segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Meia-noite no jardim do bem e do mal





Parceiro, a verdade, como a arte, está nos olhos de quem vê. 
Acredite no que quiser e eu acredito no que sei.

No início de 1981, o novo rico James Arthur Williams, negociante de arte residente em Savannah, foi preso por assassinar seu jovem funcionário e amante, o bad boy Danny Hansford (Billy Hanson, no cinema). Aparentemente, tudo indicara que foi realmente em legítima defesa. Mesmo assim, por ser rico e despertar a inveja dos que vendem o almoço para comprar a janta, enfrentou um dos mais longos julgamentos da história local, por quase oito anos e quatro júris. Após sua absolvição, sofreu um ataque cardíaco fulminante no mesmo cômodo onde  Danny Boy foi morto.

John Berendt residiu durante oito anos em Savannah e debulhou toda a história, lançando seu meio-romance de não-ficção (é mais ou menos isso o troço) Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal. Clint Eastwood, o maior cineasta vivo, adaptou a obra para a telona e, como sempre, fez um ótimo trabalho. É um dos melhores filmes que já vi. Tudo ali está impecável, especialmente Kevin Spacey, que “incorporou” (melhor palavra para sua atuação) Williams. John Berendt afirma que a interpretação de Spacey foi ruim. Outros, dizem o contrário. Isso me cheira a vaidades como quando Stephen King, por exemplo, até hoje afirma que O Iluminado de Stanley Kubrick é um péssimo filme. Se autores querem que adaptações ao cinema saiam como eles desejam, é fácil: busquem grana e dirijam os filmes. Podem ser até atores (como aliás o próprio King tentou ser, o que foi patético).

Jude Law (Billy Hanson) também chama nossa atenção em sua curta atuação, nos primórdios de sua carreira. 1997 foi um ano decisivo para ele, com participação em quatro bons filmes que lhe serviram de catapulta, especialmente Gattaca - A Experiência Genética.

No IMDb, a nota para o filme não é das melhores. Apenas 6,6 com quase 40 mil votantes. Ao menos, até o momento. Considerando que atualmente apenas filmes com super-heróis atingem boas avaliações ali, nada disso me surpreende.

Savannah é um personagem da trama. É a morada da antiga aristocracia decadente, pessoas de trejeitos finos e vazias, vadios que ocupam as noites, histórias de luxúria por todos sabidas e de todos “escondidas” e – o melhor – magia (ou superstição, como queiram), muita magia negra.

Esses dias revi Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal graças a um colega mineiro que assinou a HBO Max Multitelas e me deu acesso a uma delas. Assim que vi esta obra-prima na grade, aproveitei para assistir novamente. O filme envelheceu bem. A trilha sonora é linda, com revisitações a obra de Johnny Mercer, compositor cujo espírito está presente na narrativa.

Algo curioso de Eastwood foi chamar, para o filme, pessoas que conviveram com o verdadeiro James Williams e se envolveram com todo o turbulento ocorrido. Assim, por exemplo, o verdadeiro advogado de defesa Sonny Seiler interpretou o Juiz Samuel L. White e o travesti Chablis Deveau interpretou a si mesmo. Nesta mesma pegada, a musicista Emma Kelly e o cabeleireiro Jerry Spence também "deram corpo" a si mesmos. Recordo que, na obra escrita, John Berendt, ao narrar seu primeiro encontro com Joe Odom e mencionar que pretendia escrever sobre Savannah, o mesmo lhe diz que gostaria de interpretar a si mesmo, acaso a obra fosse adaptada para o cinema. Infelizmente, Joe Odom faleceu alguns anos antes da publicação do romance. Mas esse desejo diz muito sobre a escolha peculiar de Eastwood.

Falando sobre o livro, recordo também como é rico em detalhes históricos e culturais da pequena cidade boêmia. Logo no início da leitura, conhecemos alguns ilustres defuntos do cemitério Bonaventure, a exemplo do poeta Conrad Aiken, cujo túmulo possui a forma de banco de praça - para que as pessoas possam sentar, beber e apreciar a paisagem, ali, como ele apreciou em vida. No romance, como também é de se esperar, a vida de James Williams é destrinchada, especialmente como conseguiu sua fortuna a partir de investimentos imobiliários e, depois, indo anualmente ao Velho Mundo em busca de peças raras para revenda em lojas americanas conceituadas.

O molde em bronze da escultura Bird Girl realmente encontrava-se no Bonaventure. Mas, após o sucesso do romance e por constar em sua capa, foi removido para mais de um espaço fechado e seguro, evitando-se assim alguma eventual depredação.

De acordo com Berendt, o julgamento durou quase oito anos com Jim encarcerado durante dois anos, sendo os dois primeiros júris com resultado de culpado por homicídio doloso e o terceiro sendo considerando inconclusivo por desentendimento entre os jurados e retardo em chegarem a uma resolução. No quarto julgamento houve desaforamento para a cidade "reacionária e conservadora" de Augusta. E foi justamente ali onde os caipiras locais realmente julgaram Williams sem preconceitos, mas apenas diante do conjunto probatório, dando-lhe a liberdade. No último capítulo do romance, nos é dito que Jim "desceu para dar comida a gata e fazer um chá. Depois disso, mas antes de pegar, o jornal na varanda da frente, teve um colapso e morreu". A autópsia revelou que ele padecia de pneumonia, o que provocou boatos de que seria complicação decorrente da AIDS - no entanto, nunca houve indícios de que ele estaria doente. "Encontraram-no estirado no tapete, atrás da escrivaninha, exatamente no mesmo lugar onde deveria ter caído oito anos atrás, se Danny Hasnford tivesse detonado a pistola e os tiros tivessem atingido o alvo". A macumbeira Minerva atribuíra o fato à vingança póstuma de Danny: "Foi o rapaz que fez isso".

Resumidamente: revi este ótimo filme e achei bacana recomendá-lo. A primeira vez que o assisti foi no Cine Belas-Artes do SBT, há bons anos. Pesquisando, encontrei até a data exata da exibição: 08 de setembro de 2001. Depois, loquei em DVD. É, creio, um dos trabalhos mais bonitos de Clint Eastwood, ao lado de Os Imperdoáveis (1992), Um Mundo Perfeito (1993) e As Pontes de Madison (1995).

Infelizmente, devem ter exagerado nos cortes durante a edição do filme. No próprio pôster, vemos o personagem de John Cusack navegando em um bote por águas pantanosas. Não há nada assim na película. É que, no romance, próximo ao final, Minerva precisa ir com ele, à meia noite, ao túmulo de Danny/Billy. À noite, o acesso terrestre ao Bonaventure é cerrado e vigiado. Então precisam navegar pelo rio Savannah. Devem ter gravado este momento e, depois, cortado.

James Williams foi um grande homem. Um self-made man na melhor tradição norte-americana, que veio da periferia e, com talento e força de vontade, chegou à maturidade colecionando objetos da antiga aristocracia sulista - preguiçosa e inapta para os novos tempos. Acompanhar um pouco de sua vida vale a pena. E ele adorava festas, grandes e requintadas festas.

Abraços e boas festas, para todos nós.


13 comentários:

  1. Olá, Neófito.

    A estória parece ser muito boa. Não sabia deste livro nem do filme, grande indicação. Baixei o livro aqui e vou tentar ler nas férias. Gosto bastante desses livros que têm algo baseado na vida real, ainda mais tão bizarro, quando existe algo sobre sociedades secretas ou mágicas. A aristocracia, aparentemente, têm muitas coisas difíceis de entender para gente normal.

    Provavelmente, para ver o filme, terei que baixar, pois não tenho HBO max. Engraçado isso, como têm muito streaming diferente e filmes bons em todos, hoje já está começando a valer a pena baixar novamente kkk.

    Abraços!!

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    1. "Baixei o livro aqui e vou tentar ler nas férias"

      Queria ler novamente. Mas só achei PDFs. Gosto do formato e-Pub!

      Abraços!

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    2. Eu baixei em pdf mesmo, mas baixei em inglês: midnight in the garden of good and evil.

      Eu leio em E-pub quando vou colocar no kindle, mas ultimamente estou lendo mais no próprio pc ou no tablet. Nesses casos, não vejo diferença em qual formato usar. Até prefiro o pdf, caso seja uma boa versão e não aqueles xerox.

      Você diz do Epub por causa da plataforma do leitor? ou tem algo específico diferente pela preferência?

      Abraços!!

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    3. Imaginei que vc leria em inglês. Se eu fosse fluente, compraria uma edição gringa caprichada.

      O ePub pode ser melhor adaptado para leitura no Kobo: fontes, espaçamento etc. No PDF, acho ruim de ser ler. Preciso ficar ampliando o doc, arrastando etc.

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    4. pdf acho q fica bom no tablet q vc usa pra quadrinhos

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    5. Ler no tablet cansa demais minha visão. Ainda rolam umas hqs, mas nunca em excesso.

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    6. tem esse programa, talvez ajude:
      https://play.google.com/store/apps/details?id=com.urbandroid.lux&hl=pt_BR&gl=US

      outra opção é ligar um pc na TV e ler por lá. já fiz isso com quadrinhos e parece viável
      pra windows ainda tem esse programa:
      https://justgetflux.com/

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  2. Kevin Spacey - devia estar no auge. hoje segue perseguido por comer algumas bundas

    o livro realmente não achei em epub. pdf é osso mesmo.
    mas o fisico ta em preço de banana:

    https://www.estantevirtual.com.br/livros/john-berendt/meia-noite-no-jardim-do-bem-e-do-mal/3026144173?show_suggestion=0&cep=23052120

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    1. Fala, Scant.

      O problema é que são edições de 1995. A maioria das descrições é praticamente em mau estado.

      Só quem deu pra KS sabe o que passou. Mas... sei lá. Houve muito sensacionalismo sobre tudo. Rapazotes que queria dar para ele (ou comer) e depois de ANOS, após a moda do exposed, jogar a "merda" no ventilador.

      Prefiro pensar que ele já teve seu auge e, hoje, está apenas meio aposentado.

      Abç!

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  3. Que bom. Parece interessante a sugestão.

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    1. Olá, meu amigo!

      Acho que você gostaria MUITO deste filme.

      Abraços!

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    2. Tem na HBO Max, vc colocou aqui... Vou dar uma procurada.

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