeiro foi removido pelo Google justamente no auge da blogosfera por “descumprimento das diretrizes da comunidade”, sem que nunca tenha informado quais foram. Criei tudo novamente a partir de um backup, aproveitando para manter apenas o que queria e deixando muita coisa supérflua de lado. Na época, estava nesse ímpeto de ser “metal, raio, relâmpago e trovão”. Hoje em dia, tô meio borracha fraca. Se este blogue cair novamente (e meu canal também), não tentarei mais. Sairei da vida bloguerística, pois estou velho demais para ficar lutando contra robôs de big techs.

Mas vamos lá... Há sete anos, o Vlog do Neófito nasceu como apêndice deste blogue. A ideia, inicialmente, era modesta: utilizar o YouTube como ferramenta de suporte, sobretudo para inserir vídeos nas postagens. Em vez de encher uma matéria com fotografias, bastava subir o vídeo e deixá-lo ali, incorporado ao texto. Durante um bom tempo, foi exatamente isso: o blogue era a casa; o YouTube, mero depósito.

Aconteceu, porém, uma inversão. Quando passei a produzir vídeos próprios para acompanhar e divulgar matérias publicadas no blogue, o canal começou a devolver o favor. O que deveria apenas servir de suporte passou a levar gente para cá. E, pouco a pouco, deixou de ser mero suporte. Hoje, o canal no YouTube é minha principal plataforma para produção de conteúdo fecal (para alguns) ou legal (para outros).

É isso. O canal ganhou independência, passou a receber conteúdo produzido especificamente para ele e acabou se transformando na principal plataforma de compartilhamento. O blogue continua existindo — e continua sendo importante —, mas já não ocupa sozinho o centro da produção. A antiga ferramenta auxiliar ganhou vida própria e, agora, suporta sobre suas costas o blogue que lhe deu origem.

Os números ajudam a contar essa pequena história. Em sete anos, o canal chegou a 551.093 visualizações, acumulou 38,4 mil horas de exibição e ultrapassou 5 mil inscritos, chegando a 5.034 no momento desta análise. A receita estimada acumulada aparece em US$ 369,74. E há um dado especialmente interessante: nas últimas 48 horas, o canal registrava 1.653 visualizações. Sim, estou sendo bastante transparente sobre tais estatísticas para quem pretende se aventurar no YouTube. Os ganhos são mesmo pífios para quem é uma gota d’água naquele oceano de exabytes de vídeos e músicas. Dizem que já houve um tempo em que era fácil embolsar dinheiro com o Google AdSense; mas isso já era. Quem não for gigante e não mantiver parcerias com marcas patrocinadoras dificilmente verá bufunfa regularmente na plataforma. Mas, como costumo dizer, já que gosto de groselhar, ao menos monetizar alguns trocados é ainda melhor, mesmo que seja apenas o dinheiro do cafezinho espresso que tanto adoro. Pior do que isso é ficar alimentando plataformas como Facebook e Instagram em troca tão somente de mera exposição.

E mais dados: nos últimos 28 dias, 47,9% das visualizações vieram dos recursos de navegação do próprio YouTube, 16,9% da pesquisa e 14,4% dos vídeos sugeridos. Ou seja: aquilo que começou como um mero instrumento para o blogue passou a encontrar público por conta própria, dentro da própria plataforma.

Repaginando. Foi uma “inversão” curiosa. O blogue ajudou a criar o canal. O canal, depois, passou a ajudar o blogue. E agora o canal chegou ao ponto de caminhar com as próprias pernas, levando o site pelas mãos. Ou melhor: arrastando-o, uma vez que blogues são, convenhamos, espaços mortos, embora zumbificados. Falei melhor sobre isso na postagem “Necrófilos”, de forma que não quero me repetir.

Nada disso foi planejado do ponto de vista "estratégico", por assim dizer, considerando que a plataforma Blogger morreu e eu precisava de um novo espaço, com maior alcance. Foi apenas acontecendo. Um vídeo aqui, outro ali, uma matéria transformada em vídeo, um assunto que parecia render alguma conversa... e, quando percebi, havia um canal com mais de meio milhão de visualizações.

O que era ferramenta acabou virando plataforma. E, convenhamos, para algo que começou como simples suporte a um blogue, até que não deu tão errado. E tem trazido bons momentos, no geral.

É isso. Fico por aqui. Abraços vlogueiros e até a próxima.




domingo, 2 de agosto de 2026

John Charles Fiddy, Chaves e Chapolin

Não contavam com a astúcia de J. C. Fiddy

Chaves e Chapolin ocupam um lugar especial na minha formação. Foram seriados que, além de divertirem, ajudaram a construir uma memória afetiva que permanece viva até hoje. Ainda hoje, de vez em quando, paro para rever um episódio aleatório no YoutTube, porque há ali algo que atravessa o tempo: humor simples, personagens marcantes e uma atmosfera que continua funcionando com a mesma força de antigamente.

Mas há uma parte dessa experiência que, durante muito tempo, passou quase despercebida: as trilhas sonoras. Elas eram fundamentais para dar ritmo, emoção e identidade às cenas. Chamo trilha sonora de "paisagem sonora", pois é um elemento essencial - acredito - na edificação da obra e nos ajudar a encontrar ressonância emocional. Era justamente a música que ajudava a ampliar o impacto do que estava acontecendo em cena, seja no suspense, na comédia, na melancolia ou na correria dos personagens. Sem aquelas trilhas, Chaves e Chapolin talvez não tivessem a mesma força; não com a mesma intensidade.

Só que essa descoberta veio bem mais tarde: boa parte dessa trilha que parecia feita sob medida para os episódios, na verdade, vinha de catálogos musicais. Um desses catálogos reunia composições de John Charles Fiddy, compositor britânico que trabalhou justamente nessa lógica da produção musical para uso em programas de televisão, filmes, comerciais e documentários. Em vez de escrever pensando em um artista específico ou em uma obra fechada, Fiddy optou por dedicar boa parte da carreira à criação de músicas para "bibliotecas sonoras", sempre com a ideia de que aquelas peças poderiam ser usadas em diferentes contextos audiovisuais. É como, hoje, o pessoal que se dedica a produzir músicas para a biblioteca de áudio do YouTube: ele não sabe como seu trabalho será utilizado, está "preocupado" apenas em depositar composições num catálogo e embolsar sua bufunfa.

Enfim: as trilhas dos programas criados por Roberto Gómez Bolaños foram inseridas, para o público tupiniquim, pelo SBT, mediante o trabalho da MAGA - um dos mais importantes estúdios de dublagem do Brasil, responsável por versões brasileiras que se tornaram verdadeiros clássicos da televisão. E todo o trabalho de Fiddy era realizado sem pensar no seu destino - a não ser a formação de um "catálogo" para multiuso. E talvez esteja aí parte do encanto. Fiddy não compunha para que suas músicas fossem lembradas por um único título, mas acabaram sendo incorporadas a um dos maiores fenômenos da televisão popular no Brasil. Suas trilhas passaram a fazer parte da identidade emocional de Chaves e Chapolin, mesmo sem terem sido criadas originalmente para isso. No fim das contas, o que era música de catálogo virou memória afetiva coletiva.

As linhas de baixo sempre fortes, com bastante destaque em diversas composições que ouvimos nos seriados, já me chamavam atenção há algum tempo. Após descobrir mais sobre o compositor britânico, tomei conhecimento que, mesmo sendo multinstrumentista, mantinha uma predileção pelo baixo.

Por isso, vale a pena conhecer esse trabalho na íntegra. Ouvir esse álbum, ou esse conjunto de composições, é reencontrar boa parte de uma herança musical que marcou gerações. Em aproximadamente meia hora, está condensada uma parcela enorme da nossa memória afetiva: o suspense, a ternura, a brincadeira, a tristeza, a correria e o humor que tantas vezes associamos aos episódios do Chaves e do Chapolin. É uma dessas surpresas bonitas da cultura popular: descobrir que por trás de algo tão familiar havia um universo musical muito mais amplo, e que continua sendo extraordinário até hoje.

Curiosamente, Fiddy era a cara do ator Carlos Villagrán - o intérprete do Quico e comedor de Florinda Meza (a Dona Florinda) no início da década de 1970. O affair ocorreu antes de Florinda começar a se envolver com Roberto Gómez Bolaños (o Chaves), criador da série, com quem ela ficou até o fim da vida dele. Em resumo: a vida imita a arte - quem primeiro comeu o sanduíche de presunto foi o Quico; Chaves recolheu os farelos.

É isso. Vou ficando por aqui. Abraços biônicos e até a próxima.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Danny Elfman, identidades auditivas e paisagens sonoras


Na virada da década de '80 para '90, este hit moldou duas gerações,
especialmente graças à novela Top Model.

Há três meses sem atualizar este blogue, resolvi postar algo que tem a ver com sua essência: cinema, música, ícones modernos etc. Ou seja: cultura pop vulgar; embora vulgares sejamos nós, acreditando realmente que objetos culturais são criações sem propósitos e não têm o poder de moldar costumes e idiossincrasia - logo, o futuro da espécie humana. Ledo engano, claro. Até mesmo o que nasce de maneira aparentemente descompromissada pode adquirir, com o tempo, contornos mágicos que a própria coletividade passa a lhe impingir. Pense, por exemplo, em Os Simpsons. Estamos há trinta e seis anos ouvindo sua vinheta de abertura. Ela foi criada por Danny Elfman.

É emblemático, isso. Milhões de pessoas ao redor do planeta reconhecem instantaneamente aquela sequência de notas, mas quase ninguém sabe quem a compôs. Danny Elfman pertence a essa categoria de artistas cuja obra se tornou mais famosa do que seu próprio rosto. É um daqueles sujeitos que, mesmo permanecendo nos bastidores, ajudaram a construir a paisagem emocional de gerações inteiras. Ele seria uma "entidade" parecida com O Compositor (The Songwriter) do filme Under The Silver Lake (obra já resenhada por mim no canal): moldando a cultura a partir das sombras.

Quem cresceu entre os anos 1980 e 2000 foi acompanhado por ele sem perceber. Batman, Edward Mãos de Tesoura, Os Fantasmas se Divertem, O Estranho Mundo de Jack, Homens de Preto, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Homem-Aranha etc. A lista é extensa. Danny compôs para mais de 100 longas-metragens e dezenas de séries de televisão e especiais. Em cada uma dessas produções, ele fez algo que poucos compositores conseguem: criou "identidades auditivas". Certos filmes podem ser esquecidos em alguns de seus elementos. Mas a melodia ressoa forte em nossa mente.

A música de Elfman não busca apenas ilustrar as imagens das cabeças do roteirista e do diretor. Ela antecede a própria narrativa. Antes mesmo de um personagem falar, antes de uma cena revelar suas intenções, a trilha já indica ao espectador o tipo de mundo que está prestes a encontrar. Quase sempre há algo de infantil e sombrio, lúdico e perturbador, mágico e melancólico em suas composições. Uma combinação que se tornou praticamente inseparável do imaginário criado por Tim Burton.

Mas não devemos reduzir Danny Elfman à condição de "compositor de Tim Burton". Antes de Hollywood, ele já era uma figura idolatrada à frente da banda Oingo Boingo. Depois, transformou-se em um dos compositores mais influentes da indústria cinematográfica moderna. Sua assinatura passou a ser copiada, adaptada e reciclada por inúmeros profissionais que vieram depois dele.

Danny Elfman ajuda a demonstrar - recordando Under The Silver Lake - que as pessoas costumam acreditar que a cultura é mero entretenimento, uma distração inofensiva produzida para preencher horas vazias. Contudo, basta observar o poder duradouro de certas obras para perceber que elas fazem muito mais do que isso. Elas moldam a cultura, definem memórias afetivas e fornecem a trilha sonora das nossas vidas. Décadas depois, continuamos assobiando melodias compostas por desconhecidos. Talvez porque, em algum nível, elas tenham ajudado a compor quem sejamos hoje. Os próximos xamãs nesta empreitada, creio, serão inteligências artificiais...

Recentemente, gravei um vídeo sobre a trajetória de Elfman, revisitando algumas de suas composições mais marcantes e discutindo a influência que exerceu sobre a cultura pop contemporânea. Quem tiver interesse pode assistir aqui, a seguir.

É isso. Deu vontade falar do elfo das trilhas cinematográficas.

Abraços élficos e até a próxima.

terça-feira, 17 de março de 2026

Days Gone


Days Gone é um jogo de ação e sobrevivência em mundo aberto no qual jogamos com Deacon St. John, um motoqueiro que vive em um cenário pós-apocalíptico após uma pandemia transformar grande parte da população em criaturas chamadas freakers (frenéticos: humanos viçosos que vagam pelo mundo alucinados, movidos pelas necessidades básicas de comer, dormir e defecar em seus ninhos e cavernas). Enquanto enfrentamos hordas de infectados, grupos humanos hostis e a escassez de recursos, cruzamos estradas perigosas em nossa motoca em busca de sobrevivência e de respostas sobre o paradeiro de nossa loirinha gostosa, Sarah, guiados pela esperança de reencontrá-la e encontrar algum sentido em meio ao caos.

Quando comprei meu console PS4, veio de brinde a mídia física desse jogo. Não achei interessante a jogatina inicial e o coloquei de lado. Então, minha esposa jogou tudo, zerando-o em uma semana, e me afirmou que foi meio cansativo e chato em muitos momentos, mas que valia a pena para entreter. Resolvi, então, jogar e confesso que gostei. Havia, claro, o problema da audácia do mundo aberto. Explico: é, no mínimo, audacioso planejar um game em mundo aberto, pois como você irá preenchê-lo? Não é fácil preencher um mundo aberto para exploração sem coisas bacanas. Em Red Dead Redemption II, por exemplo, as cavalgadas valem a pena, pois você não apenas topará com eventuais sidequests tenebrosas, mas também com itens curiosos, pedaços de histórias e a evolução do mundo em si (por exemplo, uma casa sendo aos poucos edificada) etc.

Days Gone foi pobre quanto ao mundo aberto. No máximo, você topará com bandidos aleatórios, acampamentos de emboscada e algumas paisagens legais. Aliás, falando nestas, muitas foram inspiradas em locais reais, a exemplo da Crater Lake, localizada no Oregon. A Ilha Wizard, no jogo, é sua reprodução fiel, com ambientação apocalíptica, claro. Raramente, você encontrará algo interessante a ser analisado pela possível história oculta por trás daquilo tudo, como, por exemplo, quando topei com um acampamento cheio de corpos recém-chacinados, um cidadão à frente de uma mesa com ursinhos de pelúcia e, à frente, escrito: "Please forgive me".

Mas, enfim... Vi a notícia da remasterização do jogo para PS5 e, obviamente, não comprei. Não pagaria 50 janjas em uma safadeza da Sony. Mas a notícia me deu vontade de jogar novamente, desta vez no modo New Game Plus (com todas as melhorias anteriores mantidas, da primeira vez que joguei). E foi interessante, pois adquiri todas as habilidades possíveis, ganhei todos os troféus convencionais (embora não ligue tanto para isso, foi fácil no modo NG+) e, finalmente, deixei minha moto como queria: topíssima. Aproveitei e fiz as últimas melhorias no acampamento Diamond Lake, inclusive com o tanque de gasolina em homenagem ao jogo Death Stranding, com o bebê flutuando em seu interior. Com as melhorias, a moto dá saltos insanos e também pude, finalmente, fazer o “desafio” Burnout Apocalipse (usar nitro e derrapar ao mesmo tempo na moto por pelo menos cinco segundos).

Encarnar Deacon St. John foi, novamente, divertido. Dizimei todas as hordas do jogo, atendi a todos os pedidos de serviço extra dos donos de acampamentos e resgatei muitos NPCs em apuros. Também pude experimentar armamentos que só se liberam no modo NG+, a exemplo de um rifle com gás letal. No vídeo acima, gravei cinco minutos do final de tudo, em que apresentei a motoca nos trinques, habilidades e troféus e, findo tudo, fiz o que sempre costumo fazer quando jogo em mundos abertos: fui para casa, olhei em volta, despedi-me de tudo e me deitei. 

Boa noite, Deacon.

Abraços frenéticos e até a próxima.


Perdoá-lo de quê? Creio que executou toda a família e depois estourou os miolos.


Paisagem real no Oregon. Abaixo, o resultado encontrado no jogo.



terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Viajando de John Mellencamp a Michael Jackson


Próximo ao final do ano passado, escrevi uma postagem sobre música. No caso, recordei Annie Lennox e minha infância mágica com a TV aberta. Há alguns dias, precisei viajar para cuidar de assuntos de saúde. No caso, minha esposa está com problemas recorrentes no útero que, se não tratados regularmente, podem evoluir para câncer. Enfim: fatos da vida. Levei-a a uma cidade com bom apoio a cuidados médicos e duas ginecologistas, pela segunda vez, removeram as lesões pré-cancerosas. Aparentemente, não há motivos para muita preocupação, pois parece ser algo comum em mulheres, e a medicina anda avançando no acompanhamento e no tratamento dessas ocorrências.

Mas vamos falar de música. No retorno, deixei rolando uma playlist que havia deixado no offline do YouTube Music. Então começou o riff composto pelo próprio John Mellencamp para Hurt So Good. E, meus caros, não há como negar que, ao menos para ouvidos leigos como os nossos, ele parece bastante com a guitarra de Bill Bottrell para a magnífica Black or White, de Michael Jackson. De acordo com Bill Bottrell, a melodia do riff lhe foi repassada pelo próprio Michael, por meio de sons vocais. Ele apenas a adaptou para a guitarra. Plágio? Não sei. Perguntei ao ChatGPT se seria cópia, e a resposta foi a seguinte:

Não há consenso, nem decisão oficial, de que o riff de Bill Bottrell em Black or White seja plágio de John Mellencamp ou de Hurt So Good. O que existe é uma semelhança perceptível, especialmente no uso de acordes abertos, ritmo marcado e pegada rock direta — algo muito comum no rock e no pop rock dos anos 1980 e início dos 1990. Esses elementos fazem parte de um “vocabulário” musical bastante explorado na época. Para leigos, é como comparar frases feitas: soam parecidas porque usam estruturas conhecidas, não porque uma foi copiada da outra. Até hoje, não houve ação judicial, reconhecimento público de plágio ou atribuição indevida aceita pela indústria. O mais seguro é dizer que o riff de Black or White foi influenciado pelo rock americano, do qual Mellencamp é um expoente, mas influência não é sinônimo de plágio.

O que eu, como leigo, acho? Acho que tudo, há um bom tempo, é cópia de cópias, mesmo que de forma inconsciente. Parece que tudo o que poderia ser explorado nos diversos campos culturais já o foi. O que muda, agora, é a forma como você contextualiza tudo. Isso me recorda o que falei em A Mensagem Final, em David Boring, há cinco anos. Em um ponto da história, David (o protagonista) diz a seu tio-avô, August Brown, ser produtor de filmes (uma mentira, de certa forma). O velho lhe responde: “Lembre-se do que dizem: todas as histórias já foram contadas. Então, se você precisar contar uma, conte direito!”. E o quadrinho de Clowes foi exatamente isso: a mesma história de sempre, contada “direito”, de uma forma apenas nova e melhor contextualizada para um dado tempo. Assim é na música, no cinema, nas séries, nos quadrinhos etc.

Voltei para casa, após ouvir John Mellencamp e sua guitarra, lembrando-me de como toda a discografia de Michael Jackson foi importante para mim. Tínhamos Thriller e Bad em vinil, quando guris. E, ainda adolescente, comprei o CD Dangerous, após passar bastante tempo juntando dinheiro. CD original era algo caríssimo! Guri, a melhor canção do álbum, para mim, era Black or White. Já adulto, passou a ser Who Is It (cujo clipe foi dirigido por David Fincher — sim, o mesmo de Clube da Luta, O Curioso Caso de Benjamin Button e A Rede Social). Fincher manteve bastante contato com o mundo da música, sempre com um estilo, em seus clipes, de noir moderno, com tons frios e iluminação dramática (exemplos que trago logo abaixo desta postagem, em clipes selecionados).

Assim que cheguei em casa, botei o CD para rodar — o mesmo comprado quando eu era adolescente. Logo, é um objeto que está comigo há quase três décadas (vídeo abaixo), tanto o encarte quanto o disco. E então é isso... Voltei de uma viagem e voltei no tempo. Inclusive, essa viagem no tempo demorou bastante, tanto que estou embarcado nela até agora, enquanto escrevo esta postagem. Lembro até mesmo que comprei o CD na antiga loja Comeg Center, situada na Avenida Rio Branco, após o almoço, quando retornava ao colégio para uma segunda bateria de aulas vespertinas (era assim três vezes por semana). Que avenida importante para mim, a propósito... pois também era nela que estavam as duas principais bancas de revistas onde eu comprava gibis!

Bem, é isso. Abraços plagiados e até a próxima.

Meu exemplar:

   
Hurt So Good:

   
Black or White:

   
Clipes mencionados dirigidos por David Fincher:

   

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Saudades das profecias de Olavo de Carvalho

O vídeo acima me apareceu como recomendação do YouTube e veio em boa hora, pois há poucos dias eu havia postado na mesma plataforma algumas ponderações sobre o destino do ex Presidente Bolsonaro, usado constantemente como boi de piranha diante de qualquer escândalo nacional. O INSS está sendo saqueado e descobriram que o irmão de Lula está no esquema? Foco no Bozo. O dono do banco Master se beneficia de uma boa assessoria jurídica com esposas de Ministros do Supremo Tribunal Federal? Foco no Bozo. A crise fiscal chegou a um ponto de inflexão? Foco no Bozo. A COP30 é internacionalmente reconhecida como uma palhaçada? Foco no capitão frouxo. A coisa é por aí. Deu para entender. Mas, em meu vídeo, não passo pano para o Frouxonauro, pois ele colhe o que semeou: aliou-se aos seu inimigos declarados, praticou estelionato eleitoral contra boa parte de seu eleitorado e se cercou de gente safada que vivia em constante busca de manter "boas relações com os inimigos".

Em 2019, ocorreu um conflito público entre Olavo de Carvalho e o general Eduardo Villas Bôas, então assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional. A disputa teve início após uma série de críticas de Olavo aos militares do governo, especialmente ao ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz e, posteriormente, ao próprio Villas Bôas, em declarações publicadas nas redes sociais. As manifestações geraram forte repercussão dentro do governo e entre apoiadores das duas figuras. O general-geleia atribuiu ao professor acusações como: a) ser um "Trótski de direita"; b) "total falta de princípios básicos de educação e respeito"; c) prestar "enorme desserviço ao país" e d) ter participado de "praticamente todas as crises" vividas pelo governo Bolsonaro até então. Em resumo: o generalíssimo nada refutou e nem havia como tentar fazê-lo. De acordo com o Governo Bolsonaro, o melhor caminho seria manter boas relações institucionais com seus opositores, com as pessoas que queriam decapitá-lo em praça pública.

Como era bom ter o professor Olavo de Carvalho falando o óbvio em redes sociais. Felizmente, partiu em paz e com uma boa idade (74 anos), ao lado de seus familiares e bem longe desta pocilga apelidada de Estado Democrático de Direito (sistema de Governo) e República Federativa (formas de Estado e de Governo).

A seguir, compartilho meu vídeo sobre o assunto.

Abraços olavetes e até a próxima.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A Chácara do Silêncio - um crime real

Na postagem anterior, falei sobre os clubes de correspondência e ali juntei uma página de O Recruta Zero, com algumas dessas cartinhas enviadas por leitores que queriam manter grupos e contatos à distância por meio de missivas. Bateu uma curiosidade e me perguntei: “Por onde andam essas pessoas hoje?”. Para encurtar a história: uma delas queria trocar fotos de animais e contava com então 16 anos de idade em 1989. Chamava-se Diana e residia no Distrito Federal. Depois, descobri que era brasileira naturalizada, tendo saído do Chile devido à incompatibilidade de sua família com o governo do nobre e saudoso Augusto Pinochet.

Enfrentou muitos problemas na infância, precisando cuidar do pai, acometido por Parkinson; e, depois, da mãe, levada à indignidade pela esclerose lateral amiotrófica. Mas cresceu e tornou-se médica veterinária — gostava de animais de grande porte, pelo que entendi. Não à toa queria trocar fotografias de animais com leitores de quadrinhos.

Mas vamos lá... O que houve? Ela foi encontrada em estado avançado de decomposição em sua chácara, no ano de 2020, numa história cheia de elementos pra lá de obscuros. Achei interessante ler tudo o que encontrei sobre ela e escrever algo a respeito. O texto foi crescendo e se tornou uma meio-crônica, meio novela true crime. Resolvi organizar melhor as partes e publiquei como eBook na Amazon. Estará lá gratuito para quem quiser lê-lo pelos próximos cinco dias.

É uma história de vida que me tomou pela alma durante dias, desde que comecei a vasculhar a trajetória daquela adolescente que só queria trocar fotos de bichos pelos Correios, cresceu cuidando de animais e, depois, teve a vida envolta em muitos mistérios, com um final trágico e ainda hoje inexplicável — o inquérito foi arquivado pois, embora houvesse indícios de homicídio (ou feminicídio, como se diz hoje), não havia como chegar mais a lugar algum

Quando pensei na capa, quis emular algo parecido com as artes que estampavam as revistas Calafrio e Mestres do Terror, bem como publicações de horror da Taika e La Selva, quase sempre realizadas em óleo. Eram publicações maravilhosas que povoaram minha infância (meu irmão as comprava) e com seções de cartas divertidas, especial na Calafrio, com as respostas sem floreios de Reinaldo de Oliveira. Consegui o resultado desejado via uma combinação de ChatGPT e Gemini. Também utilizei como base uma imagem da Diana real, já madura e perto do fim, a qual tivesse acesso.

Bem, é isso. Vou ficando por aqui. Abraços misteriosos e até a próxima.

Link para aquisição (gratuitamente entre os dias 26 e 30 do corrente mês): aqui.



sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Os clubes de correspondência


Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Manuel Bandeira

Como faço em alguns meses do ano (um loop ou repeteco sem fim), andei relendo quadrinhos de Recruta Zero, Os Trapalhões, Turma da Mônica (das fases Abril e Globo) e outros títulos infantis semelhantes. E algo sempre me chama atenção: a enorme quantidade de cartas enviadas à redação, muitas delas dedicadas à divulgação de clubes de correspondência. Na era pré-internet, quando o bairro — por maior que fosse — já não bastava para encontrar pessoas com interesses comuns, esses pequenos “grupelhos” surgiam como uma alternativa criativa. Não creio que fossem fruto de carência, como tantas interações nas redes sociais atuais o são; eram, antes, uma forma de preservar o encanto de enviar e receber cartas, além de ampliar horizontes de um jeito genuíno e humano. Aliás, eram as únicas maneiras que possuíamos: físicas, humanas e reais, vez que não havia a opção do meio digital para isso.

Esses grupos eram necessários, penso. Vejamos. Mesmo nos bairros mais populosos — que para nós, então crianças, pareciam verdadeiros mundos — era difícil encontrar quem compartilhasse paixões específicas - como filatelia, colecionismo de gibis raros, aeromodelismo e outras bobageiras fascinantes. Nas revistas Calafrio e Mestre do Terror, por exemplo, era comum ver leitores escrevendo apenas para trocar, vender ou comprar edições de terror que não se encontravam nem nos sebos locais. Era uma época mais simples e tranquila, em que a vida fluía mansamente e não tínhamos a ansiedade de sermos encontrados o tempo todo. Quando eu era guri, mal contávamos com telefonia fixa; era outro ritmo, outro mundo. Então, para ampliar nossos horizontes, a rua e o bairro não serviam. Felizmente, em meu bairro e na escola onde por mais tempo estudei, havia muito garoto com os mesmos interesses. Mas, às vezes, eu ia às casas de minhas tias e a gurizada por lá não gostava de quadrinhos nem tampouco de falar sobre o filme exibido na última Tela Quente da Globo, “exibido pela primeira vez na televisão”. Para suprir lacunas assim, esses clubes de correspondência deviam ser algo maravilhoso.

Em resumo, é isso: me vi pensando nessas pessoas que trocavam cartas com estranhos quando a ideia de acesso à internet (ainda que discada em um modem de 56 kbps) nem sequer existia para nós. E a ideia é encantadora. Eu mesmo troquei cartas com um colega durante bastante tempo, quando me mudei pela primeira vez de Estado, aos 15 anos de idade. Era satisfatório receber aquela correspondência, abri-la e descobrir as novidades que meu nobre amigo Alex tinha a trazer. Em regra, as cartas manuscritas do Alex tinham entre três e cinco laudas, sempre com ideias interessantes sobre teologia, literatura e, às vezes, quadrinhos. Como minha letra é ininteligível, optava por enviá-las, de início, datilografadas; depois, quando comprei meu primeiro PC e uma impressora Canon, iam impressas. Mas, mesmo impressas, eu as assinava ao final.

Reler gibis no "loop infinito" acima mencionado hoje é gratificante em todos os sentidos possíveis. Mas, curiosamente, são as propagandas e as seções de cartas que se revelam o ponto mais saboroso dessa experiência. Claro: na época, aquilo era também uma forma de nos lesar. Pagávamos caro por gibis em formatinho, impressos em papel ordinário, com qualidade gráfica pífia, e no meio de poucas histórias éramos brindados com toneladas de publicidade e enchimento de linguiça. No exemplar que revisitei — Recruta Zero n.º 02, da Editora Globo, de agosto de 1989 — há apenas 38 páginas, das quais oito são ocupadas pela capa e quarta capa, anúncios, seção de cartas e uma tirinha final, com meia página destinada ao expediente. Hoje, é evidente que esses gibizinhos não apenas se pagavam pelas vendas, mas ajudavam a compensar prejuízos de outros setores das editoras.

Ainda assim, revisitar esses “extras” acabou se tornando, na posteridade, um prazer inesperado. Eles funcionam como cápsulas do tempo, capazes de nos transportar de volta a um período que, felizmente, não voltará mais — mas que permanece vivo nessas lembranças impressas em papel barato e tinta falha, carregadas de charme, ingenuidade e história. Falei “felizmente” porque adoro a internet e tudo o que ela proporciona. Adoro, sobretudo, o fato de poder ter acesso gratuitamente a esses scans. Outrora, era tudo caríssimo e quase inacessível: música, filmes, séries, livros, quadrinhos etc. Deus - ou Diabo - salve a banda larga, no final das contas.

É isso. Achei interessante falar sobre os antigos clubes de correspondência, divulgados em praticamente todas as publicações do passado.

Abraços nostálgicos (até certo ponto) e até a próxima.

A seguir, os extras presentes no gibi, inclusive, claro, a seção de cartas.