A postagem a seguir foi publicada em meu antigo blogue, em 4 de dez de 2016. Eu a tinha perdido e tentei até verificar no Wayback Machine, mesmo assim não encontrei. Ou seja: fui incompetente. Porque o Ozy foi lá e achou. Como chegamos a isso de falar sobre Meridiano de Sangue? Ele havia me compartilhado uma imagem baseada em um dos personagens do livro e perguntou se eu já o li. Respondi que sim, e que havia até mesmo escrito uma resenha no antigo blogue (derrubado pelo Google), mas não tinha recuperado. Então, um dia depois, ele a encontrou. Cara, como fiquei satisfeito com isso, pois adorei escrever esta resenha tão quanto adorei ler o romance. Não o tenho impresso, pois li no Kobo. Na verdade, só tenho um livro impresso do Cormac McCarthy; todos os demais foram lidos pela via digital gratuita. Então aqui está a resenha deste romance magistral de um dos últimos grandes escritores que, até pouco tempo, ainda estava vido. Valeu, Ozy!
Beba. Esta noite pode acontecer de tua alma te ser reclamada.
(Juiz Holden)
Um antigo imbróglio americano é o pretenso direito da "grande nação" Sioux sobre a ocupação plena, como suprema detentora de todos os inalienáveis direitos, de uma vasta propriedade há séculos ocupada e desenvolvida pelo suor e sangue de gerações de norte-americanos. Contudo, diante da aparente quebra de cláusulas do Segundo Tratado de Fort Laramie (não pesquisei a fundo o assunto), o remanescente indígena — se é que isso ainda existe realmente — foi indenizado pela Suprema Corte em algo que hoje corresponderia a cerca de 1 (um) bilhão de dólares. Eles rejeitaram a grana, pois querem a terra, vez que de bobos não têm nada. E esse problema se arrasta até hoje.
Contudo, muitas pessoas questionam: "Ora, os Sioux não viveram sempre ali, naquela região. Há registros de ocupações sucessivas por até três povos distintos antes da chegada dos litigantes. E quantas mais etnias não se sucederam no local, das quais nunca teremos registros? Por que essa 'grande nação' seria detentora de direitos sobre a região, a ponto de não transigir numa ação bilionária contra o Governo dos EUA, batendo o pé de forma inexorável?". As respostas para essas indagações nunca virão, pois a "tomada" de terras de índios bons por brancos maus faz parte da cultuada "vergonha americana", dentro dos círculos midiáticos e universitários progressistas.
Fato curioso é que a criação de reservas indígenas, a quebra de acordos de demarcação de terras, as vendas fraudulentas de propriedades e as remoções "voluntárias" e forçadas de contingentes indígenas são políticas do Partido Democrata americano, sob os auspícios do grande senhor de escravos, advogado e político Andrew Jackson, sétimo presidente dos Estados Unidos. E, hoje, os descendentes desses indígenas dão suporte ao Partido... Democrata. Isso ajuda a compreendermos o nível de entropia e insanidade em que este planeta se encontra.
Por que escrevi os parágrafos acima? Apenas para esclarecer que não apenas a história americana, mas também a história humana é uma narrativa de conquistas sucessivas. Não podemos "devolver" a Amazônia aos índios, assim como as terras de Black Hills, onde se encontra o célebre Mount Rushmore, com as efígies dos founding fathers, não podem ser dadas, embrulhadas de presente, aos Sioux, que, por sua vez, se instalaram no local às custas do derramamento de sangue de nações indígenas anteriores.
No curso da História, até os dias de hoje, quando ao menos tentamos coabitar sob um verniz de civilidade, não houve bandidos ou mocinhos. Tudo fez parte da evolução natural dos povos na ocupação das regiões mais recônditas do planeta, de acordo com as possibilidades tecnológicas disponíveis em cada época.
Cormac McCarthy não se expressa dessa maneira em sua opus magnum, Meridiano de Sangue. Contudo, penso que isso tem tudo a ver com os dramas de sangue ali brilhantemente narrados. Na evolução natural das espécies, todos buscam um lugar ao sol e a perpetuação. Outros foram apenas infelizes errantes que, soltos à própria sorte em territórios inóspitos, apostaram a vida para fundar o que hoje se tornou a nação mais próspera da história. É sobre esses infelizes que trata o romance aqui abordado.
Cormac McCarthy me ajudou a burilar certa visão de mundo com a qual me debatia há alguns anos. Ainda penso que essa produção de riquezas proporcionada pelo regime de mercado, no apogeu do capitalismo, ruirá em breve. Estes últimos séculos foram apenas um desvio no curso natural das coisas, e não necessariamente estamos em evolução constante para melhor.
Creio que o futuro não será muito diferente do que vemos em Mad Max e, dependendo da natureza, talvez seja tão aterrador quanto o descrito no romance A Estrada, também de McCarthy. Nunca comunguei com parasitas sonhadores como Rousseau, para quem o homem seria "essencialmente bom". Nascemos contaminados pelo pecado original e, naturalmente, em estado de competição feroz, abandonamos essa casca de empatia que nos foi dada pela cômoda vida proporcionada pelo capitalismo, na qual, hoje, qualquer moleque de classe média baixa tem uma vida mais confortável do que um antigo rei — pequenos luxos como energia elétrica, internet, água encanada, transporte público, aspirina e preservativos.
O que um monarca antigo não daria em troca de penicilina, por exemplo? O humano em estado natural, ao léu, nunca foi tão bem representado quanto n'O Senhor das Moscas, de William Golding. Para chegarmos à existência revelada n'A Estrada, precisamos apenas de um ano sem supermercados e sem energia elétrica. Em dois anos, talvez o remanescente humano seja menor do que o dos ursos-pandas.
Mesmo gostando tanto de Cormac McCarthy, como falei, resenhei aqui, até hoje, apenas um romance seu: Onde os Velhos Não Têm Vez. Pretendo corrigir esta omissão. Começarei a tratar disso com esta postagem.
O mote por trás da trama é aparentemente simples: um garoto conhecido apenas como "kid" sai de casa em busca de ganhar a vida pelo oeste americano, na metade do século XIX. Alia-se a dois bandos, um deles comandado por John Joel Glanton. Na trilha pela sobrevivência, por mulheres, uísque e fortuna, caçam escalpos para, em determinados territórios, recolherem as recompensas oferecidas.
É nesse bando que ele conhece o Juiz Holden, figura instigante e amedrontadora, que fascina pelo seu conhecimento e nos gela a alma por sua crueldade. O grupo é bem representativo e evidencia que, na busca por mucha plata, não havia mocinhos. Assim, o "kid" convive com mexicanos, "negroides" e etnias nativas num mesmo miniexército sanguinário. Os inimigos são os de fora do bando.
Como bem pregado pelo Juiz: "O que une os homens, disse, não é a partilha do pão, mas a partilha dos inimigos".
O romance é denso. O estilo do escritor já foi mencionado por mim neste blogue. Por não separar bem os diálogos dentro da narrativa, você pode facilmente se perder se não estiver atento à leitura. Logo, nossa visão de "velho oeste", disputado por esbeltos cavaleiros com roupas de couro e grandes chapéus, é substituída pela visão aterradora de maltrapilhos imundos, chafurdando num lodaçal de sangue, vísceras e misérias de toda ordem.
O mais próximo que podemos rotular de protagonista é o "kid". Contudo, foi o Juiz Holden a personagem mais marcante da trama, encoberto de aspectos quase sobrenaturais. Não sabemos ao certo sua origem. Na verdade, não sabemos bem nem se é humano.
Seu primeiro contato com o bando sanguinário, do qual o "kid" faz parte, é esquisito: está bem vestido, sentado no meio do nada sobre seus pertences, como se fosse a sina do grupo topar com ele. Um homem pragmático, que sabe se virar bem na vida árida e selvagem, sem dó de ninguém. É capaz de extrair pólvora das rochas, identificando cada elemento; escalpela um mexicano com esmero e sabe carnear mulas com a mesma desenvoltura com que fala alemão, espanhol, francês e línguas mortas.
Às vezes, percebo que Randall Flagg, de Stephen King (confira mais aqui), tomou elementos sobrenaturais emprestados do juiz de McCarthy. Lembrando que King é um entusiasmado fã de seu conterrâneo, em Meridiano de Sangue topamos brevemente com um estranho personagem chamado pelos colegas de Randall.
Noutros momentos, Holden me lembra antigos filósofos gregos em sua ânsia pela catalogação do conhecimento e das coisas. Aristóteles pedia a seu aluno Alexandre Magno, por exemplo, que recolhesse, em suas conquistas, materiais de culturas distantes e os trouxesse para serem estudados.
O juiz anda sempre com seu livro, anotando tudo o que encontra nas andanças, desenhando objetos e inscrições em rochas, pesando, cheirando e extraindo dados. Acerca disso, ele esclarece em dado momento:
"Só a natureza pode escravizar o homem e só quando a existência da última entidade tiver sido desencavada e exposta diante dele é que ele se tornará, do modo apropriado, suserano da terra."
Penso que esta passagem, por si só, é mais do que emblemática.
Muitos leitores destacam Holden como um dos personagens mais assustadores da literatura. De fato, por sua grande cultura e atitudes pontuais narradas no decorrer da obra, poderia ser. No entanto, percebi-o como um homem, na verdade, apaixonado pela vida e pelas coisas do mundo, querendo compreendê-las e, assim, dominá-las.
Se ele abate um cavalo com pedradas no crânio e o destrincha sem dó algum, é porque tem fome e está no deserto. Ele escalpela porque essa é a regra e, uma vez em Roma, faça como os romanos. Penso que Glanton, sim, é merecedor do título de "mais assustador". Este líder do bando, pois, é indiferente à vida em todos os seus aspectos, até mesmo no momento de sua própria morte. Trata-se de um ser humano essencialmente cruel, em estado puro. A personagem ficcional foi inspirada na histórica — ex-Texas Ranger que se tornou mercenário e caçador de escalpos. A passagem abaixo talvez ilustre bem a natureza desse homem de armas.
(...) os cães feridos uivaram e se arrastaram em torno até Glanton sair pessoalmente para matá-los com sua faca, uma cena fantasmagórica à luz oscilante, os cães feridos em silêncio, exceto pelo entrechocar de seus dentes, arrastando-se no chão como focas ou outras criaturas e encolhendo-se junto às paredes enquanto Glanton caminhava de um em um e abria seus crânios com a imensa faca guarnecida de cobre que levava no cinto.
John Joel Glanton é o oeste americano, onde a morte quase nunca é uma simples passagem. A rigor, a morte é cruel, seja pelas condições áridas de vida, seja pelos meios infligidos pelas mãos dos homens. Num ambiente onde a vida é dura, a morte precisa superar-se. Sejam brancos, negros, índios ou mexicanos, todos os que se aventuram nas planícies ermas trazem o mal no coração, e o destino do inimigo deve ser exemplar:
Encontraram os batedores desaparecidos pendurados de cabeça para baixo pelas pernas nos galhos de uma paloverde enegrecida pelo fogo. Tinham os tendões dos calcanhares perfurados por agulhas afiadas de madeira verde e pendiam cinzentos e nus sobre as cinzas dos carvões extintos, onde haviam sido assados até as cabeças ficarem carbonizadas, os miolos ferverem por dentro do crânio e o vapor sair assobiando por suas narinas. Suas línguas haviam sido puxadas para fora e trespassadas com paus afiados e esticadas, e tiveram as orelhas arrancadas, e seus torsos foram abertos com sílex até as entranhas ficarem penduradas em seus peitos.
Um dos hábitos de chacina mais comuns entre os nativos, entretanto, era a execução de bebês. No bando de Glanton, por exemplo, apenas os integrantes delawares costumavam executar de maneira cruel os bebês de povoamentos invadidos.
(...) um dos delawares emergiu da fumaça segurando um bebê nu em cada mão e se agachou junto a um círculo de pedras com os restos de comida. Balançou-os pelos calcanhares, um de cada vez, e esmagou suas cabeças contra as paredes, de modo que os miolos espirraram pela fontanela em um vômito sanguinolento (...).
(...)
O caminho foi se estreitando entre rochedos e, após algum tempo, chegaram a um arbusto de cujos ramos pendiam bebês mortos. Pararam lado a lado, hesitantes sob o calor. Aquelas pequenas vítimas, sete ou oito delas, haviam sido perfuradas no maxilar inferior e estavam, desse modo, penduradas pelas gargantas nos galhos partidos de um pé de prosópis, para fitar cegamente o céu nu.
(...)
Passando por uma área coberta de ossos, onde soldados mexicanos haviam massacrado um acampamento apache alguns anos antes — mulheres e seus filhos, os ossos e crânios espalhados pelo terraço por mais de meio quilômetro, e os membros minúsculos e crânios de papel, desdentados, de bebês, como a ossatura de pequenos macacos no local do morticínio —, encontraram velhos restos de cestaria exposta à intempérie e os potes quebrados no cascalho.
Durante toda a leitura, você se dá conta de como tem uma vida molenga e, mesmo assim, às vezes reclama de barriga cheia. Colonos, índios e mexicanos movem-se por dias sem água suficiente, comendo apenas tiras de carne seca e dormindo no frio à noite, enquanto enfrentam temperaturas elevadas pela manhã. Acendem seus cachimbos com brasas de fogueira — isso quando conseguem fumo — e se deleitam quando topam com uísque: "A primeira coisa pela qual perguntaram foi uísque e a segunda, tabaco".
Mulheres e crianças são naturalmente mais indefesas e não raro as primeiras que sucumbem nas travessias em caravanas e nas invasões dos pequenos povoamentos. Enquanto, hoje, você chega do trabalho cansado do trânsito e resmunga com a janta, que demora cinco minutos para ficar pronta no micro-ondas, no ar-condicionado, assistindo à Netflix, os empreendedores da expansão humana rumo ao oeste americano encontravam esta sorte:
Cinco carroções fumegavam no solo do deserto, e os cavaleiros desmontaram e caminharam em silêncio entre os corpos dos argonautas, aqueles probos peregrinos sem nome entre as pedras, com seus terríveis ferimentos, as vísceras esparramando-se por seus flancos e os troncos nus crivados de flechas. Alguns, pela barba, eram homens e, contudo, ostentavam entre as pernas estranhas chagas menstruais, e não as partes masculinas, pois estas haviam sido amputadas e pendiam escuras e estranhas de suas bocas sorridentes.
Ratifico o que mencionei mais acima sobre o vidão que possuímos hoje, proporcionado pelo regime de mercado e pela busca do pleno emprego, pela iniciativa privada que produz e distribui mais riquezas do que tivemos em milhares de anos de civilizações.
Contudo, isso parece ser passageiro. Acredito que uma vida constantemente próspera e a produção de bens e serviços para consumo por cada vez mais gente encontrem, em breve, uma regressão ou um colapso total. De alguma forma, a possível hecatombe dessa pujante melhoria da vida global não se coaduna com a natureza humana, autofágica. E, no admirável mundo que desponta, os fracos não terão vez.
Ler Cormac McCarthy me ajuda a compreender melhor tudo isso.
A edição eletrônica que li no Kobo foi da Alfaguara, selo da Objetiva para a chamada "alta" literatura. São 350 páginas, com tradução de Cássio de Arantes Leite, no padrão de publicações típico do selo: brochura resistente, com orelhas. O papel tem uma gramatura boa e não permite que vejamos as letras através das páginas; além disso, é daquele mais amarelado, que não cansa a visão — tipo pólen soft. Também pela Alfaguara já recomendei, aqui, O Mestre e Margarida.
Fico por aqui.
Abraços sangrentos e até a próxima.


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