sexta-feira, 25 de junho de 2021

Simulação e pescaria

Simulacros e Simulação é um livro chato de Jean Baudrillard que se tornou modinha recentemente. Tomei conhecimento de sua existência quando vi Matrix pela primeira vez, quando Neo manuseia um livro falso (oco) de mesmo nome. Tentaram relacionar o filme com o ensaio, mas de maneira meio forçada. Nem o autor viu relação com essa forçada das "irmãs" Wachowski. Quando consegui o PDF da obra, achei uma bobagem. E o filme é excelente. As manas deveriam ficar felizes por isso e parar de bancar as intelectualoides, remetendo a obras filosóficas bobinhas seu ótimo filme.

Mas vamos lá. O simulacro não tenta se passar por real, porque essencialmente ele é verdadeiro, pois se baseia em signos impossíveis. Assim, por exemplo, a Disneylândia é um simulacro: cria mundo de fantasia o qual vemos de plano ser algo irreal. E por isso ele é verdadeiro. Simulação é recriação, por assim dizer, de uma cópia do real, de maneira a nos ludibriar ou com potencial para tal. E por isso ela é falsa, em tese.

E Calmaria é um filme sobre simulação.

Não dou valor a datas especiais porque especiais são todos os meus dias em paz e com saúde, ao lado de minha filha. Mas o Dia dos Namorados foi bom. Passei uns três dias emburrado com o mau humor da esposa e, justamente ao nascer do sol do dia dos "namoridos", fizemos as pazes com uma manhã cheia de amor. O bom de brigar com a esposa é fazer as pazes. E, final de noite, ainda fomos para uma churrascaria com casais amigos, onde enchi a cara, comi bem e cai na cama às três da madrugada para só acordar uma da tarde.

Na tarde do dia dos namorados, resolvi assistir ao Calmaria, filminho que eu vinha esnobando há certo tempo porque achava que seria bobagem romântica qualquer. Nunca vi uma enganação "para melhor" tão boa. Você vê o pôster (acima) e a sinopse: "O capitão de um barco de pesca vive em uma pequena ilha do Caribe e, de repente, sua vida toma um caminho inesperado. Sua ex-mulher retorna e pede para que ele leve seu atual e abusivo marido em um passeio de barco e se livre dele.". O que tirar daí? Nada de interessante, a princípio. Mas, a certa altura, as coisas ficam estranhas. O protagonista Baker Dill (Matthew McConaughey) começa a demonstrar comunicação paranormal com seu filho, à distância. Então ficamos: "Opa, o bagulho é sobrenatural". Mas também não. O filme vai além e estamos diante de outra boa obra sobre [spoiler] simulação.

Baker Dill é, na verdade, a recriação da consciência do pai de Patrick, gênio de tecnologia da informação com apenas treze anos de idade. Para preencher sua solidão e se afastar do padrasto violento, o garoto criou uma simulação: a pequena ilha de pescadores chamada Plymouth. A regra do jogo é: ninguém morre. Contudo, num dado momento, a inteligência artificial (ou consciência digital) representada por Baker começará a desejar matar o marido violento, e aí todo o sistema lutará contra isso, tentando convencê-lo a resistir. Plymouth é um jogo com foco em pescaria e todos ali estão felizes nesta condição: um paraíso binário. Se as regras forem quebradas, o sistema poderá colapsar.

Gostei bastante do filme. Não tem o potencial de Matrix ou 13º Andar, claro. Mas é agradável. E a existência de simulações é algo que mexe com nossa imaginação. Às vezes converso sobre isso com Thiago, amigo de faculdade, e realmente não parece impossível que esta realidade seja a simulação criada por alguma inteligência evoluída, até mesmo por seres humanos que dominaram, há eras, a computação quântica ou além. Podemos ser todos NPCs de um grande game ou até mesmo players, com nossas vidinha simuladas. Nada proibiria que cem anos jogados aqui fossem apenas algumas horas no mundo real. Groselhas à parte, é divertido pensar nisso.

Calmaria parece, de relance, apenas mais uma história de amor com pintadas de suspense. É realmente uma história de amor: entre pai e filho. Mas também sobre a perpetuação da memória e como o amor sobrevive à morte, em um mundo simulado habitado por consciências eletrônicas.

Abraços binários e até a próxima.

5 comentários:

  1. É, meu caro. RelacionAmentos, após uns cinco anos, começam a ficar todos iguais. E amamos mesmo, ainda que haja momentos assim. Se um dia voltaremos a amar quando estivermos sozinhos, isso já é outra história. Todo homem deve ter seu relacionamento duradouro de, no mínimo, 10 ou 12 anos. É necessário expiar a vida em uma relação sólida, como ela traz discrepâncias à de solteiro. Às vezes, melhor. Às vezes, não tão boa assim, mas ainda valendo a pena. Eu digo por mim. Amo meu companheiro. São quase 17 anos. Mas eu não quero nunca mais outro relacionamento. Porque já estou vivendo este. Já sei como é. Então eu aproveito todo dia, enquanto o tenho. Para depois gozar satisfeito de uma outra etapa, um dia.

    Sobre o filme, eu acho que vc estava em um bom estado de Espírito para assisti-lo. Talvez, se tivesse em outra ocasião, suas impressões teriam sido diferentes eu me vi em você, agora, quando vi há um ano o filme Batman x Superman. Foi exatamente assim. Fim de tarde me entregando dofa5e só pensei "deixa eu ver essa birosca, se for ruim eu tiro". E eu gostei muito. Acontece. Faz parte.

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    1. Já vim de um primeiro casório e tenho amigos que estão no terceiro. Gosto do que um amigo meu fala: não posso ficar sozinho porque tenho medo de fantasmas. rs
      Não gosto da solteirice. Me sinto bem estando com alguém, estando casado, mesmo com todos os problemas que o casamento traz. Compreendo porque tanta gente mais jovem, hoje, prefere estar só. Mas não faz parte de minha natureza e estou com uma certa idade para pensar nisso.
      Sobre os filmes com heróis, não costumo gostar de quase nenhum. Tanto que parei de assistir.
      Abraços!

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  2. "O bom de brigar com a esposa é fazer as pazes. " - disse tudo

    "13º Andar" - só ficou esquecido por causa de matrix

    "ão parece impossível que esta realidade seja a simulação criada por alguma inteligência evoluída" - por fim, o platonismo triunfou, quem diria, hehe

    abs!

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    1. Parece que 13º Andar só foi redescoberto há poucos anos...

      Platão, um jovem à frente de seu tempo.

      Abraços!

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