terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Manchester à beira-mar e o ativismo acéfalo



Não vou ao cinema há alguns anos. Não sei bem explicar a razão. Mas encontro mais motivos para assistir em casa do que em cinemas. Gosto do conforto de meu sofá, comendo o que quero, com banheiro ao lado, tomando cerveja, café e fumando, tudo na temperatura certa. Também cansei de pagar ingresso caro para custear a meia entrada das carteirinhas da UNE. E, há um ano e meio, tenho uma filha. Não posso levá-la ao cinema para ver dramas ou suspenses e não tenho o direito de incomodar as pessoas com choro de bebê. Além de tudo, não gosto de ficar distante dela quando estou com tempo livre. Meu tempo livre é próximo à minha bebê, esteja eu assistindo, lendo ou, como agora, escrevendo esta postagem.

Essa é outra coisa que não explicar: a sensação de distância imensa que sinto quando estou apenas a uns dois ou cinco quilômetros distantes de minha filha. O cinema fica a dois quilômetros de minha casa. Mas, realmente, no momento, prefiro não ir. Se você for pai um dia, talvez tenha essa trava instalada quando pensar em fazer algum programa longe de sua cria. Assim, baixei Manchester à beira-mar em excelente resolução e vi em casa mesmo.

Casey Affleck chamou minha atenção em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford. Este, sim, vi no cinema. Aliás, foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante na ocasião. Em Manchester à beira-mar, encontrou seu lugar ao sol como ator e, finalmente, levou a estatueta careca para casa, para o desgosto da militância acéfala politicamente correta. Mas, como assim? Explico para quem não acompanha os "grandes" debates de páginas e fóruns de justiceiros sociais. Na premiação anterior, houve um expressivo movimento racial sobre as razões obscuras que levaram a Academia a não indicar negros. Para mim a razão é clara (sem trocadilho infame): a avaliação não é racial, mas de performance. Não há cota para prêmios de talentos. O que podemos fazer? Chegaremos ao cúmulo do que houve no último Miss Helsínquia, onde uma imigrante sem qualquer traço nativo do local foi eleita para se fazer justiça social pró imigração? Foi algo tão medonho quanto eleger uma mulher com corpo e feições de Gisele Bündchen a Miss Ruanda. Obviamente, neste último caso, haveria estardalhaço por parte de todos, especialmente da grande mídia progressista. Nesta premiação - de acordo com alguns nichos de ativismo racial e político - seria grande injustiça Denzel Washington não arrebatar a estatueta, para fins de representatividade e porque a Academia andaria em débito com os negros. E olha que estamos falando de uma academia maciçamente progressista e que já reconheceu por duas vezes o grande trabalho de Denzel. Só que, em regra, não dá para forçar a barra. Muitas decisões da premiação foram questionáveis. Grandes nomes já ficaram sem reconhecimento institucional justamente diante de engajamento político "inadequado" (para os padrões de Hollywood, claro). Daria muito na cara não premiar Casey Affleck por ser branco e citado por assédio sexual.

As denunciações por assédio foram feitas anos após o fato e resolvidas com grana fora dos tribunais. Podem ter acontecido ou não. Quem saberá? O que ocorre nos bastidores de Hollywood regado a pó, álcool e sexo só eles sabem. Algo pode ter saído do controle. Talvez as mulheres apenas quiseram depenar o cara, após alguns anos, quando começou a deslanchar mais na carreira e a chamar atenção. Ou, claro, Casey é mesmo um pervertido sem vergonha que merece taca na cadeia. Não sei se ele merece isso. Mas o Oscar, mereceu. Algumas pessoas apelantes ao sexismo tentam nos incriminar como cúmplices, ao acharmos natural o melhor ator do ano ser premiado como... o melhor ator do ano. Apelam para frases-feitas como "Você não tem mãe e filha?". Sim, mas também tenho pai e irmão; quem sabe, um dia, um filho. E não os quero sendo boicotados por cor de pele ou denúncia vazia; muito menos por sexismo interesseiro a troco de grana ou holofote.

Resumidamente: vamos deixar o mimimi de lado. O pervertido mereceu o Oscar, seja lá o que isso represente nos dias de hoje. O que ele andaria aprontando com sua piroca deve ser resolvido fora do tapete vermelho.


Manchester by the Sea - Official Trailer (HD) por TrailersyEstrenos

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Quadrinhos no cinema [ Sugestões ]


Gosto de filme cujo pano de fundo seja a produção de histórias em quadrinhos. Por isso resolvi fazer esta postagem, que (talvez) irei atualizando aos poucos. De início, cito quatro produções legais onde as HQs se fazem presentes: Corpo Fechado, Procura-se Amy, Kick-Ass e Anti-Herói Americano.

Corpo Fechado (Unbreakable, 2000).
Em Corpo Fechado, Bruce Willis e Samuel L. Jackson encarnam a mitologia do Homem de Aço integrado à população cuja existência pressupõe a de um arqui-inimigo frio, cruel e inteligente. Destaque para a presença dos quadrinhos na vida de Elijah Price interpretado por Samuel L. Jackson. Possuindo uma doença rara que torna seus ossos frágeis, Price vive na segurança de seu lar, tendo os quadrinhos como companhia. Ao crescer, torna-se dono da Limited Edition - loja de artes originais e HQs raras. Ao conhecer David Dunn, vivido por Bruce Willis, acredita que este é um super-heróis, pois nunca adoeceu e sempre sai ileso de acidentes, além de possuir extrema força física. O filme é de M. Night Shyamalan  mais conhecido por obras como A Vila e O Sexto Sentido. O ilustrador Alex Ross (Malvels, Justiça e Os Maiores Super-Heróis do Mundo) ofereceu consultoria artística.

Procura-se Amy (Chasing Amy, 1997).
Procura-se Amy nos dá um pouco do submundo dos quadrinhos independentes. Ben Affleck vive um autor de HQs baseadas em dois colegas seus, ao tempo em que conhece uma das garotas mais vagabundas que já vi ser retratada no cinema e por ela se apaixona. Este filme integra a A Trilogia de "Jersey" do cineasta Kevin Smith.

Kick-Ass (2010) e sua continuação.
Acredito que Kick-Ass dispensa maiores apresentações para quem é fã de quadrinhos. Baseada da HQ escrita por Mark Millar (Guerra Civil, Os Supremos), a película retrata, sem rodeios e com bastante crueza, o momento em que garotos fãs de quadrinhos resolvem tornar-se heróis. Várias cenas do filme se passam num  comic shop (foto acima), e o papo sobre HQs é constante.

Anti-herói Americano (American Splendor, 2003).
De todos os filmes aqui citados, acho Anti-herói Americano o melhor. O título original American Splendor remete à HQ underground escrita por Harvey Pekar. Algumas imagens do verdadeiro Pekar são utilizadas na produção do longa e destaco os momentos onde conhecemos um pouco da relação de amizade surgida entre ele e Robert Crumb, que ilustrou diversos trabalhos de Harvey.