quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Dona Lola à sombra de Stalin

Na primeira cena de A Sombra de Stalin, George Orwell inicia a escrita d'A Revolução dos Bichos: "O senhor Jones, dono da Granja do Solar, fechou o galinheiro para a noite...". E logo passamos a outro senhor Jones, de primeiro nome Gareth, jornalista galês que expôs ao mundo os horrores do Holomodor (morte pela forme) ucraniano. Outra figura histórica com destaque é Walter Duranty, correspondente do The New York Times em Moscou, "especialista" em política internacional e ganhador do Pulitzer (premiação que lhe conferia autoridade), que já na década de '30 produzia fake news para a grande mídia estabelecida, sendo irreprochável por sua autoridade de "jornalista sério". A troco de grana, boa vida e por pura ideologia, Duranty enganou o ocidente, durante anos, com notícias sobre as maravilhas do comunismo implantado na antiga URSS.

Gareth Jones foi à Ucrânia e viu a morte por forme de perto, se atrevendo a peitar as fake news do establishment midiático e, devido a isso, comendo o pão que o Diabo amassou. 

O Holomodor não foi apenas um desastre econômico após a coletivização forçada de terras: foi a busca pela mudança na tessitura social de um local, experimento de eugenia histórica e social, a busca por um novo mundo a partir da matança. Isso é o comunismo (ou socialismo, como queiram). Ideologia macabra que conquistou corações como o do próprio George Orwell - escritor ambíguo que chegou ao final vida acreditando no "socialismo democrático" (seja lá o que for isso), mas sabendo que nenhum sistema igualitário poderia dar certo, porque é antinatural e sempre nos levaria ao autoritarismo.

Em um determinado momento do filme, Gareth pergunta a uma ucraniana o que houve ali, ao que ela responde: "Homens vieram aqui e acharam que podiam substituir as leis naturais". Uma camponesa poderia não saber se expressar assim. Mas sentiria que a política é artificial e os ideais coletivistas, postos como foram, são antinaturais. Outra pessoa pobre e sem instrução que sabia disso é Dona Lola, a mãe-ideal de Éramos Seis, romance maravilhoso de Maria José Dupré.

Em Éramos Seis, Dona Lola possui três bons filhos e um vagabundo: Alfredo. Este sempre desejou ser rico, gastava horas delirando com o dia onde teria bastante grana para morar em mansões e andar de carrões (com direito a motorista). Mas nunca gostou de trabalhar e quando arranjava algum trabalho era para roubar o patrão e se lamentar da vida. Em pouco tempo, lhe caíram no colo ideias marxistas: luta de classes etc. Logo, Alfredo "descobriu" que era infeliz porque no mundo havia ricos. Ele não tinha um carrão porque algum ricaço lhe roubou. O justo seria que as pessoas com alguma graninha dividissem tudo com ele. Quando não estava vagabundeando ou roubando, Alfredo estava extorquindo a mãe doceira para comprar roupas caras e perfumes. Só andava na beca e cheiroso!

Em vários momentos, Alfredo aproveita para destilar seu refinado conhecimento sobre marxismo de boteco. Fala de livros, teorias e personalidades históricas, de maneira bem superficial. Em um desses momentos, sua mãe lhe contrapõe com a natureza humana, como transcrevo abaixo.

‒E suas ideias socialistas?

‒Bem. Estudei e entendo um pouco por causa do tal amigo que tenho. Todos somos socialistas, a senhora, eu, todo o mundo.

‒Não diga bobagens. Eu não sou.

‒Mamãe, a senhora pensa que socialismo é um bicho-de-sete-cabeças. Nada disso. É uma luta de classe entre o capitalista e o proletariado Marx chamava os capitalistas de aventureiros, devido à grande cobiça que os domina e o ideal de Marx era dividir os bens, os meios de produção e outras coisas entre os operários; não deixar tudo na mão dos capitalistas, quer dizer, não deixar eles terem tudo e o proletariado não ter nada. Chama-se uma revolução social. Não acha nobre a teoria?

‒Dividir a propriedade, o dinheiro, os bens com os outros? Isso é comunismo, eu já disse. Então esta nossa casa que custamos tanto a pagar, levamos anos economizando, passando apertado, sem roupas suficientes e agora tenho que repartir a metade com o genro de D. Genu, por exemplo, que não faz nada certo? Um dia trabalha, outro dia não? Vive de biscates? Não. Deus me livre!

Alfredo começou a rir e sentou-se de novo na cadeira:

‒A senhora é formidável.

‒Pois não é isso que está falando? Sua teoria não é essa? Repartir tudo com os que não têm? 

‒Não é bem assim. Seria muito longo explicar tudo à senhora, mas não é isso. A senhora não é capitalista; o ideal é impedir que o capitalista ajunte tudo nas mãos e obrigá-lo a repartir com o proletariado.

‒Está certo, mas apesar de não ser capitalista, eu tenho esta casa e você falou também em bens, não falou? Há muita gente que não tem uma casa como esta, logo, preciso repartir com aqueles que não têm. Está errado, filho.

Alfredo jogou fora o cigarrinho e ficou um instante pensativo. Perguntei.

‒Gosta de figos em calda?

Olhou para mim com um olhar estranho:

‒Não. É muito doce. Por quê?

‒E de café, você gosta?

‒Ora esta, mamãe. Tomo café o dia inteiro; o que tem isso?

‒E Isabel gosta de café?

‒Nunca a vi tomando café. Por quê?

‒E ela gosta de figos em calda?

‒Gosta, porque quando vem de Itapetininga, ela come tudo.

‒ Julinho fuma?

Ele começou a rir.

‒ Já estou adivinhando onde quer chegar. Não.

‒E você?

‒O dia inteiro. Até onde vai?

‒Não vou longe. Você é o mais alto dos irmãos; Carlos é de altura regular, Julinho é o mais baixo dos três. Você é louro, Julinho é moreno, Carlos não é moreno, nem louro. Os cabelos de Isabel são pretos, não são? Que engraçado! E você é louro. E no entanto vocês são irmãos, filhos dos mesmos pais, crescidos no mesmo lar.

Ele sorriu e ficou me olhando; comecei a forrar as formas de empadas com a massa:

‒Você gosta de café, Isabel não toma café. Carlos é estudioso e só está feliz com um livro nas mãos; você não gosta de estudar. Julinho gosta de ajuntar dinheiro, desde pequeno gostou de dinheiro. Você não pode ter dinheiro no bolso, quanto tem, quanto gasta. Joga pela janela fora.

Não é isso mesmo, Alfredo?

Ele sorriu mais:

‒Onde está o fim da história?

‒O fim da história é que todos somos diferentes, meu filho. No físico, no moral, no gosto, no caráter, nas particularidades, nas tendências, na essência, enfim. E como podemos viver igualmente, dividir igualmente o que possuímos e levar o mesmo padrão de vida, se somos tão diferentes como os dedos da mão?

‒Ora esta! D. Lola também tem suas teorias!

Um dos fundamentos do apelo massivo ao esquerdismo é a inveja. Há diversos elementos, claro. Há cérebros como Eric Hobsbawm, para quem o morticínio é o caminho adequado para refundar a existência e o próprio homem à imagem da ideologia. Há a gurizada de apartamento, adepta do lacre vazio. Há os políticos e burocratas que surfam na onda do inchaço estatal. Há os artistas bancados com grana pública e colados na mídia mainstream. Há vários. E os invejosos, como Alfredo. E pessoas como Dona Lola e a camponesa de A Sombra de Stálin, que falam de coisas cada vez mais distantes como "natureza humana" e "ordem natural". Do diálogo acima, a idosa calejada pela realidade se opõe ao antinatural do coletivismo. Suportamos o coletivo até poucos limites: o Estado moderno. Além disso, é insanidade.

É isso. Finalmente assisti a este filme e não pude deixar de associar aquela agricultora faminta à Dona Lola: qualquer ser humano razoavelmente são das ideias, com alguns neurônios sadios e que sentiu a vida ao seu redor (suou, sangrou, sentira dor, rezara ou meditou, temeu pelo povir e amou) percebe de cara a malignidade dessa engenharia social que, há séculos (antes mesmo do marxismo), poucas mentes e grandes fortunas quase dinásticas querem empurrar à nossa existência.

Veja o filme, leia o livro! Valem a pena.

Abraços famélicos e até a próxima.



7 comentários:

  1. ótimo post
    infelizmente a história não para de repetir e mentiras lucrativas movem o mundo.
    quase ninguém quer saber da verdade: fanatismo, alienação e medo constroem fortunas na religião, na política a na ciência.
    a mídia é uma prostituta. então ela trabalha ao gosto do cliente. não tem jeito...

    no aguardo da próxima reengenharia social que matará milhões rapidamente (terá sido o covid criado pelo homem? será a vacina pior q o virus ou apenas mais uma fase de um plano macabro? são tantas perguntas...)

    imagino que o iminente desastre climático mostrará o melhor da psicopatia dos ricos e poderosos: um genocídio "em defesa da natureza" hehe

    abs!

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    1. É um inferno cíclico. O vácuo de Estado levaria à sua ocupação por estatistas, cada vez mais aparelhando-o justamente diante do desinteresse da maioria? Então o que fazer? Não sei.
      As pessoas não gostam de políticos e amam o Estado. Como mudar isso? Como abrir mentes?
      É um problema. É como os "libertários" que votam nulo porque não gostam do Estado.
      Não sei nem se vale mais a pena se insurgir contra algo.
      Sobre fanatismo, confesso que sou fanático ao meu modo: rejeito ardorosamente qualquer política que venha para me arrombar mais ainda. Água e óleo não se misturam e não vou falar em "denominador comum" com quem defende os excessos do coletivo sobre minha já pouca liberdade individual.
      Sobre vacinas... Estranho que este ano bastou uma gripe (coisa que temos todos os anos, mesmo fora de época) para milhões de brasileiros apresentarem quadros de pouca resistência ao vírus.
      A Saúde da França passou a exigir, por escrito, de DOIS responsáveis, autorização para inocular crianças entre 5 e 11 anos contra a covid, isentando o Estado e as farmacêuticas de responsabilidade. Mas as vacinas são 100% seguras, alegam ao mesmo tempo.
      Um treco experimental já está na QUARTA dose em menos de um ano. E isso é normal e seguro, alegam.
      Eco-discurso é a bola da vez. Quem se oporia à mãe natureza? As nações mais ricas do planeta querem dar pitaco sobre nós, sem a contrapartida financeira. Desenvolveram suas economias e precisam de um quintal para brincar de ecologia. Sendo que o pulmão do mundo não representa quase nada de oxigênio e as nações mais ricas do planeta poluem os mares, onde as plantas aquáticas produzem 90% de todo nossa oxigênio.
      Diante de toda a insanidade, a verdade está lá fora: as maiores fortunas do planeta promovem as políticas "de esquerda" que nos levarão ao caos.
      Abraços!

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  2. Ouvi muito sobre essa obra, principalmente porque passou uma novel a no horários das seus, na Globo, onde dizem que Glória Pires foi uma Lola fenomenal. Eu não assisti porque o horário não foi bom para mim. Mas duvido que a novela tenha tudo esse diálogo dessa maneira. Foi bom ter colocado. Achei que a linguagem da narrativa seria aquelas do português perfeito arcaico, mas vejo que não. É bem popular e agradável. Fluiu bem.

    Sobre a política, prefiro nem comentar aqui.

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    1. Existe uma glamourizacao da mediocridade que impregnou todo mundo. A romanização de muita coisa que não deveria ser vista com bons olhos. InfeliZmente, para tirar o povo dessa coisa louca será preciso algo bem extremo. Só que esse tipo de ação também dá temor porque ela também pode não ser nada boa para nenhum nós.

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    2. Olá, Fabiano!

      Li críticas positivas à novela e Glória Pires, claro, sempre cai bem em qualquer papel. Também vimos que, na novela, douraram a pílula para descer melhor. Tornou-se uma trama mais leve. A vida de Dona Lola é triste e sofrida, com um final ainda mais deprimente. Há um livro continuação chamado Dona Lola, mas não o li. A linguagem é bem coloquial e fluida, tanto que foi para a série Vaga-Lume, assim como o ótimo livro A Ilha Perdida, da mesma autora.

      Abraços!

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  3. É um problema. É como os "libertários" que votam nulo porque não gostam do Estado.
    Vi parcialmente uma entrevista com o excêntrico (para dizer o mínimo) Paulo Kogos para o canal Brasil Paralelo. O cara faz um comentário interessante sobre o posicionamento político (ou falta de) dos anarcocapitalistas defendendo, em resumo, que estes atuem politicamente para evitar o mau maior: "O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior" (Platão?).
    Penso o mesmo, temos que escolher um lado agora mais do que nunca. Abraços.

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    1. Fala, Pateta!

      Como estão as coisas? Espero que bem.

      Acho curioso o posicionamento isentão libertário de caras como o Julio Lobo, que paga de sobre o muro, diz que não gosta desses assuntos de política etc., e, assim, oferece o próprio pescoço para que os outros decidam sobre o destino de suas preparações.

      Tomar um lado é essencial. O menor mau que seja...

      Vi a entrevista com o Paul Kornos e gostei bastante.

      Ainda sobre isentões, recomendo sempre o post: https://www.blogdoneofito.com/2021/08/um-mundinho-de-muxoxo.html

      Abraços!

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