terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Mais tribunais para quê?




Recentemente acompanhamos bate-bocas entre Magistrados e Advogados e o Presidente da Suprema Corte brasileira, Ministro Joaquim Barbosa. Mesmo pessoas alheias ao mundo jurídico surpreendem-se com tais fatos. Evito falar sobre Direito e Justiça há vários meses porque o público deste blog (colegas virtuais e desconhecidos) acessam-no mais pelo conteúdo afim com livros, HQs e cinema. Mas como este espaço ainda se destina a mil e uma coisas (embora com poucos marcadores), darei meu ponto de vista.

Acho inoportuna a proposta de criação de mais Tribunais Regionais Federais em nosso País. Estas novas quatro Cortes dariam ao Erário uma despesa de quase 8,0 bilhões de reais ao ano. E para quê isso? Argumenta-se que será dado ao cidadão maior acesso à segunda instância da Justiça Federal, além de maior celeridade no julgamento de recursos e ações originárias do segundo grau de jurisdição. Pura abobrinha. O objetivo é tão somente criar as condições necessárias para promoções e remoções de Magistrados, além da criação de Cargos em Comissão e Funções de Confiança, destinadas ao agrado de gordos gabinetes. Só para a instalação dessas Cortes, a farra com dinheiro público em ajudas de custo seria de encher os olhos (dos beneficiários, claro).

Desde o ano de 2004, a Emenda Constitucional n.º 45 possibilitou às Cortes da União a criação de Câmaras Regionais. Se querem mais proximidade entre a segunda instância e o cidadão, por que não as instalam, em caráter permanente ou transitório? Simples: porque só daria cansaço a troco de nada mais do que a boa prestação do Serviço Público.

E parece que os defensores da criação dessas instituições não enxergam mais à frente. São imediatistas. Com a criação de mais Cortes, futuros pleitos de Magistrados e Servidores seriam fulminados com demonstrações do impacto orçamentário. E, assim, a população teria, a longo prazo, um Serviço Público sucateado, com recursos humanos desmotivados em razão de baixas remunerações, más instalações e péssimas condições de trabalho.

Esse é meu ponto de vista, resumidamente. E como é bom viver numa democracia, onde podemos nos expressar assim, desde que não ofendamos a honra de outrem e sem estarmos sob o véu do anonimato.

Um método perigoso [ Cinema ]


É fróid.

Penso que me tornei fã de David Cronenberg desde A Mosca (1986) e Scanners (1981); afinal, sou entusiasta do cinema trash e não perdia, quando garoto, nenhuma sessão do Cine Trash da TV Band, apresentada pelo José Mojica (na época, eu o conhecia apenas por Zé do Caixão). Assim, vi esta semana Um Método Perigoso, outra produção de David Cronenberg com seu ator mais "querido" dos últimos anos: Viggo Mortensen. É bom lembrar que foi no filme Senhores do Crimes (2007) - uma excelente obra de Cronenberg - que este ator recebeu sua indicação ao Oscar pela melhor performance.

Em Um Método Perigoso, passeamos por cenários europeus deslumbrantes do início do século passado, onde nascia a psicanálise. Relações de amizade, inveja e desejo surgem entre Sigmund Freud (Viggo Mortensen), Otto Gross (Vincent Cassel), Sabina Spielrein (Keira Knightley) e Carl Jung (Michael Fassbender). A trama se baseia na peça The Talking Cure, de Christopher Hampton, que romanceia fatos verídicos acerca da vida dos pais da "cura pela fala". Além do ótimo roteiro, destaco a fotografia belíssima e produção de arte impecável. Os cenários da Suíça e Áustria, por exemplo, nos deixam babando.

Outro mérito do filme foi enfeiar Keira Knightley sem muita maquiagem, apenas pela expressão de loucura da personagem por ele encarnada. Destaque para as cenas onde a pervertida leva uns "sopapos" de Carl Jung, relembrando o tesão que ela, quando criança, sentia ao apanhar do próprio pai. A inveja financeira nos olhos de Freud - em relação a Carl Jung - também merece aplausos. Viggo Mortensen reafirma-se como um grande ator, demonstrando bem sentimentos apenas com expressão, sem palavras.

Entre os momentos mais emblemáticos do filme, dou ênfase à chegada de Jung e Freud aos Estados Unidos, para uma convenção médica. Ainda no navio, olhando A Estátua da Liberdade, Jung diz: "Na minha opinião, o que estamos vendo é o futuro", ao que Freud responde: "Acha que eles sabem que estamos a caminho, levando-lhes a praga?". Será que alguém, há mais de um século, acreditaria que essa frase poderia ser representada no grande mercado - nos dias de hoje - das terapias e análises que movimentam milhões, cotidianamente, na América?

Sempre fui interessado em "sincronicidades" ou "coincidências significativas", melhores desenvolvidas nos trabalho de Carl Jung. No filme, essas posições são sugeridas, quando, por diversas vezes, Jung diz não acreditar em mero acaso. Poderiam ter melhor explorado isso, talvez. Mas a mera sugestão a essas teorias foram satisfatórias. Afinal, a produção não objetiva dissecar teorias dos pensadores ali retratados. Talvez uma abordagem mais técnica comprometesse o entretenimento esperado. Além de tudo, o filme não enche linguiça. Possui em torno de uma hora e meia, sem excessos. Um ótima opção para quem quer ver algo bacana, sem risco de decepção e perda de tempo.

Do mesmo cineasta, recomendo, ainda Marcas da Violência (2005).