terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Use sua ilusão [ Música, Divagações ]



Os álbuns que seriam lançados como um só, duplo.

Não foram os medalhões como Bob Dylan ou David Bowie que fizeram parte de minha formação musical. Apenas após certa idade, naquela busca por novos sons e experiências, é que fui apurando meus ouvidos. É mais ou menos como o paladar. De início, gostamos de comidas muito doces ou muito salgadas. Depois de um tempo, nem aguentamos mais comer muita bobagem e só nos agrada algo mais suave. Até uma certa idade, nada se compara a um refrigerante bem gelado. Depois de um tempo, nada mata tão bem nossa sede quanto uma cerveja! E, na minha adolescência, nenhuma banda foi tão marcante quanto Guns N' Roses; embora, atualmente, seja algo como o refrigerante em minha vida. 

Em casa, tínhamos todos os CDs da banda, comprados aos poucos, a bastante custo. Quem é ao menos da geração passada recorda como eram caros os CDs, de maneira que não é tão difícil compreender o que levou a indústria fonográfica à falência (merecidamente!). Eram apenas cinco álbuns para comprar, mas levamos anos nessa empreitada. Como era bom gastar várias tardes escutando os álbuns bonitinhos dos Guns N' Roses, em especial a engenharia de som impecável dos dois Use Your Illusion. 

Uma curiosidade: as capas destes álbuns foram elaboradas em cima do afresco La Scuola di Atene, de Raffaello Sanzio. Abaixo, posto imagem da pintura em grande resolução, destacando de onde retiraram as figuras da capa. A razão dessa postagem é que ouvi esses álbuns hoje e recordei bastante daquela fase da vida onde a única preocupação era não ser reprovado na escola. Minha adolescência teve o sabor de Use Your Illusion I e II... E o tempo passou bem rápido!

Abraços fugidios e até a próxima.


Música incidental: Dylan e Rossi

Bob Dylan e Suze Rotolo.

As referências à cultura pop norte-americana no filme Vanilla Sky sempre me intrigaram; ou melhor: chamaram minha atenção, pois sou interessado em quase tudo que aborde a cultura de massas de uma maneira mais "erudita", por assim dizer. A película de Cameron Crowe é um remake fraco de Abre los ojos, do cineasta espanhol Alejandro Amenábar. No original, não vemos tanto a presença de elementos da cultura de massa na vida criada pelo protagonista da trama. Ao menos Cameron Crowe deu esse viés à sua produção. Enfim... não sei porque divaguei sobre Vanilla Sky neste momento. Mas é que Bob Dylan me recorda a capa de disco acima. E essa capa remete ao filme, em um de seus melhores momentos. E essa breve postagem deveria ser sobre Dylan e sua canção I Want You, gravada na década de sessenta. Esses dias, ouvindo-a pela centésima vez enquanto dirigia, notei como a canção brega Em Plena Lua de Mel, popularizada por Reginaldo Rossi, foi beber na harmonia daquele clássico do rock. Pesquisei na rede sobre isso e não vi nada a respeito. Para os fãs de Dylan (ou do Reginaldo Rossi), fica a deixa.

Mais tribunais para quê?




Recentemente acompanhamos bate-bocas entre Magistrados e Advogados e o Presidente da Suprema Corte brasileira, Ministro Joaquim Barbosa. Mesmo pessoas alheias ao mundo jurídico surpreendem-se com tais fatos. Evito falar sobre Direito e Justiça há vários meses porque o público deste blog (colegas virtuais e desconhecidos) acessam-no mais pelo conteúdo afim com livros, HQs e cinema. Mas como este espaço ainda se destina a mil e uma coisas (embora com poucos marcadores), darei meu ponto de vista.

Acho inoportuna a proposta de criação de mais Tribunais Regionais Federais em nosso País. Estas novas quatro Cortes dariam ao Erário uma despesa de quase 8,0 bilhões de reais ao ano. E para quê isso? Argumenta-se que será dado ao cidadão maior acesso à segunda instância da Justiça Federal, além de maior celeridade no julgamento de recursos e ações originárias do segundo grau de jurisdição. Pura abobrinha. O objetivo é tão somente criar as condições necessárias para promoções e remoções de Magistrados, além da criação de Cargos em Comissão e Funções de Confiança, destinadas ao agrado de gordos gabinetes. Só para a instalação dessas Cortes, a farra com dinheiro público em ajudas de custo seria de encher os olhos (dos beneficiários, claro).

Desde o ano de 2004, a Emenda Constitucional n.º 45 possibilitou às Cortes da União a criação de Câmaras Regionais. Se querem mais proximidade entre a segunda instância e o cidadão, por que não as instalam, em caráter permanente ou transitório? Simples: porque só daria cansaço a troco de nada mais do que a boa prestação do Serviço Público.

E parece que os defensores da criação dessas instituições não enxergam mais à frente. São imediatistas. Com a criação de mais Cortes, futuros pleitos de Magistrados e Servidores seriam fulminados com demonstrações do impacto orçamentário. E, assim, a população teria, a longo prazo, um Serviço Público sucateado, com recursos humanos desmotivados em razão de baixas remunerações, más instalações e péssimas condições de trabalho.

Esse é meu ponto de vista, resumidamente. E como é bom viver numa democracia, onde podemos nos expressar assim, desde que não ofendamos a honra de outrem e sem estarmos sob o véu do anonimato.

Um método perigoso [ Cinema ]


É fróid.

Penso que me tornei fã de David Cronenberg desde A Mosca (1986) e Scanners (1981); afinal, sou entusiasta do cinema trash e não perdia, quando garoto, nenhuma sessão do Cine Trash da TV Band, apresentada pelo José Mojica (na época, eu o conhecia apenas por Zé do Caixão). Assim, vi esta semana Um Método Perigoso, outra produção de David Cronenberg com seu ator mais "querido" dos últimos anos: Viggo Mortensen. É bom lembrar que foi no filme Senhores do Crimes (2007) - uma excelente obra de Cronenberg - que este ator recebeu sua indicação ao Oscar pela melhor performance.

Em Um Método Perigoso, passeamos por cenários europeus deslumbrantes do início do século passado, onde nascia a psicanálise. Relações de amizade, inveja e desejo surgem entre Sigmund Freud (Viggo Mortensen), Otto Gross (Vincent Cassel), Sabina Spielrein (Keira Knightley) e Carl Jung (Michael Fassbender). A trama se baseia na peça The Talking Cure, de Christopher Hampton, que romanceia fatos verídicos acerca da vida dos pais da "cura pela fala". Além do ótimo roteiro, destaco a fotografia belíssima e produção de arte impecável. Os cenários da Suíça e Áustria, por exemplo, nos deixam babando.

Outro mérito do filme foi enfeiar Keira Knightley sem muita maquiagem, apenas pela expressão de loucura da personagem por ele encarnada. Destaque para as cenas onde a pervertida leva uns "sopapos" de Carl Jung, relembrando o tesão que ela, quando criança, sentia ao apanhar do próprio pai. A inveja financeira nos olhos de Freud - em relação a Carl Jung - também merece aplausos. Viggo Mortensen reafirma-se como um grande ator, demonstrando bem sentimentos apenas com expressão, sem palavras.

Entre os momentos mais emblemáticos do filme, dou ênfase à chegada de Jung e Freud aos Estados Unidos, para uma convenção médica. Ainda no navio, olhando A Estátua da Liberdade, Jung diz: "Na minha opinião, o que estamos vendo é o futuro", ao que Freud responde: "Acha que eles sabem que estamos a caminho, levando-lhes a praga?". Será que alguém, há mais de um século, acreditaria que essa frase poderia ser representada no grande mercado - nos dias de hoje - das terapias e análises que movimentam milhões, cotidianamente, na América?

Sempre fui interessado em "sincronicidades" ou "coincidências significativas", melhores desenvolvidas nos trabalho de Carl Jung. No filme, essas posições são sugeridas, quando, por diversas vezes, Jung diz não acreditar em mero acaso. Poderiam ter melhor explorado isso, talvez. Mas a mera sugestão a essas teorias foram satisfatórias. Afinal, a produção não objetiva dissecar teorias dos pensadores ali retratados. Talvez uma abordagem mais técnica comprometesse o entretenimento esperado. Além de tudo, o filme não enche linguiça. Possui em torno de uma hora e meia, sem excessos. Um ótima opção para quem quer ver algo bacana, sem risco de decepção e perda de tempo.

Do mesmo cineasta, recomendo, ainda Marcas da Violência (2005).

O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas? [ HQ, review ]


Imagem de meu exemplar.
- Eu morri?
- Ainda não.
-  Diga o que está havendo.
- Bruce, você é o maior detetive do mundo. Por que não descobre?


Comprei o encadernado O Que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas? na banca. Maravilha que só a Panini consegue fazer: colocar, em bancas, um encadernado capa dura, com papel cuchê, a R$ 21,90. Todas as editoras dão suas cagadas e com a Panini não é diferente. Mas, ao menos, vez ou outra, somos surpreendidos com coisas bacanas assim. O encadernado nos traz mais três histórias do Cruzado Encapuzado escritas pelo genial Neil Gaiman: Um Mundo em Preto e Branco, já publicada em Batman Preto e Branco pela própria Panini (livro que recomendo); Pavana, para mim então ainda inédita; e a bacana Pecados Originais - Quando Uma Porta, que li pela primeira vez quando tinha meus treze ou catorze anos de idade, no Superalmanaque DC n.º 01 - Origens Secretas. Infelizmente, perdi este último gibi (formatinho robusto editado pela Abril em 1990) numa mudança.

Aqui, quero comentar brevemente apenas a primeira história, que dá título ao volume. Afinal, pouca gente lê grandes textos em internet.

A história Whatever happened to the caped crusader? foi escrita por Gaiman e ilustrada por Andy Kubert para ser a última do Homem Morcego. Ou melhor: para ser a última de uma fase do Batman, antes do reboot. E como deveria ser a última história desse medalhão da DC? Ora, por que não sua morte? Mas todos estamos cansados de mortes em quadrinhos, onde, em poucas edições, o herói retorna de uma maneira mal contada e oportunista. Com Gaiman é diferente. A morte de Batman não é física; mas, sim, literária. Ou melhor: Batman reflete, durante seu funeral no Beco do Crime, sobre seus passados editoriais, televisivos e cinematográficos, e aguarda, ao lado de uma entidade misteriosa, sua próxima "revisão", por assim dizer. Não vou estender demais, pois perderia a graça e acabaria entregando o melhor da trama. O que falei, aqui, foi minha interpretação. Mas cada um pode retirar conclusões diferentes.

O trabalho de Andy Kubert está magnífico. E Batman nos é apresentado em diversas "versões". Não só ele, mas, também, os vilões. Destaque para os "Coringas" de Jerry Robinson, Brian Bolland e Dave McKean. Sobre o trabalho, o próprio artista explicou a Gaiman o caminho que trilhou para chegar aquele resultado, ao tentar "emular" o traço dos artistas que deixaram sua marca nos contos do Morcego: "Não tentei desenhar como eles. Tentei desenhar como se os artistas que você citou tentassem desenhar como eu".

O título remete à clássica HQ escrita por Alan Moore para o Superman: Whatever Happened to the Man of Tomorrow?, com arte de Curt Swan. Tal ideia de aproveitar o título partiu um pouco do editor Dan DiDio, sendo incorporada pelo próprio Neil Gaiman. Mas essa não é a única semelhança com a obra de Moore. Notei que a ideia central desenvolvida na HQ de Batman é a mesma que Alan Moore utilizou nos primeiros capítulos de Supremo - A Era de Ouro, da Image, sobre "revisionismos", jogando com a metalinguagem. Mas em nada essa semelhança desabona o trabalho de Gaiman/Kubert.

Achei o final da trama bonito, com Batman despedindo-se dos elementos que compuseram sua existência, enquanto se prepara para uma nova jornada, para uma nova "revisão". A própria última história de "uma das vidas" do Cavaleiro das Trevas é um caso que ele precisa solucionar, descobrindo se está, ou não, morto. Demorei a ler essa HQ por puro preconceito, admito. Pensei que seria mais um caça níquel. No entanto, é uma boa história estrelada pelo maior herói dos quadrinhos. Vale a pena, ainda mais pelo preço.


Pinóquio de Winshluss e a cagada da Editora Globo [ a qual foi devidamente corrigida ]


Imagem de meu exemplar.

Na madrugada de hoje li a melhor HQ do ano (ao menos, para mim): Pinóquio, escrita e ilustrada por Winshluss (pseudônimo do francês Vincent Paronnaud), editada no Brasil pela Globo, em capa dura com papel offset 180 g/m² (material bem grossinho), colorido, no formatão 21 x 29 cm, com 192 páginas e tradução de Carol Bensimon. Acredito que 95% do álbum é mudo. A narrativa é puramente gráfica, exceto por pouco momentos de pensamentos e diálogos do personagem Jiminy Barata (o inseto que se aloja na cabeça de Pinóquio, a fim de desempenhar papel similar ao do Grilo falante que se torna a "consciência" do personagem, na fábula que conhecemos). A colorização é uma obra de arte à parte, realizada por três artistas. Em vários momentos, as ilustrações mais bonitas da obra, em razão do apuro de cores - emulando ilustrações de livros infantis clássicos - ganham uma página inteira, funcionando como forma de divisão de capítulos. O tratamento editorial da Globo é quase impecável, se não fosse por um erro grosseiro que comprometeu bastante a compreensão do desenrolar da trama. No volume que tenho em mãos (não pude comparar com outros, vez que o comprei pela internet), a partir da página 144, pulam para a 155, retornando, em seguida, para a 153, continuando da 159 e, mais à frente, repetindo as páginas 155 e 156. As páginas inexistentes fizeram bastante falta, nos deixando sem compreensão de como Gepeto perdeu, novamente, Pinóquio, logo após resgatá-lo. Terei que baixar a obra em scans para ver o que faltou. Um grande e inescusável descuido por parte da Editora Globo, que fez lambança ao publicar o melhor gibi do ano. Na trama, o inventor Gepeto constrói um garoto de metal para uso militar, mas quando Jiminy Barata muda-se para um espaço em sua cabeça e muda alguns cabos, algo sai do controle. Pinóquio assassina a esposa de Gepeto - Svetlana, que utilizava o grande nariz do boneco para fins sexuais - e foge pelo mundo, encontrando de tudo um pouco, inclusive uma versão lésbica de Branca de Neve, mantida em cativeiro para ser explorada pelo Sete Sacanas. Violência, poluição ambiental, miséria e exploração humana de todo gênero permeia a jornada do boneco, tudo muito bem amarrado pelo autor, sem deixar a desejar em momento algum. Há espaço até para o mercado negro de órgãos humanos. Uma boa sacada (dentre tantas) foi a criação de um monstro marinho em razão do lixo tóxico despejado nos oceanos - no lugar da baleia da fábula escrita por Carlo Collodi - que acaba engolindo Gepeto e seu filho mecânico.

P.s.: após esta postagem, recebi contato da editora por meio do blogue anterior e ela me enviou os dados para a troca da edição.

Decepção com "Ouro da Casa" [HQ]


Imagem de meu exemplar.

Edição especial, formato 19 x 27,5 cm, 200 páginas, R$ 64,00 em capa dura e R$ 49,90 em capa cartonada, à venda em livrarias e bancas especializadas.

Foi dada oportunidade a todos os funcionários dos estúdios Maurício de Sousa: roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, ilustradores, coloristas, letristas, editores, designers, animadores e escultores. E os caras jogaram esse momento pela janela, elaborando HQs, cartuns e pin-ups insossas, descartáveis. A publicação é o maior exemplo de desleixo artístico do ano. Meu ponto de vista, claro. Mas confira e faça suas constatações.

Se os três volumes MSP por cento e cinquenta e artistas foram um sucesso, com releituras inteligentes, diferentes e instigantes, além de possuir cartuns e tirinhas bem elaboradas e pin-ups magníficas, Ouro da Casa foi o inverso. Na trilogia MSP, participaram cento e cinquenta artistas sem vínculo com os estúdios da Turma da Mônica. Até Marcatti, o genial quadrinista da escatologia, teve sua vez e aproveitou. Aliás, até Bob Cuspe do cartunista Angeli bateu o ponto.

A trilogia acima citada foi o pontapé inicial para que se desse oportunidade aos artistas "da casa" para que elaborassem, com liberdade criativa (obedecendo a certos limites, claro, como vedação à violência e à putaria) e assinando os respectivos trabalhos. Aliás, foi a primeira vez que artistas do MSP receberam crédito pelo seu trabalho que não no expediente da publicação (acho). Deveriam mostrar o "ouro da casa". No entanto, não mereceram nem bronze.

Entre os piores trabalhos, destaco os de: Alice Keico Takeda (esposa de Maurício de Sousa), por mais linda que a Rosinha de Chico Bento tenha ficado; Marina Sousa (filha do Chefe), que tentou homenagear o passado de jornalista policial do pai em apenas uma página, mas falhou feio; as fotografias sem graça dos bonequinhos de massa de Michel Leonardo Costa (as duas páginas com pior desperdício em todo o volume, destituídas de qualquer propósito). A história em homenagem à infância do Maurício, elaborada em massinha por Flávio Teixeira de Jesus é uma das piores do álbum, ao lado da que lhe segue, de Marcos Fernando Alves da Silva, onde o instigante personagem Astronauta é desperdiçado em quatro páginas.

Houve bons momentos. Mas nenhum excepcional. Dentre os bons, destaco duas histórias com Rolo, de Wagner Ramari e Mauro Souza. No conto de Luciana Luppe Silva e José Aparecido temos um dos melhores momentos, onde uma explicação freudiana é dada para a tara de Cebolinha pelo coelho Sansão. Ao menos o volume não é um lixo total. Quem é muito fã da Turma da Mônica, pode até comprar a edição pelo seu valor histórico etc. E por apego aos personagens. Mas, para os demais leitores, é desperdício de dinheiro. Comprei a versão capa dura, mas ao menos consegui desconto de capa e ainda utilizei um cupom. Assim, a decepção não foi maior.

O final do livro traz uma matéria sobre o processo de elaboração de HQs. Fiquei surpreso com o fato de que o letreiramento é feito à mão! As últimas onze páginas são utilizadas para fotografias e minibiografias do pessoal envolvido no projeto. Muitas páginas, hein? Ainda mais considerando que aquele pessoal jogou fora uma grande oportunidade de mostrar serviço.

Os monstros de Gustavo Duarte [ HQ, Resenha ]



Planeta Terra, cidade... Santos (!?)

O velho Pinô, dono de bar, vive uma história de pescador. Em um dia, enfrenta três monstros gigantes sem deixar cair o palito de dentes da boca. Essa é a trama de Monstros!, última HQ de Gustavo Duarte. Já dei uma geral no trabalho desse magnífico artista aqui no blog. Quem gosta da nona arte precisa conferir a produção quadrinística desse premiado chargista esportivo. Esta é sua quarta HQ, saindo pela primeira vez por uma editora. E, como sempre, a Quadrinhos na Cia fez um trabalho primoroso: capa cartonada com orelhas e papel de elevada gramatura, em três cores. Esse belo álbum no formato 18 x 25 cm custa R$ 35,00 (mas comprei por R$ 20,00).

A obra - totalmente sem balão de texto ou recordatório - é uma grande homenagem ao tokusatsu e às monstruosidades a la Godzilla que sempre surgem do oceano para destruir a cidade de Tókio. Aliás, a HQ é dedicada ao Dr.º Gori, o macaco superinteligente que quer dominar a Terra no seriado Spectreman (para quem assistia à finada Tv Manchete, é muito bacana ver essa menção). Como sempre, Gustavo Duarte nos dá uma história simples, porém esperta e bem elaborada, com um final que não deixa a desejar. Destaco as referências às suas obras anteriores (Taxi, Sem Sal etc.), ao white russian (licor de café com leite, às vezes com um pouco de vodca, do jeito que o grande Lebowski gosta) e, para variar (!) à bandeira do clube esportivo Bauru pendurada por algum personagem.

A próxima HQ a ser publicada por Gustavo Duarte será a graphic novel do Chico Bento, pelo mesmo selo e formato de Magnetar com o Astronauta, de Danilo Beyruth, lançada pela Panini no mês passado. Estou no aguardo. A seguir, fique com uma página de Monstros! e aprecie o traço impecável do autor.







HQs de Danilo Beyruth


Imagem de minha coleção.

Muita gente que não acompanha quadrinhos fora do mainstream (DC, Marvel, Disney, MSP, mangás etc.) passou a se interessar pelo trabalho de Danilo Beyruth após sua Astronauta Magnetar, a primeira HQ do novíssimo selo Graphic MSP, onde autores nacionais, alheios aos estúdios de Maurício de Sousa, dão sua visão (releitura) dos personagens da Turma da Mônica. Já falei acerca desse ótimo gibi aqui no blog (dê uma conferida). Para aqueles que ainda não conhecem outros trabalho de Danilo Beyruth, recomendo dois álbuns que tenho prazer e orgulho em ter na coleção: Bando de Dois e Necronauta - O Almanaque dos Mortos, ambos editados pela Zarabatana Books. Retirei algumas fotografias para ilustrar essa postagem e possibilitar aos leitores uma visão da qualidade das publicações (brochuras com capa cartonada, mas com ótimo acabamento, sendo Necronauta impressa em papel cuchê e Bando de Dois em papel tipo offset).

Em Bando de Dois, o cangaceiro Tinhoso, após sobreviver a uma emboscada da volante do Tenente Honório, sonha com o bando recém massacrado pedindo por liberdade. Junto com ele, Cavêra di Boi, outro membro do bando, escapa. Devido a esse sonho, os dois saem em busca das cabeças cortadas pelo Tenente – embora fiquemos sabendo que a motivação de Cavêra é outra. No pequeno povoado de Nova Nazaré, uma população vive à míngua em volta da igreja, apoiada na crença de uma revelação, guiados por um Padre messiânico. Esse é o mote para o desenrolar de um bangue-bangue sertanejo, que explora a violência, marginalidade e fé de uma árida região brasileira. Com o mesmo tema de cangaço que Estórias Gerais (escrita pelo acadêmico Dr. Wellington Srbek e ilustrada por Flávio Colin), esta HQ é uma magnífica história.

Necronautaé uma brincadeira bem sucedida, sobre um "herói" cuja função é resgatar almas presas ao plano terreno, encaminhando-as para a "luz"; ou seja: ao descanso eterno. Ele não é o único nessa função. Na última história de Almanaque dos Mortos, conhecemos diversos "necronautas" (com outros nomes, claro) com especialidades específicas de resgate. Além das HQs, diversos artistas contribuíram para a obra com pin-ups, como no exemplo da primeira fotografia abaixo. Por se tratar de um "almanaque", também há passatempos macabros, simples e divertidos. Um gibi bacana!

We3 de Grant Morrison e Frank Quitely


Imagem de meu exemplar.

Já faz algum tempo que lançaram We3, de Grant Morrison e Frank Quitely (dupla abordada na postagem anterior, quando falei de Grandes Astros Superman). A trama é simples: três animais domésticos são capturados pela Força Aérea gringa para o desenvolvimento de armamentos, baseados em robótica. Assim, eles recebem modificação genética e um exoesqueleto resistente, forte e com diversas armas, inclusive explosivos que - prestando bem atenção - são expelidos pelos ânus das máquinas. Quando ameaçados de abatimento pelo Chefe da operação militar, os três fogem e querem apenas retornar às suas casas. Enquanto buscam seus lares, são caçados pelo Estado, diante da ameaça que representam. E, enfim, é só isso. Uma história simples e bacana, sem as chateações de Grant Morrison sobre misticismo, ciência fajuta para leigos e demais abobrinhas. A arte de Quitely é primorosa e temos, na HQ, ângulos não usuais. O título é uma brincadeira em inglês, idioma original da obra. Enquanto representa Animal Weapon 3 (Arma Animal versão #03), também diz respeito à condição de equipe do time de animais, que reconhecem a necessidade de se manterem unidos e repetem sempre isso: We 3 (ou: nós três). Essencialmente, a história lida com a antiga relação entre homem e animal. É bonita a paixão da personagem Roseanne pelos bichos/armas. Além disso, o final da história fecha bem esse propósito mais do que explícito da HQ. É a segunda vez que essa publicação surge em nossa terrinha. Diferentemente da primeira edição (2006), essa trás mais dez páginas inéditas da trama, possui extras e capa dura. Preço informado: R$ 45,00. Mas comprei por R$ 25,00 utilizando desconto progressivo e bônus, além de um desconto de capa que já era ofertado pela Saraiva. Certamente, a HQ seria mais barata sem as desnecessárias vinte e oito páginas de extras com esboços e comentários que não interessam a quase nenhum leitor. Há algum tempo, ando puto da vida com esse desperdício de páginas. Já falei sobre isso na resenha de O Incrível Cabeça de Parafuso. De qualquer forma, considerando a possibilidade de comprar o livro por valor bem abaixo do preço de capa, recomendo. A história é ótima. Vale muito a pena. E o encadernado está caprichado.




Manchester à beira-mar e o ativismo acéfalo



Não vou ao cinema há alguns anos. Não sei bem explicar a razão. Mas encontro mais motivos para assistir em casa do que em cinemas. Gosto do conforto de meu sofá, comendo o que quero, com banheiro ao lado, tomando cerveja, café e fumando, tudo na temperatura certa. Também cansei de pagar ingresso caro para custear a meia entrada das carteirinhas da UNE. E, há um ano e meio, tenho uma filha. Não posso levá-la ao cinema para ver dramas ou suspenses e não tenho o direito de incomodar as pessoas com choro de bebê. Além de tudo, não gosto de ficar distante dela quando estou com tempo livre. Meu tempo livre é próximo à minha bebê, esteja eu assistindo, lendo ou, como agora, escrevendo esta postagem.

Essa é outra coisa que não explicar: a sensação de distância imensa que sinto quando estou apenas a uns dois ou cinco quilômetros distantes de minha filha. O cinema fica a dois quilômetros de minha casa. Mas, realmente, no momento, prefiro não ir. Se você for pai um dia, talvez tenha essa trava instalada quando pensar em fazer algum programa longe de sua cria. Assim, baixei Manchester à beira-mar em excelente resolução e vi em casa mesmo.

Casey Affleck chamou minha atenção em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford. Este, sim, vi no cinema. Aliás, foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante na ocasião. Em Manchester à beira-mar, encontrou seu lugar ao sol como ator e, finalmente, levou a estatueta careca para casa, para o desgosto da militância acéfala politicamente correta. Mas, como assim? Explico para quem não acompanha os "grandes" debates de páginas e fóruns de justiceiros sociais. Na premiação anterior, houve um expressivo movimento racial sobre as razões obscuras que levaram a Academia a não indicar negros. Para mim a razão é clara (sem trocadilho infame): a avaliação não é racial, mas de performance. Não há cota para prêmios de talentos. O que podemos fazer? Chegaremos ao cúmulo do que houve no último Miss Helsínquia, onde uma imigrante sem qualquer traço nativo do local foi eleita para se fazer justiça social pró imigração? Foi algo tão medonho quanto eleger uma mulher com corpo e feições de Gisele Bündchen a Miss Ruanda. Obviamente, neste último caso, haveria estardalhaço por parte de todos, especialmente da grande mídia progressista. Nesta premiação - de acordo com alguns nichos de ativismo racial e político - seria grande injustiça Denzel Washington não arrebatar a estatueta, para fins de representatividade e porque a Academia andaria em débito com os negros. E olha que estamos falando de uma academia maciçamente progressista e que já reconheceu por duas vezes o grande trabalho de Denzel. Só que, em regra, não dá para forçar a barra. Muitas decisões da premiação foram questionáveis. Grandes nomes já ficaram sem reconhecimento institucional justamente diante de engajamento político "inadequado" (para os padrões de Hollywood, claro). Daria muito na cara não premiar Casey Affleck por ser branco e citado por assédio sexual.

As denunciações por assédio foram feitas anos após o fato e resolvidas com grana fora dos tribunais. Podem ter acontecido ou não. Quem saberá? O que ocorre nos bastidores de Hollywood regado a pó, álcool e sexo só eles sabem. Algo pode ter saído do controle. Talvez as mulheres apenas quiseram depenar o cara, após alguns anos, quando começou a deslanchar mais na carreira e a chamar atenção. Ou, claro, Casey é mesmo um pervertido sem vergonha que merece taca na cadeia. Não sei se ele merece isso. Mas o Oscar, mereceu. Algumas pessoas apelantes ao sexismo tentam nos incriminar como cúmplices, ao acharmos natural o melhor ator do ano ser premiado como... o melhor ator do ano. Apelam para frases-feitas como "Você não tem mãe e filha?". Sim, mas também tenho pai e irmão; quem sabe, um dia, um filho. E não os quero sendo boicotados por cor de pele ou denúncia vazia; muito menos por sexismo interesseiro a troco de grana ou holofote.

Resumidamente: vamos deixar o mimimi de lado. O pervertido mereceu o Oscar, seja lá o que isso represente nos dias de hoje. O que ele andaria aprontando com sua piroca deve ser resolvido fora do tapete vermelho.


Manchester by the Sea - Official Trailer (HD) por TrailersyEstrenos

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Quadrinhos no cinema [ Sugestões ]


Gosto de filme cujo pano de fundo seja a produção de histórias em quadrinhos. Por isso resolvi fazer esta postagem, que (talvez) irei atualizando aos poucos. De início, cito quatro produções legais onde as HQs se fazem presentes: Corpo Fechado, Procura-se Amy, Kick-Ass e Anti-Herói Americano.

Corpo Fechado (Unbreakable, 2000).
Em Corpo Fechado, Bruce Willis e Samuel L. Jackson encarnam a mitologia do Homem de Aço integrado à população cuja existência pressupõe a de um arqui-inimigo frio, cruel e inteligente. Destaque para a presença dos quadrinhos na vida de Elijah Price interpretado por Samuel L. Jackson. Possuindo uma doença rara que torna seus ossos frágeis, Price vive na segurança de seu lar, tendo os quadrinhos como companhia. Ao crescer, torna-se dono da Limited Edition - loja de artes originais e HQs raras. Ao conhecer David Dunn, vivido por Bruce Willis, acredita que este é um super-heróis, pois nunca adoeceu e sempre sai ileso de acidentes, além de possuir extrema força física. O filme é de M. Night Shyamalan  mais conhecido por obras como A Vila e O Sexto Sentido. O ilustrador Alex Ross (Malvels, Justiça e Os Maiores Super-Heróis do Mundo) ofereceu consultoria artística.

Procura-se Amy (Chasing Amy, 1997).
Procura-se Amy nos dá um pouco do submundo dos quadrinhos independentes. Ben Affleck vive um autor de HQs baseadas em dois colegas seus, ao tempo em que conhece uma das garotas mais vagabundas que já vi ser retratada no cinema e por ela se apaixona. Este filme integra a A Trilogia de "Jersey" do cineasta Kevin Smith.

Kick-Ass (2010) e sua continuação.
Acredito que Kick-Ass dispensa maiores apresentações para quem é fã de quadrinhos. Baseada da HQ escrita por Mark Millar (Guerra Civil, Os Supremos), a película retrata, sem rodeios e com bastante crueza, o momento em que garotos fãs de quadrinhos resolvem tornar-se heróis. Várias cenas do filme se passam num  comic shop (foto acima), e o papo sobre HQs é constante.

Anti-herói Americano (American Splendor, 2003).
De todos os filmes aqui citados, acho Anti-herói Americano o melhor. O título original American Splendor remete à HQ underground escrita por Harvey Pekar. Algumas imagens do verdadeiro Pekar são utilizadas na produção do longa e destaco os momentos onde conhecemos um pouco da relação de amizade surgida entre ele e Robert Crumb, que ilustrou diversos trabalhos de Harvey.

Livros que nos mudam



Há livros que nos marcam. Isso parece bobo de se dizer. Cresci ouvindo a mesma ladainha. Mas é verdade. Não só livros: toda forma de expressão por meio da arte possui o poder de nos transformar; se não significantemente, ao menos deixa rastros em nosso espírito. Hoje, revisitando a estante empoeirada, fui direto a duas obras que mudaram minha forma de ver o mundo.

A primeira é O Jogo das Contas de Vidro, do escritor alemão Hermann Hesse, laureado com o Nobel de Literatura em 1946. É um romance de formação (acho). Nele, acompanhei um pouco da vida de José Servo, desde a infância até sua consolidação no posto de Magister Ludi na fictícia comunidade intelectual de Castália. Não entregarei muito do enredo, pois este não é objetivo desta postagem. Na história, Hermann Hesse - cânon da Literatura ocidental - concebe uma sociedade intelectualmente avançada - Castália - que mantém em suas cercanias as mentes mais brilhantes, dedicadas ao cultivo do conhecimento humano. Em especial, o culto à razão fica evidente na atenção que conferem à Matemática e à Música. Reunindo todas as formas de cultura e de conhecimento, Castália promove regularmente O Jogo de Avelórios. Este "jogo" nunca foi devidamente esmiuçado por Hesse, que apenas no passa uma ideia de sua complexidade. José Servo, como Mestre do Jogo de Avelórios, assume o encargo de organizá-lo. Entretanto, aliada ao culto pelo conhecimento puro, a vida em Castália é conduzida por uma cotidiana e extensa busca espiritual, por meio de meditação. Não é à toa que a obra é dedicada "aos peregrinos do Oriente". Acompanhar a trajetória espiritual de José Servo mudou algo mim: justamente... o reconhecimento da vontade de mudar. Um dia, talvez, chegue lá.
"As regras, a linguagem figurada e a gramática do jogo constituem uma espécie de linguagem oculta altamente evoluída de que participam várias ciências e artes, especialmente a matemática e a música (ou seja, a musicologia). Tal linguagem tem a possibilidade de expor o conteúdo e os resultados de quase todas as ciências e de relacioná-los entre si. O Jogo de Avelórios contém, portanto, a suma e os valores de nossa cultura, manejando-os assim como, na época do apogeu das artes, um pintor maneja as cores de sua paleta. Todos os conhecimentos, pensamentos excelsos e obras de arte que a humanidade produziu em suas épocas criadoras, tudo que os períodos posteriores produziram em eruditas considerações sob a forma de conceitos, apropriando-se intelectualmente daquele poder criador, todo esse imenso material de valores espirituais é manejado pelo jogador de avelórios como o órgão é tocado pelo organista." (Trecho de O Jogo...).
O segundo livro foi O Arco-Íris da Gravidade, do enigmático norte-americano Thomas Pynchon (alguém realmente já o viu por aí?). Acho uma obra impossível de resenhar. Antes de ler o calhamaço delirante de Pynchon, nunca supus o que é realmente possível fazer em matéria de escrita. Sempre achei normal assistir a filmes ou a seriados recheados com cenas malucas, edições mirabolantes e delírios. David Lynch, aliás, está aí para isso. Mas como imaginar que seria possível, numa narrativa escrita, construir uma trama enciclopédica, recheada de referências à linguagem cinematográfica, musical e das histórias em quadrinhos, extremamente psicodélica, nos revelando o que realmente vem a ser o estado mais refinado de paranoia e entropia? Só em Thomas Pynchon. Neste seu romance icônico, temos personagens que somem sem explicação para ressurgirem noutra roupagem, complôs secretos internacionais que utilizam truques cinematográficos para abalar adversários, homens que caem privada adentro e nadam entre cocôs gigantes, taras de toda a natureza em plena Segunda Grande Guerra e um homem que prevê onde um míssil V2 poderá cair em razão de suas ereções. Curioso ou complicado? Leiam o romance.
Um grito atravessa o céu. Já aconteceu antes, mas nada que se compare com esta vez. 
É tarde demais. A Evacuação ainda continua, mas é tudo teatro. Não há luzes dentro dos vagões. Não há luz em lugar nenhum. Acima de sua cabeça elevam-se vigas velhas como uma rainha de aço, e em algum lugar lá no alto vidro que deixaria entrar a luz do dia. Mas é noite. Ele tem medo do modo como o vidro vai cair – em breve –, vai ser um espetáculo: o desabamento. Porém caindo na escuridão total, sem nenhum lampejo de luz, só um grande estrondo invisível. (Início de O Arco-Íris...).
Eu gostaria de destacar outros livros igualmente relevantes à minha formação humana. Mais à frente, talvez o faça. De qualquer maneira, ficam as sugestões a quem pretende buscar aventuras mais ousadas neste novo ano (no campo da leitura, claro). Demais dados bibliográficos são facilmente encontrados na rede. Abraços!


Status Humor [ Livros, Cartuns ]



Não acompanhei o sucesso da revista masculina Status, pois era muito jovem quando ela encerrou suas atividades pela primeira vez. Quando passei a me interessar por mulher pelada, as revistas mais facilmente encontradas eram Sexy Playboy. Via algumas edições surradas de Status em sebos e nas residências de pessoas mais velhas. Só que nunca me atraíram tanto. Sei de sua trajetória mais em razão de pesquisas na internet e em razão do suplemento Humor, onde bons cartunistas de todo o mundo tinham vez. Em abril de 2011, a editora Três (a mesma que editava a publicação nas décadas áureas de '70 e '80) apostou, novamente, no título. Até onde reparei, é, agora, algo voltado mais à sugestão erótica do que ao nu feminino total.

Os suplementos de humor da Status não demoraram a ser compilados no formato livro. Além disso, essas edições traziam bastante material inédito. A ênfase era a produção de autores nacionais, franceses e argentinos. Dentre os nacionais, encontramos desde medalhões como Millôr e Jaguar a outros que sumiram do mapa sem deixar muitos rastros - a não ser uns poucos desenhos. Dos argentinos, destacam-se Quino (certamente) e Fontanarrosa. Encontramos ainda grandes nomes como Sempé, Pat Mallet e Anscomb. E os livros são bem organizados, com divisão por artistas com uma breve introdução sobre seus trabalhos e trajetória. A maioria dos cartuns possuem teor erótico, mas nunca pornográfico, e se revesam entre coloridos e P&B, numa ótima impressão em razão da qualidade elevada do papel. A capa dura, sem dúvidas, ajudou consideravelmente na preservação do material.

Sempre quis alguns desses volumes. Mas só encontrava material em péssimo estado e por preços absurdos. Até que, há pouco tempo, achei para venda cinco edições, cada uma por R$ 14,00 e em ótimo estado. O único problema foi um dos livros com a lombada avariada na parte superior. Mas nenhum item tem páginas rasgadas ou riscadas e as marcas de oxidação são mínimas. São aqueles tesouros que descobrimos entre as tralhas de alguns livreiros.





Livro, Isto: Cartuns, uma obra de Chico França



Uma obra reunindo minha paixão por livros e cartuns, é isto que representa a coletânea Livro, Isto: Cartuns, de Chico França. São mais de oitenta páginas apenas com trabalhos voltados ao mundo da leitura: o livro em si, enquanto objeto tátil; as letras do alfabeto que o compõem e sua simbiótica relação com o gênero humano; os apetrechos utilizados na leitura, como óculos, mesas e abajures etc.. E isso tudo à maneira clássica de ilustrar: papel, punho, tinta e talento, sem recorrer a ferramentas digitais. Aliás, no prefácio à obra, o artista gráfico Guto Lacaz ressalta tal aspecto da produção de Chico França: “Amizade moderna, me enviou um link pelo face, abri e.... Abracadabra! - cruzes! Era um cartunista, e dos bons! Difícil de se ver nesse mundo de photoshops, efeitos e layers. Era preto no branco – o jeito clássico.”. Admiro, sobretudo, a capacidade monstruosa desse cara em produzir uma série monotemática tão boa de desenhos de humor. Fazer bons cartuns já é para poucos; produzir dezenas deles, então, com um mesmo tema... Ufa!

Livro, isto: cartuns. Chico França. Editora Terceiro Nome. Brochura sem orelhas com 88 páginas em papel pólen, com tamanho de 21cm². Extremamente recomendado para quem gosta de desenhos de humor de elevada qualidade estética e, sobretudo, perspicácia. Enfim, um livro para quase ninguém (!).





A Chegada, de Shaun Tan [ HQ ]



Hoje li uma obra prima dos quadrinhos atuais: A Chegada, do australiano Shaun Tan. O livro é daqueles que tinha tudo para não dar certo, em razão da extrema - porém, aparente - pretensão do autor em narrar, por meio de um álbum de fotografias - sem balões de texto ou recordatórios; aliás, sem palavra estampada em lugar algum - a jornada de um imigrante buscando melhor vida numa terra estranha e fantástica, precisando, para isso, manter-se distante de sua esposa e filha por bastante tempo.

O tratamento da Edições SM é impecável: formatão (19,5 x 30,5 cm), capa dura e papel cuchê. As cores variam, mas são do preto e branco e cinza aos tons de sépia, emulando velhas fotografias do início do século passado, que tanto vemos nos livros de História. Conferi umas imagens das edições estrangeiras desse álbum e notei que a editora brasileira procurou aproximar o formato ao usual lá fora, em vários países. Assim, publicaram em nossa terrinha uma belíssima obra da nona arte sem descuidar do esmero. Parabéns aos editores brazucas. E o preço é justo: R$ 48,00.

Na história, conhecemos a vida do cidadão que deixa sua família para trás e embarca no navio rumo a uma cidade aparentemente sem fronteiras, onde tudo é magnífico e totalmente estranho ao que ele conhece, desde os símbolos empregados para comunicação e à tecnologia quase fantástica até mesmo ao modo de vida peculiar, incluindo a forte presença de animais de estimação na vida dos habitantes daquela nação. Notamos que cada cidadão possui um bichinho à sua sombra, como um apêndice. Aos poucos, até mesmo nosso imigrante se apega a um. Essa relação entre homem e animal é muito bonita no livro.

As imagens aparentemente fantasiosas presentes nos relatos mudos não causam estranheza. As metáforas são claras. Assim, para representar o medo da cidade natal do protagonista, o autor põe nas ruas grandes caudas que serpenteiam, sempre presentes. O que seriam aquelas imagens? Tanto faz: miséria, violência, doenças etc. Em um determinado momento, o protagonista é bem acolhido na residência de uma família de imigrantes já bem enraizados na nova pátria. Neste momento, nos deparamos com um relato aparentemente absurdo, onde aquela família teria sido expulsa de sua pátria por seres gigantes trajando roupas de amianto e lança-chamas que, além de sua função normal, também sugam as pessoas. Seria esse gigantes soldados de outro País invadindo aquela terra ou oportunistas empreendendo uma limpeza étnica? Não nos interessa tanto. Afinal, a mensagem fica clara, sobre o que pode impulsionar o homem a abandonar seu lar.

A geringonças mágicas representam bem o avanço tecnológico de outras nações. Afinal, tecnologia é vista como magia por pessoas que sempre viveram sem acesso a nada além do básico à sobrevivência.

A solidariedade é sempre tocada na obra. O "herói" da trama é bem recebido por todos, sempre solícitos em lhe ajudar. E, na última cena da obra (ou melhor: na última fotografia do álbum) vemos como essa cultura é repassada. Todos se ajudam, até mesmo os animais, na intenção de criar uma nação a todos próspera. Não há como não associar essa chegada à imigração de europeus à América nas primeiras décadas do século XX. A triagem do imigrantes (inclusive os exames de saúde) nos remete à Ilha Ellis, nos Estados Unidos. E as grandes estátuas na chegada nos recordam a Estátua da Liberdade e diversos outros monumentos de países livres.

Aqui no blogue já comentei diversas obras "mudas". Acredito que o desafio máximo de qualquer quadrinista é elaborar algo assim. É um trabalho para poucos. Recomendo, sempre, esses ápices da narrativa gráfica, a exemplo de O Sistema, Pinóquio e obras de Gustavo Duarte, incluindo a mais recente Monstros!. Enfim, é isso. Li, gostei e queria recomendar a todos que gostam de boas HQs.



Reflexos e Sombras [ Saul Steinberg e Aldo Buzzi ]


Saul Steinberg com recorte de si quando criança. Foto de Evelyn Hofer, 1978.

Na década de setenta, Aldo Buzzi esteve duas vezes na casa de campo de Saul Steinberg em Springs, Long Island. Em alguns momentos, gravaram longas conversas em meio magnético. Anos à frente, Aldo Buzzi (amigo Steinberg de longa data, desde que estudaram Arquitetura em Milão no final da década de trinta) transcreveu parte dessas conversas e editou o volume “Riflessi e Ombre”, pela editora Adelphi em 2001. O Instituto Moreira Salles, por ocasião da exposição As Aventuras da Linha, publicou a tradução dessa obra em 2011. Li ontem. E adorei.

Este blogue dedica diversas postagens à divulgação do trabalho do artista gráfico Saul Steinberg, romeno naturalizado norte-americano e mais conhecido em razão de sua longa contribuição à revista The New Yorquer, verdadeira instituição americana. Instituição relevante em nosso País (faço este aparte), por sua vez, é o Instituto Moreira Salles. Seu catálogo para a exposição As Aventuras da Linhafoi o primeiro portfólio editado no Brasil com as obras do desenhista (salvo engano). Além disso, merece todo o nosso apreço por nos dar, com tradução de Samuel Titan Júnior e ampla seleção de imagens (realizada pelo tradutor, Roberta Saraiva e Sheila Schwartz) esse livrinho onde conhecemos um pouco da trajetória pessoal e artística de Steinberg. O IMS vem exercendo um papel relevante na vida cultural nacional. Esses dias, lendo a Fotobiografia de Clarice Lispector (trabalho de Nádia Battella Gotlib publicado pela Edusp), descobri que a biblioteca pessoal da autora encontra-se preservada pelo Instituto. Também foi noticiado, há pouco tempo, que ele também está à frente da organização dos trabalhos encontrados no estúdio de Millôr Fernandes. É o dinheiro empregado em nome da arte e da cultura, preservando e divulgando conhecimento. Parabéns a todos os envolvidos. 

Saul Steinberg sempre mostrou perspicácia acurada na observação dos tipos humanos, especialmente do ianque. Seus desenhos são crítica e elogio ao modo de vida americano. Em Reflexos e Sombras, pude me deleitar com suas observações contundentes acerca da vida na miserável Romênia de sua juventude e na terra de belezas e horrores chamada Estados Unidos da América, onde todos são guiados pelo princípio constitucional da inexorável busca pela felicidade. Em um momento do livro, ele nos fala, por exemplo, dos vagabundos da Bowery de sua época, que viviam à margem da sociedade como opção de ser felizes daquela forma.

A edição é dividida em quatro capítulos. Os núcleos de cada capítulo são: 1) infância em Bucareste, 2) juventude na Itália, até o ápice da perseguição racial fascista, 3) ascensão profissional e visão do estilo de vida gringo e 4) suas observações quanto à vida de artista. Todo o volume é recheado com ilustrações (em íntima relação com o texto) e fotografias. O acabamento é de primeira: brochura com sobrecapa colada na lombada e papel tipo cuchê (garda chiara 150 g/m²). O único erro foi a escolha do material meio poroso para a sobrecapa, que absorve poeira, sujando-se facilmente.

No quarto capítulo, conheci a visão de Steinberg acerca do cartum. Descobri que ele meditou bastante quanto ao que faria (deveria ser feito), em relação ao desenho de humor. Destaco o seguinte trecho: “Eu mesmo sempre achei que, para exprimir certas coisas, devia transformá-las em brincadeiras, em jogos de palavras ou em algum tipo de estranheza: o chamado humor. Vestir a realidade para que ela possa ser “perdoada””. Em outro momento, fala mais acerca do ofício de cartunista: “Minha evolução começou de baixo, dos cartuns. Aprendi trabalhando e consegui escapar de alguns becos sem saída, vulgaridades do desenho humorístico e banalidades da arte comercial -, conservando sempre um pouco desse elemento de mediocridade, quase de vulgaridade, que não quero abandonar, pois o julgo necessário, à maneira de alguém que, mudando de classe social, não quer se separar da mulher e dos velhos amigos”.

Se você quer conhecer mais sobre Saul Steinberg e seu trabalho, recomendo o livro. Dá para encontrar novo e em diversos sebos. Ah, e o formato é meio “inusitado”: 15,5 x 18,5 cm. Bom para se levar a qualquer lugar. Ou deitar-se numa rede e folheá-lo, enquanto se “conversa” com esse gênio do traço, ainda hoje insuperável.






Saul Steinberg na Serpentine Gallery


O livro das imagens abaixo foi comprado num sebo. Na folha de rosto, há assinatura do antigo dono, ano e cidade de aquisição: Ricardo Lopes Pontes, London, 1986. O que terá ocorrido a este cidadão para se desfazer, assim, da obra? Sempre penso nisso quando encontro assinaturas e dedicatórias em livro usados. Gosto de livros assim, pois me chegam com história! Enfim... Geralmente, esta publicação é vendida como catálogo da exposição realizada em 1979 na Serpentine Gallery, nos meses de janeiro e fevereiro. Mas se trata, na verdade, de um souvenir, sugerido e escolhido pelo próprio Saul Steinberg por ocasião da mostra. São vinte e seis páginas em papel grosso, com capa cartonada, reproduzindo desenhos em P&B. Das ilustrações existentes no "libreto", apenas sete foram expostas na Serpentine. Legalzinho, hein? Ainda no tema "catálogo", recomendo a leitura da postagem sobre o editado pelo IMS para a exibição As Aventuras da Linha, ocorrida em nosso País.