quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Concurso público ainda vale a pena?


Adolescente inútil de trinta anos esperando o auxílio.

Imagem de Lando por Pixabay

Respondendo logo ao questionamento do título: por enquanto, sim, especialmente para cargos onde se exige nível superior e, mais especialmente ainda, para cargos de elite. Para estes, exigem-se anos e anos de estudo com afinco e dedicação. Ninguém é nomeado para Diplomata ou Procurador do Trabalho com poucas horas de estudo ao dia. Estimo que, para cargos dessa natureza, o cidadão tenha que se dedicar em torno de quatro anos, talvez, com uma média diária de oito horas de estudo. E estudo proveitoso, não qualquer forma de "aprendizado". Método é importante. Há casos onde o sujeito ingressa nesses cargos com pouco esforço? Sim, casos raros, pontuais, dependendo da qualidade da massa cinzenta do cidadão. Tive um colega de faculdade, por exemplo, que, ainda no meio do último ano, passou em segundo lugar para Auditor-Fiscal da Receita Federal. Mas ele sempre esteve acima da média. Conseguiu antecipar o curso e não passou nem dois anos no cargo, pois depois foi nomeado para Procurador de Contas. Daqui a alguns anos, creio, será Conselheiro no Tribunal de Contas, dentro da reserva de vagas ao Parquet, pois ingressou muito jovem no cargo e terá tempo de carreira, por antiguidade, até lá.

Mas voltemos ao assunto: você não precisa ser gênio como meu colega. Basta estudar um pouquinho e escolher aqueles cargos de nível superior, na intricada burocracia nacional, onde dê para retirar um troco bacana - hoje, não menos do que 25k ao mês, em final de carreira. Sem contar que é satisfatório usar o diploma. Acho meio deprimente o cidadão gastar cinco anos numa faculdade para, depois, não fazer nada com o canudo. Então o uso do diploma, além do benefício financeiro, lhe trará benefícios emocionais, psicológicos e espirituais. Conheci uma motorista Uber formada em Engenharia Civil numa bagaça privada qualquer (se bem que universidades públicas também estão uma bagaça) que me disse não ter conseguido emprego em sua área, por isso estava como Uber. Até aí, normal. Muita gente inventa de fazer curso superior sem nem saber se aquilo é para si. Mas o problema é que ela soltou uma que "estava mais feliz assim". Cara, pura conversa fiada.

Por que entro neste assunto? É que muitos guris andam me perguntando se concurso vale a pena, ainda, considerando que - em breve, talvez - quase não existirão. Possivelmente, alguma nova reforma administrativa acabará com os concursos para cargos em atividade meio. Exemplo: em tribunais, haverá concurso apenas para magistrados. Servidores desempenham meras atividades de suporte. E por aí vai a coisa. Além disso, cargos como policiais e fiscais de tributos continuarão sendo providos por meio de concurso. Isso se não privatizarmos a polícia, como na OCP de Robocop! Creio que dá para terceirizar quase tudo por aí. Se não isso, farão o seguinte: processo seletivo. Mesmo sem amparo legal, recordo que o  Tribunal de Justiça do Estado do Tocantins abriu processo seletivo para cargo efetivo. Logo, o sujeito passaria apenas alguns anos no desempenho das atribuições e depois ganharia um pé na bunda.

Mas, por enquanto, nossa burocracia ainda comporta cargos efetivos e estabilidade nos mesmos. Então vale a pena, sim. É o que lhes digo. Mesmo que amanhã mudem tudo, quem garantiu o seu lugar ao sol, permanecerá aquecido. Falo sempre aos meus colegas próximos que somos dinossauros. Em alguns anos, seremos servidores efetivos trabalhando com pessoas contratadas a preços módicos e com gente temporária de processo seletivo. E, para mim, tanto faz. O mundo muda. Não posso me preocupar com isso, nadar contra a maré. Se os brasileiros terão uma melhor ou pior prestação de serviço, quem saberá dizer? Muitos setores, onde todos são estáveis nos cargos, já não funcionam!

O Brasil é o país dos concursos públicos, pois não temos livre mercado. Nosso capitalismo é de compadrio. Só prospera, em regra, quem é amigo do Rei. Este ano mesmo descobri que meu colega bem sucedido no setor de pré-moldados, eletrificação e energia solar só chegou lá graças a contratos com várias prefeituras. Se dependesse apenas do mercado convencional, estaria na merda. Há as raras exceções, claro; mas são raríssimas, mesmo. Antes, havia mais histórias de sucesso pela garra e determinação. Hoje, isso é raro. Se o sujeito não for herdeiro ou bem apadrinhado, será triturado no moedor de carne estatal.

Além disso, empreender sem apoio estatal é para trouxas. Você será o vilão da história: empresário malvadão, tomador da mais-valia do operário. Terá agentes públicos te infernizando: fiscais de tributos municipais, estaduais e federais, fiscalização sanitária e ambiental, fiscais do trabalho, oficiais de justiça etc. Exemplo bizarro: um conhecido explora o pó da carnaúba para produção de cera. Ele fornece refeitório, EPI, banheiro químico etc. Mas, certa vez, um empregado seu que só gosta de comer à sombra da árvore (matuto legítimo) estava atacando sua refeição e, ao lado, estava seu cachorro de estimação. Para onde ele vai, o bichinho segue atrás, até mesmo para o trabalho. Então ele ia comendo e jogando sobras ao animal. Por azar, apareceu uma fiscalização do trabalho no momento: comendo no chão com os animais, multa de quase dez mil paus. E foi isso. Mesmo o empregado falando que não era nada disso, o patrão rodou na multa. Vale a pena empreender assim, a não ser que seja com gordos contratos junto ao poder público? Para mim, não. A paz de espírito não tem preço.

Outra vantagem de optar pelo concurso público, enquanto ainda existe, é que nos sentimos meio que justiçados. Explico: este é um país de vagabundos, onde a vagabundagem é estimulada. Pessoas que não estudam nem trabalham, que passam o dia todo coçando o saco esperando migalhas caírem do céu: bolsas, auxílios diversos etc. Querem mimos, pois se acham merecedores de tudo porque "também pagam impostos". Ora, como pagam impostos se não produzem, se não dão força de trabalho à sociedade? Os tributos indiretos sobre consumo, é isso? E os impostos diretos? Nunca pagaram nem pagarão. Na verdade, não produzem nada no mundo a não ser merda e flatulência. Apenas ocupam espaço e abarrotam nosso sistema público de saúde, dentre outros sistemas. Desocupados deveriam dar retorno à sociedade de alguma forma, quando usufruem de benefícios diversos. Que dessem ao menos um dia de trabalho ao mês a órgãos públicos, em atividades realmente essenciais, como zeladoria, segurança, jardinagem etc.

Então: a outra vantagem é que, num país de vagabundos, ao menos no serviço público você está embolsando grana dos cofres públicos. O importante é desempenhar bem suas atribuições, fazer a contento seu trabalho e dormir tranquilo. Mas, claro, infelizmente, somos a única categoria que não pode fugir do pesado imposto sobre renda, já descontado sobre nosso holerite. "Ah, mas em empresas também é assim etc.", dizem. Não, não é. Empresas que pagam bem conseguem seus "arranjos" juntos a empregados. Há gente por aí com um salário mínimo anotado mas que, na verdade, embolsa vinte vezes isso, em comum acordo com o empregador. E, pela ótica libertária, não estariam errados. Apenas estão fugindo da sanha predatória do Estado e seus cupinchas.

Agora, certamente, tudo o que falo acima sobre concurso público é destinado a quem não possui dotes especiais: cozinha, mecânica, obras diversas etc. Para muitas profissões bem remuneradas e com ótimo mercado, não se exigem diplomas. Mas se exige "dom", talento. Conheço mecânicos que estão ricos, fazendo o que amam, assim como padeiros, cozinheiros etc. Se você leva jeito para algo que não exija universidade, invista nisso. Ganhe grana sendo feliz. Na minha família, há gente que fez até pós-graduação fora do país para, hoje, estar vendendo miçanga. E não está feliz com isso, claro. É porque é o que deu, pois inventou de se meter numa atividade específica, que exigiu anos de estudo, sem refletir a respeito.

Então é isso. Sou servidor público há duas décadas, pois nunca me vi bajulando políticos ou me corrompendo para poder empreender neste sistema imundo de compadrio, nem tenho saco para ter meus próprios colegas servidores públicos me perturbando com fiscalizações, multas esdrúxulas e exigências insanas. Nunca me faltou disposição para estudar. Fui um moleque que sentia prazer em aprender. E também gosto de trabalhar, pois não consigo me ver como vadio. Logo, me sobrou o setor público. Como muitos estagiários andam me perguntando se ainda vale a pena estudar para concurso, digo que sim. Além disso, quando no cargo, tente fazer a diferença - realmente cumpra seus deveres funcionais, faça a coisa andar, seja gentil com os usuários do serviço e embolse, em paz, sua grana.

Abraços barnabés e até a próxima.

11 comentários:

  1. Eu sou servidor público e assino embaixo. Se vc é pobre ou de classe média, ou tem um dom e ganha dinheiro com ele, ou faz medicina, ou vira servidor, ou, se for novinha e gostosa, faz vídeo dançando de shortinho e vai ganhar dinheiro na internet.
    De resto, vai penar. Ser pobre ou classe média no Brasil é foda. O sistema joga contra quem pensa em empreender. O país está se desindustrializando. A área industrial é quem gera melhores empregos e paga bons salários. É um setor que encolhe a décadas. O que sobra é setor de serviços, que vc trabalha de segunda a sábado, quando não domingo, e ganha uma miséria.
    Eu minha esposa somos servidores, não somos ricos, longe disso, mas temos uma certa qualidades de vida.

    Eu tenho colegas servidores que conseguiram empreender e se deram bem. Eu não tenho esse tino, então tento montar uma carteira de investimentos que no futuro complemente minha renda e eu não seja totalmente dependente do salário/aposentadoria, ter uma renda que pague pelo menos o plano de saúde, que é absurdamente caro.

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    1. Olá, Dedé.
      Certa vez, um conhecido empreendedor me perguntou pq escolhi o serviço público. Fui enfático: covardia. Sim, covardia. Optei por uma vida financeiramente limitada, sem nenhuma chance de grandes ganhos, em prol de minha paz. Nunca serei rico, mas, enquanto houve a União federal, manterei minha renda e minha qualidade de vida, limitada, porém confortável.
      É possível o cara se dar bem empreendendo com a grana do serviço público? Ou investindo bem seus vencimentos? Claro que sim. Tb só não estou disposto a isso por uma questão de filosofia de vida.
      Minha preocupação é saúde e nosso plano de saúde é incrível. Ele me custa R$ 1,00 por mês. Sim, apenas isso. Nosso Tribunal costurou um sistema de cobertura à saúde maravilhoso, para ativos e inativos. Quando cheguei na Corte, ele já existia assim. E, após todos esses anos, continua funcionando bem.
      Tenho colega solteiro e sem filho que está multimilionário investindo em imóveis, transporte, mercado financeiro etc. Ano passado ele quase morreu com um treco no cérebro. Me perguntei: se ele tivesse morrido, para quem iria sua grana? Resposta: para os sobrinhos, que sabem curtir muito bem a vida.
      Já investi em imóvel e ganhei um troco. Depois, larguei isso de mão. Me tornei um cara do momento. Vários amigos meus já estão mortos. Então tento dar uma vida confortável à minha filha, saúde, educação etc. E tento viver bem, dentro do possível. Não quero mais acumular nada, nem investir. Não acho que quem faz isso está errado, pelo contrário. Eu mesmo posso estar errado, numa visão objetiva. Mas, para mim, é a melhor forma que achei de viver.
      Algumas pessoas dizem que, amanhã, o país pode estar quebrado. Pois é. Mas quando a União que me paga quebrar, é pq todo mundo já estará na merda. Quem não possui seu patrimônio em dólar, euro, coroa sueca etc., tb estará fodido. Quem não puder vazar do país, tb estará ferrado. Quem possuir doenças graves como diabetes, hepatite c etc., aí sim estará duplamente ferrado.
      Enfim: por enquanto, vivo. Vivo bem, Como bem. Bebo bem. Me dou vez ou outra aquela garrafa de mil reais e às vezes gasto uma grana boa numa viajem curta, porém enriquecedora.
      Cada um tem que analisar onde o calo aperta.
      Mas... de resto, é bem isso mesmo, em resumo: para nós, POVO, só restam os concursos públicos. Como gastaremos a bufunfa, é outra história.
      Abraços!

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    2. Pois é, tem uma turma que prega a poupança extrema, poupar 80% da renda pra atingir a independência financeira e viver de renda. Eu sempre fui da opinião que viver de renda é para multimilionário, e se pra ficar multimilionário eu preciso deixar de fazer a coisas que gosto e praticar a frugalidade extrema, passar anos, talvez décadas deixando de tomar minha cerveja nos fds, fazer uma viagem nas férias, me vestir bem, comer bem, ter uma casa confortável, um carro legal, não é para mim.

      Judiciário é top, sou servidor do executivo federal. Recebemos uma ajuda de custo que não cobre 1/4 do valor do plano. E olhe que o plano nem é nenhum top. Vejo colegas na faixa dos 60 pagando 2 mil de mensalidade, foda.

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    3. to no judiciario
      pago menos de 100 reais no plano por mes
      ainda deduzo do IR
      acho q no final quase ganho ou ganho pagando
      bizarro...

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  2. otimo texto
    o brasil nao tem jeito e cada tem q se virar como pode, enquanto houver tempo
    pior seria trabalhar no comercio e depender do inss

    abs!

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    1. https://www.conjur.com.br/2022-nov-28/justica-trabalho-suspende-residencia-juridica-tribunais

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    2. https://www.youtube.com/watch?v=eGL-x2nx7O8&ab_channel=LudmilaLinsGrilo

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    3. Grande Ludmila Grilo. Essa sim é um "mulherão da porra", sem medo. Na magistratura, abundam: militantes de extrema esquerda e os covardes.

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    4. Ano passado eu estava pagando em torno de r$ 250,00 pelo plano para mim, esposa e filha. Mas este ano todo voltou a ser um real por kbç. Ano q vem, dizem, continuará assim, felizmente.

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  3. Passei o post para meu guri ler e depois batermos um papo. Abraços!

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